ALLAN KARDEC

UMA BREVE BIOGRAFIA

PUBLICADO

NOUVEAU DICTIONNAIRE UNIVERSEL

PARIS

DOCKS DE LIBRAIRIE

38, Boulevard de Sebastopol

1865

 

 

PELO ESCRITOR ENCICLOPEDISTA

MAURICIO LACHÂTE LOPEZ

 

 

BRASIL - 2017


O site apresenta um material raro, valioso, importante no contexto da história do Espiritismo. Trata-se da citação biográfica de Allan Kardec,  publicada em 1865, pelo intelectual  Maurice Lachâtre no seu admirável compêndio  “Nouveau Dictionnaire Universel”. É importante destacar que havia ampla amizade entre Kardec e Lachâtre, logo é de supor que a pequena inscrição biográfica  teve o completo aval do Codificador, que à época ainda estava encarnado.

 

Reprodução da fonte original da citação biográfica de Allan Kardec publicada no Nouveau Dictionnaire Universel de Sr. Maurice Lachâtre, Tomo Primeiro, Pág. 199, edição de 1865.

Biografia de Allan Kardec:

Tradutor: Alexandre Rocha

“ALLAN KARDEC (Hippolyte-Léon-Denizard Rivail). (1) Chefe e fundador da Doutrina Espírita, (2) nascido em Lyon, no dia 3 de outubro (3) de 1804, originário de Bourg en Bresse, departamento do Ain. Embora filho e neto de advogados (4) e de uma antiga família que se distinguiu na magistratura e no foro, ele não seguiu essa carreira; cedo se dedicou ao estudo das ciências e da filosofia.

(1) A Certidão de Nascimento registra: Denisard, Hypolite Leon Rivail. Ver Allan Kardec – Análise de documentos biográficos, Jorge Damas Martins e Stenio Monteiro de Barros. Niterói: Lachâtre, 1999.

(2) Protestaremos sempre contra toda denominação que tenda a apresentar o Espiritismo como uma religião formal, como uma seita, tendo um chefe, ministros e uma ortodoxia. A Doutrina Espírita que, aliás, é a obra dos Espíritos e não a de Allan Kardec, olha todos os seus adeptos como irmãos que trabalham, cada um segundo suas forças e segundo a esfera de ação na qual está colocado, na edificação de uma ciência filosófica que está ainda em seus inícios. Ninguém nela possui outros graus a não ser os que foram adquiridos por seus trabalhos e por sua ciência, e, como o homem é essencialmente falível por sua natureza, a opinião de ninguém poderia ser lei. O dia em que um espírita qualquer, ainda que fosse Allan Kardec, quisesse se pôr como chefe e pretendesse impor suas idéias, ele se aperceberia que o orgulho do homem é muito mal conselheiro, e veria todos os verdadeiros espíritas repelir suas pretensões e desertar sua bandeira para seguir sempre o livre exame e a liberdade de consciência, sob cujos hábitos se abriga o progresso, único objetivo que todos perseguimos” (nota original de Auguste Bez).

(3) No original da revista La Union, numa falha de impressão, saiu dezembro em vez de outubro (os autores).

(4) A Certidão de Nascimento de Kardec registra que seu pai, Jean Baptiste Antoine Rivail era homme de loi. Muito pesquisamos sobre esta expressão, e só agora, com o texto de Maurice Lachâtre é que se pode entender todo o seu significado. Na família de Kardec havia vários magistrados; seu pai e seu avô, porém, eram advogados. Eis aí mais um senão na biografia de Henri Sausse, que informa ser seu pai: magistrado, juiz (ver O que é espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 1981, p. 10).

Aluno de Pestalozzi, na Suíça, tornou-se um dos eminentes discípulos do célebre pedagogo, e um dos propagadores de seu sistema de educação, que exerceu grande influência sobre a reforma dos estudos na França e na Alemanha. É nessa escola que se desenvolveram as idéias que deviam mais tarde colocá-lo na classe dos homens de progresso e dos livres-pensadores.

Nascido na religião católica, mas educado num país protestante, os atos de intolerância que ele teve de suportar a esse respeito fizeram-no, desde a idade de quinze anos, conceber a idéia de uma reforma religiosa, na qual trabalhou em silêncio durante longos anos, com o pensamento de chegar à unificação das crenças; mas faltou-lhe o elemento necessário para a solução desse grande problema.

O Espiritismo veio, mais tarde, fornecer-lhe e imprimir uma direção especial aos seus trabalhos. Por volta de 1850, assim que se tratou das manifestações dos Espíritos, Allan Kardec se entregou às observações perseverantes sobre esses fenômenos, e se dedicou principalmente a deduzir deles as conseqüências filosóficas. Neles entreviu, antes de tudo, o princípio de novas leis naturais: aquelas que regem as relações do mundo visível e do mundo invisível; reconheceu, na ação deste último, uma das forças da natureza, e seu conhecimento devia lançar luz sobre uma multidão de problemas reputados insolúveis, e compreendeu o alcance disso do ponto de vista científico, social e religioso.

“Suas principais obras sobre essa matéria são Le livre des Esprits, para a parte filosófica, e cuja primeira edição apareceu no dia 18 de abril de 1857; Le Livre des Médiuns, para a parte experimental e científica (janeiro de 1861); L’évangile selon le spiritisme, para a parte moral (abril de 1864); Le ciel et l’enfer, ou la justice de Dieu selon le spiritisme (agosto de 1865); La Revue Spirite, journal d’études psychologiques, coleção mensal começada no dia 1o de janeiro de 1858.

Ele fundou, em Paris, no dia 1 de abril de 1858, a primeira sociedade espírita regularmente constituída sob o nome de Société Parisiense Des Études Spirites [Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas], cujo objetivo exclusivo é o estudo de tudo que pode contribuir para o progresso dessa nova ciência.

O próprio Allan Kardec se proíbe de escrever sob a influência de idéias preconcebidas ou sistemáticas; homem de caráter frio e calmo, observou os fatos, e de suas observações deduziu as leis que os regem; primeiro deu a teoria e dela formou um corpo metódico e regular.

Demonstrando que os fatos falsamente classificados de sobrenaturais estão submetidos a leis, ele os faz entrar na ordem dos fenômenos da natureza e destrói, assim, o último refúgio do maravilhoso, um dos elementos da superstição. Durante os primeiros anos em que o assunto fora os fenômenos espíritas, essas manifestações foram mais um objeto de curiosidade do que um assunto de sérias meditações; Le Livre des Esprits fez olhar a coisa sob outro aspecto; então deixaram-se as mesas girantes, que só tinham sido um prelúdio e se concentrou num corpo de doutrina que abarcava todas as questões que interessavam à humanidade.

Da aparição do Livre des Esprits data a verdadeira fundação do espiritismo, que, até então, só possuíra elementos dispersos sem coordenação, e cujo alcance não pudera ser compreendido por todo mundo; desse momento também a doutrina fixa a atenção dos homens sérios e tomou um desenvolvimento rápido. Em poucos anos, essas idéias encontraram numerosos partidários, em todos os níveis da sociedade e em todos os países.

“Esse sucesso sem precedente se deve, sem dúvida, às simpatias que essas idéias encontraram, mas é devido também, em grande parte, à clareza, que é um dos caracteres distintivos dos escritos de Allan Kardec. Abstendo-se das fórmulas abstratas da metapsíquica, o autor soube por-se ao alcance de todo o mundo e fazer-se lido sem fadiga, condição essencial para a vulgarização de uma idéia. Sobre todos os pontos de controvérsia, sua argumentação, de uma lógica rigorosa, oferece pouca margem à refutação e predispõe à convicção.

As provas materiais que dá o Espiritismo, da existência da alma e da vida futura, tendem à destruição das idéias materialistas e panteístas. Um dos princípios mais fecundos dessa doutrina, e que decorre do precedente, é o da pluralidade das existências, já entrevisto por várias filosofias antigas e modernas e, nestes últimos tempos, por Jean Reynaud, Charles Fourier, Eugène Sue e outros; mas permanecera no estado de hipótese e de sistema, enquanto o espiritismo demonstra a realidade disso, e prova que é um dos atributos essenciais da humanidade.

Desse princípio decorre a solução de todas as anomalias aparentes da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais; o homem sabe, assim, de onde vem, para onde vai, para que fim está na Terra, e por que aí sofre. As idéias inatas se explicam pelos conhecimentos adquiridos nas vidas anteriores; a marcha dos povos e da humanidade, pelos homens dos tempos passados que revivem após ter progredido; as simpatias e as antipatias, pela natureza das relações anteriores; essas relações, que reatam a grande família humana de todas as épocas, dão como base as mesmas leis da natureza, e não mais uma teoria, aos grandes princípios de fraternidade, de igualdade, de liberdade, e de solidariedade universal”.

“A doutrina espírita, tal qual ela ressalta das obras de Allan Kardec, encerra em si os elementos de uma transformação geral nas idéias, e a transformação das idéias leva forçosamente à da sociedade. Desse ponto de vista, ela merece a atenção de todos os homens de progresso. Como sua influência se estende já sobre todos os países civilizados, dá à personalidade de seu fundador uma importância considerável, e tudo faz prever que, num futuro talvez próximo, ele será citado como um dos reformadores do século XIX”.

Fontes: Biografia de Allan Kardec publicado no Nouveau Dictionnaire Universel do Sr. Maurice Lachâtre, Tomo Primeiro, Pág. 199, edição de 1865.

***

Deixando ao Nouveau dictionnaire universel a responsabilidade de certas partes da nota bibliográfica que ele dá do Sr. Allan Kardec, acreditamos correto colocá-la sob os olhos de nossos leitores. Não saberíamos, aliás, felicitar o autor, o Sr. Maurice Lachâtre, pelo fato de que acreditou ter de incluir os neologismos necessitados pelo estabelecimento da doutrina espírita e que, até aqui, tinham sido sistematicamente rejeitados por todos os dicionários. Hoje, é um fato cumprido e as palavras espiritismo, espírita, perispírito, reencarnação, etc., etc., desde algum tempo já consagradas pelo uso, adquiriram direito de cidade na língua francesa.

A. B.

Auguste Bez

Maurice Lachâtre, Amigo de Allan Kardec, O Iluminista, O Livreiro-editor,

Protagonista do auto-de-fé de Barcelona

(1814 - 1900)

Reprodução do texto original da citação biográfica do Nouveau Dictionnaire Universel do Sr. Maurice Lachâtre, edição de 1865

Palais Royal - Galerie Valois

No dia 1 de abril de 1858, Allan Kardec fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que realizou suas atividades durante dois anos, provisoriamente, na Galerie Valois e depois Galerie Montpensier), localizadas nos prédios do Palais Royal.

Ver no site Florentino Barrera (Auto-de-fé de Barcelona)

Fontes: Bibliothèque Nationale de France (Nouveau Dictionnaire Universel. Tome Premier / Tome Second par Maurice La Châtre)

Fontes: Correio Espírita (Maurice Lachâtre homenageado no Brasil e na França pelo Bicentenário de seu nascimento)

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (O Sermão das Colinas de Kurun Hattin)

Fontes: César Perri - GEECX - Grupo de Estudos Espíritas Chico Xavier

A Doutrina Espírita é de natureza tríplice, pois abrange princípios filosóficos (é uma “filosofia espiritualista”) (1), científicos e religiosos ou morais. Daí Allan Kardec afirmar: O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática consiste nas relações que se podem estabelecer entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem de tais relações.

Tendo como referência essa orientação, o Espírito Emmanuel elucida: Podemos tomar o Espiritismo, simbolizado[…] como um triângulo de forças espirituais. A Ciência e a Filosofia vinculam à Terra essa figura simbólica, porém, a Religião é o ângulo divino que a liga ao céu.” (2)

E acrescenta:

No seu aspecto científico e filosófico, a Doutrina será sempre um campo nobre de investigações humanas, como outros movimentos coletivos, de natureza intelectual, que visam ao aperfeiçoamento da Humanidade. No aspecto religioso, todavia, repousa a sua grandeza divina, por constituir a restauração do Evangelho de Jesus Cristo, estabelecendo a renovação definitiva do homem, para a grandeza do seu imenso futuro espiritual. (3)

Em linhas gerais, o aspecto filosófico analisa a Criação Divina, explicando porque Deus criou o homem, qual é a sua origem e sua destinação, refletindo sobre as causas da felicidade e infelicidade humanas. O aspecto científico fornece comprovações a respeito da natureza e imortalidade do Espírito; a influência exercida pelos Espíritos e o intercâmbio mediúnico estabelecido entre encarnados e desencarnados. O aspecto religioso trata das consequências morais do comportamento humano, definido pelo uso do livre arbítrio e governado pela lei de causa e efeito.

A melhoria moral, orientada pelo Espiritismo, fundamenta-se nos preceitos doutrinários do Evangelho de Jesus, considerado “modelo e guia da Humanidade”: “Para o homem, Jesus representa o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ensinou é a mais pura expressão de sua lei […].” (4)

Referências

1 - KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Folha de Rosto.

2 - ____. O que é o Espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Preâmbulo.

3- XAVIER, Francisco Cândido. O consolador. Pelo espírito Emmanuel. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Definição.

4 - KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010, questão 625

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Maurice Lachâtre - Allan Kardec uma breve biografia (Nouveau Dictionnaire Universel, edição de 1865)

 

L'Union Spirite Bordelaise - Revue de l' Enseignement Des Esprits) Direction M. Auguste Bez (1866) (Fr) (Reprodução do texto original da citação biográfica do Nouveau Dictionnaire Universel do Sr. Maurice Lachâtre, edição de 1865 Por Auguste Bez) (Pág. 158)