Le Spiritisme Belge

(Revue Spirite D’Anvers)

 

O Espiritismo na Bélgica

COMENTADO POR ALLAN KARDEC

(REVISTA ESPÍRITA DE 1864)

 

OS COMBATENTES DA PRIMEIRA HORA

NA LUTA PELA CAUSA ESPÍRITA

 

Apresentação de Allan Kardec:

Notas Bibliográficas

REVISTA ESPÍRITA DE ANTUÉRPIA

(Revue Spirite d’Anvers)

Sob este título um novo órgão do Espiritismo acaba de surgir em Antuérpia, a partir de 1º de janeiro de 1864. Sabe-se que a Doutrina Espírita fez rápidos progressos nessa cidade, onde se formaram numerosas reuniões, compostas de homens eminentes pelo saber e pela posição social. Em Bruxelas, por mais tempo refratária, a ideia nova também ganha terreno, como em outras cidades da Bélgica. Uma sociedade espírita, formada recentemente, houve por bem pedir-nos que aceitássemos a presidência de honra; é dizer em que caminho ela se propõe andar.

O primeiro número da nova Revista contém: um apelo aos espíritas de Antuérpia, dois artigos de fundo, um sobre os adversários do Espiritismo, outro sobre o Espiritismo e a loucura; e um certo número de comunicações mediúnicas, algumas das quais em língua flamenga, e tudo, temos satisfação de dizer, em perfeita conformidade de vista e de princípios com a Sociedade de Paris. Essa publicação não pode deixar de ser acolhida favoravelmente num país onde as ideias novas têm uma tendência manifesta a se propagarem se, como esperamos, se mantiver à altura da ciência, condição essencial do sucesso.

O Espiritismo cresce e diariamente vê novos horizontes se abrirem à sua frente, aprofundando questões que, em sua origem, apenas tinham aflorado. Conformando-se com o desenvolvimento das ideias, os Espíritos têm, por toda parte, em suas instruções, seguido esse movimento ascensional; ao lado das produções mediúnicas de hoje, as de outrora são pálidas e quase pueris, embora, então, fossem consideradas magníficas; há entre elas a diferença do ensino dado a escolares e a adultos; é que, à medida que o homem cresce, sua inteligência, como o seu corpo, exige alimento mais substancial.

Toda publicação espírita, periódica ou não, que ficasse na retaguarda do movimento, necessariamente encontraria pouca simpatia e seria ilusão imaginar os leitores de hoje interessados por coisas elementares ou medíocres; por melhor que seja a intenção, toda recomendação seria impotente para lhes dar vida, se não a têm por si mesmas.

Para publicações deste gênero há outra condição de sucesso, ainda mais importante: a de marchar com a opinião da maioria. Na origem das manifestações espíritas, as ideias, ainda não fixadas pela experiência, provocaram muitas opiniões divergentes, que caíram perante observações mais completas, ou só contam com raros representantes. Sabe-se a que bandeira e a que princípios está hoje ligada a imensa maioria dos espíritas do mundo inteiro, Tornar-se eco de algumas opiniões atrasadas, ou seguir um atalho, é condenar-se previamente ao isolamento e ao abandono.

Os que o fizerem de boa-fé são dignos de lástima; os que agirem com intenção premeditada de interpor obstáculos e semear a divisão, só colherão vergonha. Nem uns, nem outros, podem ser encorajados por aqueles que defendem de coração os verdadeiros interesses do Espiritismo.

Quanto a nós, pessoalmente, e à Sociedade de Paris, nossas simpatias e nosso apoio moral, como se sabe, são conquistados antecipadamente por todas as publicações, como por todas as reuniões, que forem úteis à causa que defendemos.

Allan Kardec

Revista Espírita de Fevereiro de 1864

Extrato da Revista Espírita de Antuérpia:

SOBRE A CRUZADA CONTRA O ESPIRITISMO

(Revue Spirite D’Anvers)

“Decididamente o Espiritismo é uma coisa horrível, porque jamais nem ciência, nem doutrina herética, nem o próprio ateísmo levantaram contra si tão forte movimento no seio da Igreja, quanto ao Espiritismo. Todos os recursos imagináveis, leais ou não, foram postos em jogo a princípio para abafá-lo e depois, quando demonstrada a impossibilidade de liquidá-lo, para desnaturá-lo e o apresentar sobre o negro aspecto de pecados. Pobre Espiritismo!

Ele só pedia um lugarzinho ao sol para fazer que gratuitamente, o mundo gozasse de seus benefícios; não pedia a essas criaturas que, na qualidade de supostos discípulos do Cristo, do Homem-amor, se supõem sobrepelizes, não lhes pedia senão conduzir à boa via esses milhares de ovelhas que eles tinham sido incapazes de aí manter; não lhes pedia senão poder secundá-los em sua obra de devotamento, curando por uma esperança os pobres corações roídos pela gangrena da dúvida – e a esse pedido tão desinteressado, de tão pura intenção, foi respondido por um decreto de proscrição!

Na verdade veem-se coisas estranhas neste mundo: os mensageiros oficiais da caridade condenam mais de nove décimos dos homens, porque escapam à sua influência, e condenam mais profundamente ainda os que querem salvar aqueles infelizes!

“Assim, sem a menor dúvida, o Espiritismo é coisa muito culpável, desde que de tal modo combatido e é bem admirável que uma doutrina tão perversa tenha feito tanto caminho em tão curto lapso de tempo.

Mas o que parece ainda mais admirável é que esse abominável Espiritismo se tenha estabelecido tão solidamente e seja tão lógico, que todos os argumentos que lhe opõem, longe de fazê-lo desabar e reduzir-se a nada, longe mesmo de abalá-lo, ao contrário, todos vêm contribuir, por sua inanidade e manifesta impotência, para a sua solidificação e sua propagação.

Com efeito, é pelos entraves que lhe quiseram suscitar que ele deve, em notável parte, a rapidez de sua extensão e as prédicas desenfreadas de certos adversários nossos certamente não auxiliaram pouco a sua generalização. É assim na ordem das coisas: a verdade nada tem a temer de seus detratores e são esses mesmos que involuntariamente contribuem no seu triunfo. O Espiritismo é um imenso foco de calor e de luz; e quem sopra sobre este braseiro, além de infalivelmente queimar-se um pouco, não consegue outro resultado senão o reavivar ainda mais.

“Entretanto as ordenações e as conferências parecem incessantes para destruir o Espiritismo – e não estamos longe de negar essa patente insuficiência – assim a Congregação romana acaba de por no Índex todos os livros do Sr. Allan Kardec, livros que contem o ensino universal dos Espíritos e dos quais nos ligamos todos nós Espíritas. Que nos permitam fazer a respeito as duas reflexões seguintes:

Os livros espíritas em questão sem dúvida encerram, em toda a sua pureza e com os desenvolvimentos que exige o estado atual do espírito humano, os ensinos e preceitos de Jesus, em quem os Espíritos reconhecem um Messias. Condenar esses livros no Índex não é, de certo modo, ali por os evangelhos que estão de acordo conosco? Parece-nos que sim, mas é certo que não somos infalíveis como vós.

Segunda reflexão: Esta medida que hoje tomam não é um tanto tardia? Porque esperar tanto tempo? Além de ser mais ou menos inexplicável – a menos de crer que o Espiritismo vos pareça de tal modo verdadeiro e estejais de tal modo persuadidos de seu triunfo, que durante muito tempo hesitastes em atacá-lo abertamente e de frente, e de poderosíssimo interesse pessoal – pois não vos faremos a injúria de vos supor ultra ignorantes – vos decidiu ao fazer, além de ser mais ou menos inexplicável, dizemos nós, é ainda muito desajeitado.

Com efeito, o Livro dos Espíritos, o Livro dos Médiuns e a do Evangelho Segundo o Espiritismo, estão atualmente nas mãos de milhares de pessoas e não duvidamos muito que a Congregação de Roma possa agora fazer achar mau e abjeto o que cada um julgou grande e nobre.

“Seja como for, os livros espíritas estão no Índex. Tanto melhor, porque muitos dos que não os leram ainda irão devorá-los. Tanto melhor! Porque de dez pessoas que o percorrem, pelo menos sete convencer-se-ão aí, ficarão fortemente abaladas e desejosas de estudar os fenômenos espíritas; tanto melhor!

Porque os nossos próprios adversários, vendo seus esforços conduzir a resultados diametralmente opostos aos que esperavam, ligar-se-ão a nós, se forem sinceros, possuírem desinteresse e as luzes que seu mistério comporta. Aliás, assim o quer a lei de Deus: nada no mundo pode ficar eternamente estacionário; tudo progride e a ideia religiosa deve seguir o progresso geral, se não quiser desaparecer.

“Então que continuem os nossos adversários a sua cruzada; já puseram em jogo as ordenações, os sermões, os cursos públicos, as influências ocultas e, por vezes, aparentemente vitoriosas, por causa do estado dependente daqueles sobre os quais pesam tiranicamente; usaram o auto de fé, queimando publicamente nossos livros em Barcelona; só tendo podido queimar alguns exemplares e estes se substituindo em número admirável, por fim os puseram no Índex.

Ah! Não sendo mais tolerada a inquisição, posto esteja longe de não mais existir sob outra forma, e ajudados pelas influências ocultas de que acabamos de falar, só lhes resta a excomunhão de todos os Espíritas em massa, isto é, de notável fração de homens e, em particular, de notável fração de cristãos – não falamos senão dos Espíritas confessos, pois inapreciável é o número dos que o são sem saber.

Revue Spirite D’Anvers

Allan Kardec

Revista Espírita de Julho de 1864

CORRESPONDÊNCIA:

SOCIEDADES DE ANTUÉRPIA E DE MARSELHA

Antuérpia, 27 de fevereiro de 1864.

Caro mestre, temos a honra de vos informar que acabamos de constituir em Antuérpia uma nova sociedade, sob a denominação de Círculo Espírita Amor e Caridade.

Como vereis pelo Art. 2º do regulamento, nós nos colocamos sob o patrocínio da sociedade central de Paris, assim como sob o vosso. Em consequência, declaramos ligar-nos à doutrina emitida no Livro dos Espíritos e no Livro dos médiuns.

Temos a firme vontade de nos mantermos na via dos verdadeiros espíritas, e dizer-vos que a caridade é o objetivo principal de nossas reuniões.

A fim de que fiqueis bem convencido da sinceridade de nossos sentimentos, tende a bondade de consultar o presidente espiritual de vossa sociedade. Por mais frágeis que até aqui tenham sido os nossos esforços, eles têm sido sinceros, e sob esse ponto de vista, temos a convicção que para ele não mais somos estranhos.

Em anexo temos a honra de vos remeter uma das comunicações obtidas em nosso círculo, através de um médium falante, a fim de que possais julgar nossas tendências... etc.

OBSERVAÇÃO: Com efeito, esta carta foi acompanhada por uma comunicação muito extensa, que testemunha o bom caminho em que se encontra essa sociedade.

No mesmo sentido recebemos outra carta da parte da Sociedade Espírita de Marselha.

Marselha, 21 de março de 1864.

Senhor Presidente, temos a felicidade de vos anunciar a formação de nossa nova sociedade, que toma o título de Sociedade Marselhesa dos Estudos Espíritas, cuja autorização acaba de ser concedida pelo Senhor Senador encarregado da administração do departamento das Bouches-du-Rhône.

Ajudados por vossos bons conselhos, caro mestre, faremos todos os esforços para marchar nas pegadas de nossos irmãos de Paris, cujo regulamento adotamos para a ordem de nossas sessões. Colocando-nos sob o patrocínio da Sociedade de Paris, como ela inscreveremos em nossa bandeira: Fora da caridade não há salvação.

O Sr. Dr. C..., nosso presidente, também terá a honra de vos escrever logo depois da inauguração.

No interesse da causa, senhor, nós vos rogamos a fineza de dar à nossa sociedade a publicidade que julgardes útil, a fim de aliar os adeptos sinceros.

Recebei, etc.

Já dissemos que entre as sociedades espíritas que tanto se formam na França quanto no estrangeiro, em sua maioria declaram colocar-se sob o patrocínio da Sociedade de Paris. Todas as cartas que nos são dirigidas a propósito são concebidas no mesmo espírito que as publicadas acima.

Essas adesões, comunicadas espontaneamente, testemunham os princípios que prevalecem entre os espíritas, e a Sociedade de Paris não pode deixar de sensibilizar-se com estes sinais de simpatia, que provam a séria intenção de marchar sob a mesma bandeira. Isto não quer dizer que outras, que não fizeram essa declaração oficial, sigam outra orientação, longe disto. A correspondência que mantêm conosco é uma garantia suficiente de seus sentimentos e da boa direção de seus estudos.

Um grandíssimo número de reuniões, aliás, não têm o caráter de sociedades propriamente ditas, e em grande parte não passam de simples grupos. Fora das sociedades e dos grupos regulares, as reuniões de família, onde só recebem pessoas íntimas, são inumeráveis e se multiplicam diariamente, sobretudo nas classes altas.

Allan Kardec

Revista Espírita de Abril de 1864

O Espiritismo na Bélgica:

Cedendo às insistentes solicitações de nossos irmãos espíritas de Bruxelas e de Antuérpia, fizemos-lhes uma rápida visita este ano e temos a satisfação de dizer que trouxemos a mais favorável impressão do desenvolvimento da doutrina naquele país. Ali encontramos maior número de adeptos do que esperávamos, devotados e esclarecidos.

A acolhida simpática que nos foi feita naquelas duas cidades deixou-nos uma lembrança que jamais se apagará, e contamos os momentos ali passados no número dos mais agradáveis para nós. Não podendo enviar nossos agradecimentos a cada um em particular, gostaríamos que os recebessem aqui coletivamente.

Retornando a Paris, encontramos uma mensagem dos membros da Sociedade Espírita de Bruxelas, a qual nos tocou profundamente. Conservamo-la preciosamente como um testemunho de sua simpatia, mas eles compreenderão facilmente os motivos que nos impedem de publicá-la em nossa Revista. Entretanto, há uma passagem que nos impõe o dever de levar ao conhecimento de nossos leitores, porque o fato revelado diz mais que longas frases sobre a maneira pela qual certas pessoas compreendem o objetivo do Espiritismo. Está assim concebida:

“Comemorando vossa viagem à Bélgica, nosso grupo decidiu fundar um leito de criança na creche de Saint Josse Tennoode.

Para nós, nada podia ser mais lisonjeiro do que semelhante testemunho. A fundação de uma obra de beneficência, em memória de nossa visita, é uma prova de grande estima, que nos honra muito mais do que as mais brilhantes recepções que pudessem lisonjear o amor-próprio de quem lhe é objeto, mas a ninguém aproveitam e não deixam qualquer traço útil.

Antuérpia se distingue por um maior número de adeptos e de grupos. Mas lá, como em Bruxelas e, aliás, em toda parte, os que participam de reuniões de certo modo oficiais e regularmente constituídas, estão em minoria.

As relações sociais e as opiniões emitidas nas conversas provam que as simpatias pela doutrina se estendem muito além dos grupos propriamente ditos. Se nem todos os habitantes são espíritas, ali a ideia não encontra oposição sistemática; dela se fala como de uma coisa natural e não riem. Como os adeptos, em geral, pertencem ao alto comércio, nossa chegada foi novidade na bolsa e monopolizou a conversação, sem mais importância do que se se tratasse da chegada de uma carga de mercadorias.

Vários grupos são compostos de número limitado de membros e se designam por um título especial e característico; é assim que um se intitula: A Fraternidade, outro Amor e Caridade, etc. Acrescentemos que esses títulos não são para eles insígnias banais, mas divisas que se esforçam por justificar.

O grupo Amor e Caridade, por exemplo, tem por objetivo especial a caridade material, sem prejuízo das instruções dos Espíritos, que, de certo modo, constituem a parte acessória. Sua organização é muito simples e dá excelentes resultados. Um dos membros tem o título de esmoler, nome que corresponde perfeitamente às suas funções de distribuir socorros a domicílio; por diversas vezes os Espíritos já indicaram nomes e endereços de pessoas necessitadas. O nome esmoler voltou, assim à sua significação primitiva, da qual se havia singularmente desviado.

Esse grupo possui um médium tiptólogo excepcional e dele faremos objeto de um artigo especial.

Aqui só fazemos constatar os bons elementos, que fazem bem augurar do Espiritismo nesse país, onde só há pouco criou raízes, o que não quer dizer que certos grupos dali não tenham tido, como em outros lugares, desavenças e decepções inevitáveis, quando se trata do estabelecimento de uma ideia nova.

No começo de uma doutrina, sobretudo tão importante quanto o Espiritismo, é impossível que todos os que se declaram seus partidários lhe compreendam o alcance, a gravidade e as consequências. Deve-se, pois, esperar desvios da rota em pessoas que só lhe veem a superfície, ambições pessoais, aquelas para quem o Espiritismo é mais um meio que uma sincera convicção, sem falar de gente que toma todas as máscaras para se insinuar, visando a servir os interesses dos adversários; porque, assim como o hábito não faz o monge, o nome de espírita não faz o verdadeiro espírita.

Mais cedo ou mais tarde esses espíritas fracassados, cujo orgulho ficou vivaz, causam nos grupos atritos penosos e suscitam entraves, dos quais sempre se triunfa com perseverança e firmeza. São provações para a fé dos espíritas sinceros.

A homogeneidade e a comunhão de pensamentos e sentimentos são, para os grupos espíritas, como para quaisquer outras reuniões, a condição sine qua non de estabilidade e de vitalidade. É para tal objetivo que devem tender todos os esforços, e compreende-se que é tanto mais fácil atingi-lo quanto menos numerosas as reuniões.

Nas grandes reuniões é quase impossível evitar a intromissão de elementos heterogêneos que, mais cedo ou mais tarde, aí semeiam a cizânia. Nas pequenas reuniões, onde todos se conhecem e se estimam, onde se está como em família, o recolhimento é maior, a intrusão dos mal-intencionados mais difícil. A diversidade dos elementos de que se compõem as grandes reuniões torna-as, por isso mesmo, mais vulneráveis à surda intriga dos adversários.

É preferível, pois, que haja numa cidade cem grupos de dez a vinte adeptos, dos quais nenhum se arroga a supremacia sobre os outros, a uma sociedade única, que reunisse todos os partidários. Esse fracionamento em nada prejudicará a unidade dos princípios, desde que a bandeira seja única e todos marchem para o mesmo objetivo. É o que parece ter sido perfeitamente compreendido por nossos irmãos de Antuérpia e de Bruxelas.

Em síntese, nossa viagem à Bélgica foi fértil em ensinamentos no interesse do Espiritismo, pelos documentos que recolhemos e que serão, oportunamente, postos em proveito de todos.

Não esquecemos uma das mais honrosas menções ao grupo espírita de Douai, que visitamos de passagem, e um particular testemunho de gratidão pela acolhida que ali nos dispensaram. É um grupo familiar, onde a doutrina espírita evangélica é praticada em toda a sua pureza.

Ali reinam a mais perfeita harmonia, a benevolência recíproca, a caridade em pensamentos, palavras e ações; ali se respira uma atmosfera de fraternidade patriarcal, isenta de eflúvios malfazejos, onde os bons Espíritos devem comprazer-se tanto quanto os homens; por isso, as comunicações retratam a influência desse meio simpático.

Deve-se à sua homogeneidade e aos escrupulosos cuidados nas admissões, jamais haver sido perturbado por dissensões e desavenças por que os outros sofreram; é que todos os que dele fazem parte são espíritas de coração e nenhum procura fazer prevalecer a sua personalidade. Os médiuns aí são relativamente muito numerosos; todos se consideram como simples instrumentos da Providência, isentos de orgulho, sem pretensões pessoais, e se submetem humildemente e sem melindres ao julgamento sobre as comunicações que recebem, prontos a destruí-las se forem consideradas más.

Um poema encantador foi obtido em nossa intenção e após a nossa partida. Agradecemos ao Espírito que o ditou e ao seu intérprete; conservamo-lo como preciosa lembrança. São desses documentos que não podemos publicar e que só aceitamos a título de incentivo.

Temos a satisfação de dizer que esse grupo não é o único nestas condições favoráveis e de ter podido constatar que as reuniões verdadeiramente sérias, aquelas em que cada um procura melhorar-se, de onde a curiosidade foi banida, as únicas que merecem a qualificação de espíritas, multiplicam-se diariamente.

Oferecem em pequena escala o que poderá vir a ser a sociedade, quando o Espiritismo, bem compreendido e universalizado, formar a base das relações mútuas. Então os homens nada mais terão a temer uns dos outros; a caridade fará reinar entre eles a paz e a justiça. Tal será o resultado da transformação que se opera, cujos efeitos a geração futura começará a sentir.

Allan Kardec

Revista Espírita de Outubro de 1864

ALOCUÇÃO DO SR. ALLAN KARDEC:

AOS ESPÍRITAS DE BRUXELAS E ANTUÉRPIA

Publicamos esta alocução a pedido de muitas pessoas que nos testemunharam o desejo de conservá-la, e porque ela tende a fazer encarar o Espiritismo sob um aspecto de certo modo novo. A Revista Espírita de Antuérpia a reproduziu integralmente.

Senhores e caros irmãos espíritas,

Apraz-me dar-vos este título porque, posto eu não tenha a vantagem de conhecer todas as pessoas presentes a esta reunião, quero crer que aqui estamos em família e todos em comunhão de pensamentos e de sentimentos. Admitindo, mesmo, que nem todos os assistentes fossem simpáticos à nossas ideias, não os confundira menos no sentimento fraterno que deve animar os verdadeiros espíritas para com todos os homens, sem distinção de opinião.

Contudo, é aos nossos irmãos em crença que me dirijo mais especialmente, para lhes exprimir a satisfação que experimento de me achar entre eles, e de lhes oferecer, em nome da Sociedade de Paris, a saudação de fraternidade espírita.

Eu já havia tido a prova de que o Espiritismo conta nesta cidade com numerosos adeptos sérios, devotados e esclarecidos, perfeitamente imbuídos do objetivo moral e filosófico da doutrina; sabia que aqui encontraria corações simpáticos, e isto foi o motivo determinante para que eu correspondesse ao insistente e grato convite que me foi feito por vários dentre vós, para uma curta visita este ano. A acolhida tão amável e cordial que recebi permitirá que leve de minha estada aqui a mais agradável lembrança.

Certamente eu teria o direito de orgulhar-me com o acolhimento que recebo nos diversos centros que visito, se não soubesse que esses testemunhos se dirigem muito menos ao homem do que à doutrina, da qual sou apenas o humilde representante, e devem ser considerados como uma profissão de fé, uma adesão aos nossos princípios. É assim que os encaro, no que pessoalmente me concerne.

Aliás, se as viagens que de tempos em tempos faço aos centros espíritas só devessem ter como resultado uma satisfação pessoal, eu as consideraria inúteis e me absteria de fazê-las. Mas, além de contribuírem para apertar os laços de fraternidade entre os adeptos, elas também têm a vantagem de me fornecer assuntos de observação e de estudo que jamais são perdidos para a doutrina.

Independentemente dos fatos que podem servir ao progresso da ciência, aí recolho os materiais da história futura do Espiritismo; os documentos autênticos sobre o movimento da ideia espírita; os elementos mais ou menos favoráveis ou contrários que ela encontra, conforme as localidades; a força ou a fraqueza e as manobras de seus adversários; os meios de combater estes últimos; o zelo e o devotamento de seus verdadeiros defensores.

Entre estes últimos deve-se colocar na primeira linha todos os que militam pela causa com coragem, perseverança, abnegação e desinteresse, sem segunda intenção pessoal, que buscam o triunfo da doutrina pela doutrina e não pela satisfação de seu amor-próprio, aqueles que, enfim, por seu exemplo, provam que a moral espírita não é palavra vã, e se esforçam por justificar essa notável afirmação de um incrédulo: Com uma tal doutrina, não se pode ser espírita sem ser homem de bem.

Não há centro espírita onde eu não tenha encontrado um número mais ou menos grande desses pioneiros da obra, desses desbravadores do terreno, desses lutadores infatigáveis que, sustentados por uma fé sincera e esclarecida, pela consciência de cumprir um dever, não desanimem ante nenhuma dificuldade, encarando seu devotamento como uma dívida de reconhecimento pelos benefícios morais que eles receberam do Espiritismo. É justo que os nomes daqueles de que se honra a doutrina fiquem perdidos para os nossos descendentes e que não possam eles um dia ser inscritos no panteão espírita?

Infelizmente, ao lado deles por vezes se acham os meninos travessos da causa, os impacientes que, não calculando o alcance de suas palavras e de seus atos, podem comprometê-la; aqueles que, por um zelo irrefletido, por ideias intempestivas e prematuras, sem querer fornecem armas aos nossos adversários. Depois vêm aqueles que, considerando o Espiritismo apenas superficialmente, sem serem tocados no coração, por seu próprio exemplo dão uma falsa ideia de seus resultados e de suas tendências morais.

Eis aí, sem contradita, o maior escolho que encontram os sinceros propagadores da doutrina, pois muitas vezes eles veem a obra que penosamente esboçaram desfeita por aqueles que deveriam secundá-los. É um fato comprovado que o Espiritismo é mais entravado pelos que o compreendem mal do que pelos que absolutamente não o compreendem, e mesmo por seus inimigos declarados.

E é de notar que aqueles que o compreendem mal geralmente têm a pretensão de compreendê-lo melhor que os outros, e não é raro ver noviços pretenderem, ao cabo de alguns meses, dar lições àqueles que adquiriram experiência em estudos sérios. Tal pretensão, que revela o orgulho, é uma prova evidente da ignorância dos verdadeiros princípios da doutrina.

Que os espíritas sinceros, entretanto, não desanimem, pois esse é um resultado do momento de transição que vivemos. As ideias novas não podem estabelecer-se de repente e sem estorvos. Como lhes é preciso varrer as ideias antigas, forçosamente encontram adversários que as combatem e as repelem, e depois, as criaturas que as tomam pelo avesso, que as exageram ou querem acomodá-las a seus gostos ou a suas opiniões pessoais.

Mas chega o momento em que, conhecidos e compreendidos os verdadeiros princípios pela maioria, as ideias contraditórias caem por si mesmas. Já vedes o que aconteceu com todos os sistemas isolados, surgidos na origem do Espiritismo. Todos caíram ante a observação mais rigorosa dos fatos, ou só encontram ainda uns poucos desses partidários tenazes que em tudo se aferram às suas primeiras ideias, sem dar um passo à frente.

A unidade se estabeleceu na crença espírita com muito mais rapidez do que era dado esperar. É que os Espíritos vieram confirmar em todos os pontos os princípios verdadeiros, de sorte que hoje há entre os adeptos do mundo inteiro uma opinião predominante que, se ainda não conta com a unanimidade absoluta, conta, incontestavelmente, com a da imensa maioria, do que se segue que aquele que quer marchar ao arrepio dessa opinião, encontrando pouco ou nenhum eco, se condena ao isolamento. Aí está a experiência para demonstrá-lo.

Para remediar o inconveniente que acabo de assinalar, isto é, para prevenir as consequências da ignorância e das falsas interpretações, é preciso cuidar da divulgação das ideias justas, de formar adeptos esclarecidos cujo número crescente neutralizará a influência das ideias erradas.

Minhas visitas aos centros espíritas, naturalmente, têm por objetivo principal ajudar os irmãos em crença em suas tarefas. Aproveito, assim, para lhes dar as instruções de que possam necessitar, como desenvolvimento teórico ou aplicação prática da doutrina, tanto quanto me é possível fazê-lo.

A finalidade dessas visitas é séria e exclusivamente no interesse da doutrina, assim, não busco ovações, que não são do meu gosto nem do meu caráter. Minha maior satisfação é a de me encontrar com amigos sinceros, devotados, com os quais a gente pode entreter-se sem constrangimento e se esclarecer mutuamente, por uma discussão amistosa, à qual cada um leva o contributo de suas próprias observações.

Nessas excursões, não vou pregar aos incrédulos e jamais convoco o público para catequizá-lo. Numa palavra, não vou fazer propaganda. Só apareço em reuniões de adeptos, nas quais meus conselhos são desejados e podem ser úteis. Eu os dou de boa vontade aos que julgam deles necessitar e abstenho-me com os que se julgam bastante esclarecidos para dispensá-los. Só me dirijo aos homens de boa vontade.

Se nessas reuniões, excepcionalmente, se insinuarem pessoas atraídas apenas pela curiosidade, elas ficariam desapontadas, pois aí nada encontrariam que pudesse satisfazê-las, e se estivessem animadas de um sentimento hostil ou difamatório, o caráter eminentemente sério, sincero e moral da assembleia e dos assuntos aí tratados tiraria qualquer pretexto plausível para a sua malevolência.

Tais são os pensamentos que exprimo nas diversas reuniões a que sou chamado a assistir, a fim de que não se equivoquem quanto às minhas intenções.

Eu disse inicialmente que eu não era senão o representante da doutrina. Algumas explicações sobre o seu verdadeiro caráter naturalmente chamarão a vossa atenção para um ponto essencial que até agora não foi suficientemente considerado.

Certamente, vendo a rapidez do progresso desta doutrina, haveria mais glória em dizer-me seu criador; meu amor-próprio aí encontraria sua compensação, mas não devo considerar a minha parte maior do que ela é. Longe de lamentar, eu me felicito por isso, porque, então, a doutrina não passaria de uma concepção individual, que poderia ser mais ou menos justa, mais ou menos engenhosa, mas que, por isso mesmo, perderia sua autoridade.

Ela poderia ter partidários, talvez fazer escola, como muitas outras, mas certamente não teria adquirido, em poucos anos, o caráter de universalidade que a distingue.

Eis um fato capital, senhores, que deve ser proclamado bem alto. Não, o Espiritismo não é uma concepção individual, um produto da imaginação; não é uma teoria, um sistema inventado para a necessidade de uma causa. Ele tem sua fonte nos fatos da própria Natureza, em fatos positivos, que se produzem aos nossos olhos a cada instante, mas cuja origem não se suspeitava.

É, pois, resultado da observação, numa palavra, uma ciência, a ciência das relações entre os mundos visível e invisível, ciência ainda imperfeita, mas que diariamente se completa por novos estudos e que, tende certeza, tomará posição ao lado das ciências positivas. Digo positivas porque toda ciência que repousa sobre fatos é uma ciência positiva, e não puramente especulativa.

O Espiritismo nada inventou, porque não se inventa o que está na Natureza. Newton não inventou a lei da gravitação, pois essa lei universal existia antes dele; cada um a aplicava e lhe sentia os efeitos, entretanto, ela não era conhecida.

Por sua vez, o Espiritismo vem mostrar uma nova lei, uma nova força da Natureza: a que reside na ação do Espírito sobre a matéria, lei tão universal quanto a da gravitação e a da eletricidade, contudo ainda desconhecida e negada por certas pessoas, como o foram todas as outras leis no momento de sua descoberta. É que os homens geralmente sentem dificuldade em renunciar às suas ideias preconcebidas e, por amor-próprio, custa-lhes concordar que estavam enganados, ou que outros tenham podido encontrar o que eles próprios não encontraram.

Mas como, definitivamente, esta lei repousa sobre fatos, e contra os fatos não há negação que possa prevalecer, eles terão que render-se à evidência, como os mais recalcitrantes tiveram que fazê-lo quanto ao movimento da Terra, à formação do globo e aos efeitos do vapor. Por mais que taxem os fenômenos de ridículos, não podem impedir a existência daquilo que existe.

Assim, o Espiritismo procurou a explicação dos fenômenos de uma certa ordem, e que em todas as épocas se produziram de maneira espontânea. Mas o que, sobretudo, o favoreceu nessas pesquisas, é que lhe foi dado o poder de produzi-los e de provocá-los, até certo ponto. Ele encontrou nos médiuns, instrumentos adequados a tal efeito, como o físico encontrou na pilha e na máquina elétrica os meios de reproduzir os efeitos do raio. Entenda-se que isto é uma comparação e que não pretendo estabelecer uma analogia.

Há aqui, entretanto, uma consideração de alta importância. É que, em suas pesquisas, ele não procedeu por via de hipóteses, como o acusam. Ele não supôs a existência do mundo espiritual para explicar os fenômenos que tinha sob as vistas. Ele procedeu pela via da análise e da observação. Dos fatos remontou à causa e o elemento espiritual a ele se apresentou como força ativa; ele só o proclamou depois de havê-lo constatado.

Como força e como lei da Natureza, a ação do elemento espiritual abre, assim, novos horizontes à Ciência, dando-lhe a chave de uma porção de problemas incompreendidos.

Mas, se a descoberta de leis puramente materiais produziu no mundo revoluções materiais, a do elemento espiritual nele prepara uma revolução moral, porque ela muda totalmente o curso das ideias e das crenças mais arraigadas; ela mostra a vida sob um outro aspecto; ela mata a superstição e o fanatismo; ela engrandece o pensamento, e o homem, em vez de se arrastar na matéria, de circunscrever sua vida entre o nascimento e a morte, eleva-se ao infinito; ele sabe de onde vem e para onde vai; ele vê um objetivo para o seu trabalho, para os seus esforços, uma razão de ser para o bem; ele sabe que nada do que aqui adquire em saber e moralidade fica perdido.

E que o seu progresso continua indefinidamente no além-túmulo; ele sabe que há sempre um futuro para si, sejam quais forem a insuficiência e a brevidade da presente existência, ao passo que a ideia materialista, circunscrevendo a vida à existência atual, dá-lhe como perspectiva o nada, que nem mesmo tem por compensação a duração, que ninguém pode aumentar à sua vontade, desde que podemos cair amanhã, dentro de uma hora, e então o fruto de nossos labores, de nossas vigílias, dos conhecimentos adquiridos estarão para nós perdidos para sempre, muitas vezes sem termos tido tempo de desfrutá-los.

O Espiritismo, eu o repito, demonstrando, não por hipótese, mas por fatos, a existência do mundo invisível e o futuro que nos aguarda, muda completamente o curso das ideias; dá ao homem a força moral, a coragem e a resignação, porque ele não mais trabalha apenas pelo presente, mas pelo futuro; ele sabe que se não gozar hoje, gozará amanhã. Demonstrando a ação do elemento espiritual sobre o mundo material, ele alarga o domínio da Ciência e abre, por isto mesmo, uma nova via ao progresso material.

Então terá o homem uma base sólida para o estabelecimento da ordem moral na Terra. Ele compreenderá melhor a solidariedade que existe entre os seres deste mundo, porquanto essa solidariedade se perpetua indefinidamente; a fraternidade deixa de ser palavra vã; ela mata o egoísmo, em vez de ser morta por ele e, muito naturalmente, imbuído destas ideias, o homem a elas conformará as suas leis e suas instituições sociais.

O Espiritismo conduz inevitavelmente a essa reforma. Assim, pela força das coisas, realizar-se-á a revolução moral que deve transformar a Humanidade e mudar a face do mundo, e isto simplesmente pelo conhecimento de uma nova lei da Natureza que dá um outro curso às ideias, uma significação a esta vida, um objetivo às aspirações do futuro, e faz encarar as coisas de outro ponto de vista.

Se os detratores do Espiritismo ─ eu falo dos que militam pelo progresso social, dos escritores que pregam a emancipação dos povos, a liberdade, a fraternidade e a reforma dos abusos ─ conhecessem as verdadeiras tendências do Espiritismo, seu alcance e seus inevitáveis resultados, em vez de atacá-lo, como o fazem, e de lançar incessantemente obstáculos no seu caminho, nele veriam a mais poderosa alavanca para chegar à destruição dos abusas que combatem; em vez de lhe serem hostis, eles o aclamariam como um socorro providencial. Infelizmente, a maioria acredita mais em si do que na Providência.

Mas a alavanca age sem eles e apesar deles, e a força irresistível do Espiritismo será tanto melhor constatada quanto mais ele tiver a combater. Um dia, deles dirão ─ e isto não será para sua glória ─ o que eles próprios dizem dos que combateram o movimento da Terra e dos que negaram a força do vapor. Todas as negações, todas as perseguições não impediram que estas leis naturais seguissem o seu curso, como todos os sarcasmos da incredulidade não impedirão a ação do elemento espiritual, que é, também, uma lei da Natureza.

Considerado desta maneira, o Espiritismo perde o caráter de misticismo que lhe censuram seus detratores, pelo menos aqueles que não o conhecem. Não é mais a ciência do maravilhoso e do sobrenatural ressuscitada, é o domínio da Natureza, enriquecido por uma lei nova e fecunda, uma prova a mais do poder e da sabedoria do Criador. São, enfim, os limites recuados do conhecimento humano.

Tal é, em resumo, senhores, o ponto de vista sob o qual se deve encarar o Espiritismo. Nesta circunstância, qual foi o meu papel? Não é nem o de inventor, nem o de criador. Eu vi, observei, estudei os fatos com cuidado e perseverança; eu os coordenei e lhes deduzi as consequências: eis toda a parte que me cabe. Aquilo que fiz, outro poderia ter feito em meu lugar. Em tudo isto fui apenas um instrumento da Providência, e dou graças a Deus e aos bons Espíritos por terem querido servir-se de mim.

É uma tarefa que aceitei com alegria, e da qual me esforço por me tornar digno, pedindo a Deus me dê as forças necessárias para realizá-la segundo a sua santa vontade. Essa tarefa, entretanto, é pesada, mais pesada do que podem supor, e se tem para mim algum mérito, é que tenho a consciência de não haver recuado ante nenhum obstáculo e nenhum sacrifício; será a obra de minha vida, até meu último dia, pois ante um objetivo tão importante, todos os interesses materiais e pessoais se apagam, como pontos diante do infinito.

Termino esta curta exposição, senhores, dirigindo sinceras felicitações aos nossos irmãos da Bélgica, presentes ou ausentes, cujo zelo, devotamento e perseverança contribuíram para a implantação do Espiritismo naquele país. As sementes que foram plantadas nos grandes centros populacionais como Bruxelas, Antuérpia e outros, tenho certeza, não terão sido lançadas em solo estéril.

Allan Kardec

Revista Espírita de Novembro de 1864

Tiptologia Rápida e Inversa:

Dissemos que um dos grupos espíritas de Antuérpia possui um médium tiptólogo dotado de uma faculdade especial. Eis em que ela consiste.

A indicação das letras se faz por meio de batidas do pé da mesinha, mas com uma rapidez que quase alcança a da escrita e tal que os que as escrevem por vezes têm dificuldade de acompanhar; os golpes se sucedem como os do telégrafo elétrico em ação. Vimos fazer um ditado de vinte linhas em menos de quinze minutos.

Mas, sobretudo, o que é singular é que o Espírito dita quase sempre ao avesso, começando pela última letra. Pelo mesmo processo o médium obtém respostas a perguntas mentais e em línguas que lhe são estranhas. O médium também é psicógrafo e, neste caso, escreve igualmente pelo avesso com a mesma facilidade. A primeira vez que se produziu o fenômeno, os assistentes, não encontrando sentido nas letras recolhidas, pensaram numa mistificação; só depois de atenta observação é que descobriram o sistema empregado pelo Espírito.

Talvez não passe de uma fantasia deste último; mas, como todas as suas comunicações são muito sérias, deve-se concluir que, no caso, há uma intenção séria.

Independentemente da rapidez com a qual os golpes se sucedem, a maneira de proceder ainda torna muito mais breve a operação. Servem-se de uma mesinha de três pés; o alfabeto é dividido em três séries: a 1ª, do a ao h; a 2ª do i ao p; a 3ª do q ao z. Cada pé da mesinha corresponde a uma série de letras e bate o número de golpes necessários para designar a letra desejada, começando pela primeira da série. Por exemplo: para indicar o t, em vez de 20 batidas o pé encarregado da 3ª série apenas bate 4.

Três pessoas se posicionam junto à mesinha, uma para cada pé, enunciando a letra indicada em sua série, que, para ela, é um pequeno alfabeto, sem que tenha de se preocupar com as outras. Várias pessoas inscrevem as letras à medida que são indicadas, a fim de poder controlar, em caso de erro. O hábito de ler pelo avesso muitas vezes lhes permite adivinhar o fim de uma palavra ou de uma frase começada, como se faz no processo ordinário; o Espírito confirma, se for o caso, e passa adiante.

Esta divisão das letras, aliada à cooperação de três pessoas que não se podem entender, à rapidez do movimento e à indicação das letras em sentido inverso, torna a fraude materialmente impossível, bem como a reprodução do pensamento individual. A palavra reproduction (reprodução), por exemplo, será, então, escrita desta maneira: noitcudorper, e terá sido soletrada por três pessoas diferentes em alguns segundos, a saber: noi pela 2ª, t pela 3ª; c pela 1ª; u pela 3ª; d pela 1ª; o pela 2ª; r pela 3ª; p pela 2ª; e pela 1ª; r pela 3ª.

De todos os aparelhos imaginados para constatar a independência do pensamento do médium, nenhum supera este processo. É verdade que, para isto, é necessária a influência de um médium especial, porque as duas pessoas que o assistem não são responsáveis pela rapidez do movimento.

Este processo, em última análise, só tem utilidade real para a convicção de certas pessoas, e como constatação de um fenômeno mediúnico notável, porquanto nada pode suprir a facilidade das comunicações escritas.

Allan Kardec

Revista Espírita de Outubro de 1864

UM CRIMINOSO ARREPENDIDO

Durante a visita que acabamos de fazer aos espíritas de Bruxelas, deu-se o seguinte fato em nossa presença, numa reunião íntima de sete ou oito pessoas, a 13 de setembro.

Solicitou-se a uma senhora médium que escrevesse, sem que se tivesse feito qualquer evocação especial. Assaltada por extraordinária agitação, e depois de haver rasurado violentamente o papel, escreve em caracteres muito grossos estas palavras:

“Arrependo-me! arrependo-me! Latour.”

Surpreendidos com a inesperada comunicação, de modo algum provocada, visto que ninguém pensara nesse infeliz, cuja morte até então era ignorada por uma parte dos assistentes, dirigimos ao Espírito palavras de conforto e comiseração, fazendo-lhe em seguida esta pergunta:

- Que motivo vos levou a manifestar-vos aqui, de preferência a outro lugar, quando não vos evocamos?

Responde o médium de viva voz:

“Vi que, almas compassivas, teríeis piedade de mim, ao passo que outros me evocavam mais por curiosidade que por caridade, ou de mim se afastavam horrorizados.”

Depois começou por uma cena indescritível, que não durou mais de meia hora. O médium, juntando os gestos e a expressão da fisionomia à palavra, deixava patente a identificação do Espírito com a sua pessoa; às vezes, esses gestos de cruel desespero desenhavam vivamente o seu sofrimento; o tom da sua voz era tão compungido, as súplicas tão veementes, que ficávamos profundamente comovidos.

Alguns estavam mesmo aterrorizados com a superexcitação do médium, mas sabíamos que a manifestação de um ente arrependido, que implora piedade, nenhum perigo poderia oferecer. Se ele buscou os órgãos do médium, é que melhor desejava patentear a sua situação, a fim de que mais nos interessássemos pela sua sorte, e não como os Espíritos obsessores e possessores, que visam apoderar-se dos médiuns para os dominar. Tal manifestação lhe fora talvez permitida não só em benefício próprio, como também para edificação dos circunstantes.

Ei-lo a exclamar:

“Oh! sim, piedade... muito necessito dela... Não sabeis o que sofro... Não o sabeis, e não podereis compreendê-lo. É horrível! A guilhotina!... Que vale a guilhotina comparada a este sofrimento de agora? Nada! - é um instante. Este fogo que me devora, sim, é pior, porque é uma morte contínua, sem tréguas nem repouso... sem-fim!... E as minhas vítimas, ali estão ao redor, a mostrar-me os ferimentos, a perseguir-me com seus olhares...

“Aí estão, e vejo-as todas... todas... sem poder fugir-lhes! E este mar de sangue?! E este ouro manchado de sangue? Tudo aí está!... tudo... e sempre ante meus olhos! E o cheiro de sangue... Não o sentis? Oh! Sangue e sempre sangue! Ei-las que imploram, as pobres vítimas, e eu a feri-las sempre... sempre... impiedosamente!... O sangue inebria-me... Acreditava que depois da morte tudo estaria terminado, e assim foi que afrontei o suplício e afrontei o próprio Deus, renegando-O!...

Entretanto, quando me julgava aniquilado para sempre, que terrível despertar... oh! sim, terrível, cercado de cadáveres, de espectros ameaçadores, os pés atolados em sangue!!... Acreditava-me morto, e estou vivo! Vivo para rever tudo isto! para o ver incessantemente!... Horrendo! horrendo! mais horrendo que todos os suplícios da Terra! Ah! se todos os homens pudessem saber o que há para além da vida, saberiam também quanto custam as consequências do mal! Certo não haveria mais assassínios, nem criminosos, nem malfeitores! Eu só quisera que todos os assassinos pudessem ver o que eu vejo e sofro...

“Oh! então não mais o seriam, porque é horrível este sofrimento! Bem sei que o mereci, oh! meu Deus, porque também não tive compaixão das minhas vítimas; repelia as mãos súplices quando imploravam que as poupasse... Sim, fui cruel, decerto, matando-as covardemente para roubá-las! E fui ímpio, e fui blasfemo também, renegando o vosso sacratíssimo nome... Quis enganar-me, porque eu queria persuadir-me de que vós não existíeis...

Meu Deus, eu sou grande e criminoso! Agora o compreendo. Mas... não tereis piedade de mim?... Vós sois Deus, isto é, a bondade, a misericórdia! Sois onipotente! Piedade, Senhor, Piedade! Eu vo-lo peço, não sejais inexorável; libertai-me destes olhares odiosos, destes espectros horríveis... deste sangue... das minhas vítimas... olhares que, quais punhaladas, me varam o coração.

“Vós outros, que aqui estais, que me ouvis, sede bondosos, almas caritativas. Sim, eu o vejo, sei que tendes piedade de mim, não é verdade? Haveis de orar por mim...

“Oh! eu vo-lo suplico, não me abandoneis como fiz outrora aos outros. Pedireis a Deus que me tire este horrendo espetáculo de ante os olhos, e Ele vos ouvirá porque sois bons... Imploro, orai por mim.”

Os assistentes, sensibilizados, dirigiram-lhe palavras de conforto e consolação. Deus, disseram-lhe, não é inflexível; apenas exige do culpado um arrependimento sincero, aliado à vontade de reparar o mal praticado.

Uma vez que o vosso coração não está petrificado e que lhe pedis o perdão dos vossos crimes, a sua misericórdia baixará sobre vós. Preciso é, pois, que persevereis na boa resolução de reparar o mal que fizestes. Certo, não podeis restituir às vítimas as vidas que lhes arrancastes, mas, se o impetrardes com fervor, Deus permitirá que as encontreis em uma nova encarnação, na qual lhes podereis patentear tanto devotamento quanto o mal que lhes fizestes. E quando a reparação lhe parecer suficiente, para logo entrareis na sua santa graça.

Assim, a duração do vosso castigo está nas vossas mãos, dependendo de vós o abreviá-lo. Comprometemo-nos a auxiliar-vos com as nossas preces e invocar para vós a assistência dos bons Espíritos.

Vamos pronunciar em vossa intenção a prece que se contém na Imitação do Evangelho, referente aos Espíritos sofredores e arrependidos. Não pronunciaremos a que se refere aos maus Espíritos, porque desde que vos arrependeis, que implorais, que renunciais ao mal, não passais para nós de um Espírito infeliz e não mau.

Feita essa prece, o Espírito continua, depois de breves instantes de calma:

“Obrigado, meu Deus!... Oh! obrigado! Tivestes piedade de mim... Eis que se afastam os espectros... Não me abandoneis, enviai-me os vossos bons Espíritos para me sustentarem... Obrigado...”

Depois desta cena o médium fica alquebrado, abatido, os membros lassos por algum tempo. A princípio, apenas tem vaga ideia do que se há passado, mas pouco a pouco vai-se lembrando de algumas das palavras que pronunciou sem querer, reconhecendo que não era ele quem falara.

No dia seguinte, em nova reunião, o Espírito tornou a manifestar-se, reencetando a cena da véspera, porém por minutos apenas, e isso com a mesma gesticulação expressiva, posto que menos violenta. Depois, tomado de agitação febril, escreveu:

“Grato às vossas preces. Experimento já uma sensível melhora. Foi tal o fervor com que orei, que Deus me concedeu um momentâneo alívio; não obstante, terei de ver ainda as minhas vítimas... Ei-las! Ei-las! Vedes este sangue?…” (Repetiu-se a prece da véspera. O Espírito continua dirigindo-se ao médium.)

“Perdoai o ter-me apossado de vós. Obrigado pelo alívio que proporcionais aos meus sofrimentos. Perdoai o mal que vos causei, mas eu tenho necessidade de me comunicar, e só vós o podeis...

“Obrigado! obrigado! Já sinto algum alívio, posto não tenha atingido o fim das provações. As minhas vítimas voltarão dentro em breve. Eis a punição a que fiz jus, mas Deus meu, sede indulgente.

“Orai todos vós por mim, tende piedade.”

Latour

Observação - Conquanto não tenhamos prova material da identidade do Espírito que se manifestou, também não temos motivo para duvidar. Em todo o caso, evidentemente é um Espírito muito culpado, mas arrependido, terrivelmente infeliz e torturado pelo remorso. Sob este aspecto, a comunicação é muito instrutiva, porque não se pode menosprezar a profundeza e o elevado alcance de algumas palavras que ela encerra; além disso, oferece um dos aspectos do mundo dos Espíritos castigados, acima do qual, entretanto, se vislumbra a misericórdia de Deus.

A alegoria mitológica das Eumênides não é, assim, tão ridícula quanto se pensa, e os demônios, carrascos oficiais do mundo invisível, que os substituem na crença moderna, são menos racionais, com seus chifres e seus tridentes, do que essas vítimas, elas próprias servindo para o castigo do culpado.

Admitindo a identidade desse Espírito, talvez se admirem de uma mudança assim tão imediata em seu estado moral. É que, como fizemos notar em outra ocasião, muitas vezes há mais recursos num Espírito brutalmente mau, do que no que é dominado pelo orgulho, ou que oculta seus vícios sob o manto da hipocrisia.

Este pronto retorno a melhores sentimentos indica uma natureza mais selvagem que perversa, à qual só faltou uma boa direção. Comparando sua linguagem com a de outro criminoso, citado na Revista de julho de 1864, sob o título de: Castigo pela luz, é fácil ver qual dos dois é mais adiantado moralmente, a despeito da diferença de instrução e de posição social; um obedecia a um instinto natural de ferocidade, a uma espécie de superexcitação, enquanto o outro trazia na perpetração de seus crimes a calma e o sangue-frio de lenta e perseverante combinação e, depois da morte, ainda afrontava o castigo com orgulho. Sofre, mas não quer submeter-se, ao passo que o outro é domado imediatamente. Assim, pode prever-se qual dos dois sofrerá por mais tempo.

UM CRIMINOSO ARREPENDIDO

(Continuação)

(Passy, 4 de outubro de 1864 - Médium: Sr. Rul.)

Nota - O médium tivera a intenção de evocar Latour desde o momento do suplício. Tendo perguntado a seu guia espiritual se poderia fazê-lo, este respondeu que esperasse lhe fosse indicado o momento. Somente no dia 3 de outubro a autorização foi dada, após ter lido o artigo da Revista, que fazia referência ao caso.

P. – Ouvistes as minhas preces?

Resp. - Sim; ouvi-as e vo-las agradeço, não obstante a minha perturbação.

Fui evocado quase imediatamente depois da minha morte, porém não pude manifestar-me logo, de modo que muitos Espíritos levianos tomaram-me o nome e a vez. Aproveitei a estada em Bruxelas do Presidente da Sociedade de Paris e comuniquei-me, com a aquiescência de Espíritos superiores.

Voltarei a manifestar-me na Sociedade, a fim de fazer revelações que serão um começo de reparação às minhas faltas, podendo também servir de ensinamento a todos os criminosos que me lerem e meditarem na exposição dos meus sofrimentos. É somente sobre o Espírito dos homens fracos ou das crianças que a narrativa de penas infernais pode produzir efeitos terroristas.

Ora, um grande malfeitor não é um espírito pusilânime, e o temor da polícia é para ele mais real que a descrição dos tormentos do inferno. Eis por que todos os que me lerem ficarão comovidos com as minhas palavras e com os meus padecimentos, que não são ficções. Não há um só padre que possa dizer que viu o que tenho visto, porque tenho assistido às torturas dos danados. Mas, quando eu vier dizer: - “Eis o que se passou após a minha morte, a morte do corpo; eis a minha enorme decepção ao me reconhecer vivo, ao contrário do que supunha e tinha tomado pelo termo dos suplícios, quando era o começo de outras torturas, aliás indescritíveis!” então, mais de um se deterá à borda do precipício em que ia despenhar-se, e cada um dos desgraçados, desviados por mim da senda criminosa, concorrerá para o resgate das minhas faltas. É assim que do próprio mal sai o bem, e que a vontade de Deus se manifesta em toda parte, na Terra como no espaço.

Foi-me permitido libertar-me do olhar das minhas vítimas transformadas em carrascos, a fim de comunicar convosco; ao deixar-vos, entretanto, tornarei a vê-las e só esta ideia me causa tal sofrimento que eu não poderia descrevê-lo. Sou feliz quando me evocam, porque assim deixo o meu inferno por alguns instantes.

Orai sempre ao Senhor por mim, pedi-lhe que me liberte do olhar das minhas vítimas.

Sim, oremos juntos. A prece faz tanto bem... Estou mais aliviado; não sinto tão pesado o fardo que me acabrunha. Vejo um resquício de esperança luzindo-me aos olhos e, contrito, exclamo: Bendita a mão do Senhor e seja feita a sua vontade!

J. Latour

O guia espiritual do médium dita o seguinte:

“Não tome os primeiros gritos do Espírito que se arrepende como sinal infalível de suas resoluções. Ele pode estar de boa-fé em suas promessas, porque a primeira impressão que sente ao se ver no mundo dos Espíritos é de tal modo fulminante que, ao primeiro testemunho de caridade que recebe de um Espírito encarnado, ele se entrega às expansões do reconhecimento e do arrependimento.

Mas, por vezes, a reação é igual à ação e, em muitas outras, esse Espírito culpado, que ditou a um médium tão boas palavras, pode voltar à sua natureza perversa, às suas tendências criminosas. Como uma criança que ensaia os primeiros passos, precisa de ajuda para não cair.”

No dia seguinte o Espírito Latour foi evocado novamente.

O médium - Em vez de pedir a Deus para vos furtar ao olhar das vossas vítimas, eu vos convido a pedir a Ele que vos dê a força necessária para suportardes essa tortura expiatória.

Latour - Eu preferiria livrar-me de tais olhares. Se soubésseis quanto sofro... O homem mais insensível comover-se-ia vendo impressos na minha fisionomia, como que a fogo, os sofrimentos de minha alma. Farei, entretanto, o que me aconselhais, pois compreendo ser esse um meio de expiar um pouco mais rapidamente as minhas faltas.

É qual dolorosa operação que viesse curar um corpo gravemente adoentado. Ah! Pudessem ver-me os culpados da Terra, e ficariam apavorados das consequências de seus crimes, desses crimes que, ignorados dos homens, são, no entanto, vistos pelos Espíritos. Como a ignorância é fatal para tanta gente!

Que responsabilidade assumem os que recusam instrução às classes pobres da sociedade! Acreditam que com polícia e soldados se previnem crimes... Que grande erro! Se dobrassem ou quadruplicassem o número de agentes da autoridade, os mesmos crimes seriam cometidos, porque é preciso que os maus Espíritos encarnados cometam crimes.

Eu me recomendo à vossa caridade.

Observação - Sem dúvida é por um resquício de preconceitos terrenos que diz Latour: “É preciso que os maus Espíritos encarnados cometam crimes.” Seria a fatalidade nas ações dos homens, doutrina que a todos desculparia. Aliás, é muito natural que ao sair de semelhante existência, o Espírito não compreenda ainda a liberdade moral, sem a qual o homem estaria ao nível dos animais. Causa admiração que ele não diga coisas ainda piores.

A comunicação seguinte, do mesmo Espírito, foi obtida espontaneamente em Bruxelas, pela Sra. C..., o mesmo médium que havia servido de instrumento à cena relatada no número de outubro.

“Nada mais receeis de mim; estou mais tranquilo, embora ainda padeça. Vendo o meu arrependimento, Deus teve compaixão de mim. Agora sofro por causa desse arrependimento, que me demonstra a enormidade dos meus crimes. Bem aconselhado na vida, eu não teria jamais praticado todo esse mal, mas, sem repressão, obedeci cegamente aos meus instintos. Se todos os homens pensassem mais em Deus, ou, antes, se nele acreditassem, tais faltas não seriam cometidas.

“Falha é, porém, a justiça dos homens; uma falta muita vez passageira leva o homem ao cárcere, que não deixa de ser um foco de perversão. Daí sai ele completamente corrompido pelos maus exemplos e conselhos. Dado porém que a sua índole seja boa e forte para se não corromper, ainda assim, de lá saído, ele vai encontrar fechadas todas as portas, retraídas todas as mãos, indiferentes todos os corações!

Que lhes resta pois? O desprezo, a miséria, o abandono e o desespero, se é que o assistem boas resoluções de se corrigir. Então a miséria o leva aos extremos, e assim é que também ele se toma de desprezo por seu semelhante, assim é que o odeia e perde a noção do bem e do mal, por isso que repelido se encontra, a despeito das suas boas intenções.

Para angariar o necessário, rouba, mata às vezes, e depois... depois o executam! Meu Deus, ao ser presa novamente das minhas alucinações, sinto que a vossa mão se estende por sobre mim; sinto que a vossa bondade me envolve e protege.

“Obrigado, meu Deus! na próxima existência empregarei toda a minha inteligência no socorro aos desgraçados que sucumbiram, a fim de os preservar da queda. Obrigado a vós que não desdenhais de comunicar comigo; nada receeis, pois bem o vedes, eu não sou mau. Quando pensardes em mim, não vos figureis o meu retrato pelo que de mim vistes, mas o de uma alma angustiada que agradece a vossa indulgência.

“Adeus; evocai-me ainda e orai a Deus por mim.”

Latour

Observação - O Espírito faz alusão ao temor que sua presença inspirava ao médium.

“Sofro, diz ele ainda, por esse arrependimento, que me mostra a enormidade de minhas faltas.” Há nisto um pensamento profundo. Realmente, o Espírito não compreende a gravidade de seus erros senão quando se arrepende; o arrependimento traz o pesar, o remorso, sentimento doloroso, que é a transição do mal para o bem, da doença moral para a saúde moral. É para se furtarem a isto que os Espíritos perversos se tornam inflexíveis à voz da consciência, como os doentes que repelem o remédio que os deve curar.

Procuram iludir-se e atordoar-se, persistindo no mal. Latour chegou a um período em que o endurecimento acaba por ceder; o remorso entrou em seu coração; seguiu-se o arrependimento; compreende a extensão do mal que fez; vê a sua abjeção e sofre com isto. Eis por que diz: “Sofro por esse arrependimento.”

Em sua existência precedente, deveria ter sido pior que nesta, porquanto, se se tivesse arrependido como o fez agora, sua vida teria sido melhor. As resoluções tomadas agora influirão sobre sua existência terrestre futura; a que acaba de deixar, por mais criminosa que tenha sido, marcou-lhe uma etapa de progresso. É mais que provável que, antes de começá-la, ele fosse, na erraticidade, um desses Espíritos maus, rebeldes, obstinados no mal, como se veem tantos.

Muitas pessoas perguntaram que proveito poder-se-ia tirar das existências passadas, já que não se lembram do que foram, nem do que fizeram.

Esta questão está completamente resolvida, levando-se em conta que, se o mal que praticamos estivesse apagado, e se dele não restasse traço algum em nossos corações, sua lembrança seria inútil, uma vez que com eles não mais temos de nos preocupar. Quanto àquilo de que não nos corrigimos completamente, nós o conhecemos por nossas tendências atuais; é para estas que devemos concentrar toda a nossa atenção. Basta saber o que somos, sem que seja necessário saber o que fomos.

Durante a vida, quando se considera a dificuldade da reabilitação do mais arrependido dos culpados, da reprovação de que é objeto, deve-se agradecer a Deus por ter lançado um véu sobre o passado. Se Latour tivesse sido condenado em tempo hábil, e mesmo se tivesse sido absolvido, seus antecedentes levariam a sociedade a rejeitá-lo. A despeito do seu arrependimento quem o teria admitido na intimidade?

Os sentimentos que hoje manifesta como Espírito nos fazem esperar que, na próxima existência terrena, será um homem de bem, estimado e considerado. Mas suponde que se saiba quem foi Latour: a reprovação ainda o perseguirá. O véu lançado sobre o passado abre-lhe a porta da reabilitação; poderá sentar-se sem temor e sem desonra entre as mais distintas pessoas. Quantos não gostariam, fosse qual fosse o preço, de apagar da memória dos homens certos anos de sua existência!

Que se encontre, então, uma doutrina que melhor se concilie com a justiça e a bondade de Deus! Aliás, esta doutrina não é uma teoria, mas um resultado da observação. Não foram os espíritas que a imaginaram; eles viram e observaram as diversas situações em que se apresentam os Espíritos; procuraram a sua explicação, da qual saiu a doutrina. Se a aceitaram é porque ela resulta dos fatos e lhes pareceu mais racional que todas as concebidas até hoje sobre o futuro da alma.

Latour foi evocado muitas vezes, o que era muito natural. Mas, como sucede em casos semelhantes, houve muitas comunicações apócrifas, e os Espíritos levianos não perderam essa ocasião. A própria situação de Latour se opunha a que se pudesse manifestar quase simultaneamente em tantos pontos ao mesmo tempo. Tal ubiquidade só é privilégio dos Espíritos superiores.

As comunicações que referimos são mais autênticas? Pensamos que sim e o desejamos, sobretudo para o bem desse Espírito. Em falta dessas provas materiais, que constatam a identidade de modo absoluto, como muitas vezes são obtidas, pelo menos temos provas morais, que tanto resultam das circunstâncias em que ocorrem as manifestações, quanto da concordância. Sobre as comunicações que conhecemos, oriundas de fontes diversas, pelo menos três quartas partes concordam quanto ao fundo; entre as outras algumas não resistem a um exame, tão evidente é o erro de situação, em flagrante contradição com o que nos ensina a experiência sobre o estado dos Espíritos no mundo espiritual.

Seja como for, não se pode recusar àquelas que citamos um alto ensino moral. O Espírito pode ter sido, deve mesmo ter sido ajudado em suas reflexões e, sobretudo, na escolha das expressões, por Espíritos mais adiantados.

Mas, em casos semelhantes, estes últimos só assistem na forma, e não no fundo, e jamais põem o Espírito inferior em contradição consigo mesmo. Em Latour puderam poetizar a forma do arrependimento, mas não o teriam levado a exprimir o arrependimento contra a sua vontade, porque o Espírito tem o seu livre-arbítrio; nele viam o germe dos bons sentimentos, razão por que o ajudaram a exprimi-los, contribuindo, dessa maneira, para desenvolvê-los, ao mesmo tempo que para ele atraíram a comiseração.

Há algo de mais comovente, de mais moral, susceptível de impressionar mais vivamente, do que o quadro desse grande criminoso arrependido, a manifestar desespero e remorso? que, em meio às torturas, perseguido pelo olhar incessante de suas vítimas, eleva o pensamento a Deus para implorar misericórdia? Não está aí um salutar exemplo para os culpados? Tudo é sensato em suas palavras; tudo é natural em sua situação, enquanto a que lhe é atribuída por certas comunicações é ridícula.

Compreende-se a natureza de suas angústias; elas são racionais, terríveis, embora simples e sem encenação fantasmagórica. Por que se não teria arrependido? Por que não haveria nele uma corda sensível e vibrante? Está precisamente aí o lado moral de suas comunicações; é a inteligência que tem da situação; são os pesares, as resoluções, os projetos de reparação que são eminentemente instrutivos. Que haveria de extraordinário no fato de ter-se arrependido sinceramente antes de morrer? que tivesse dito antes o que dissera depois?

Aos olhos da maioria de seus semelhantes, um retorno ao bem antes de sua morte teria passado por uma fraqueza. Sua voz de além-túmulo é a revelação do futuro que os aguarda. Está absolutamente certo quando diz que o seu exemplo é mais adequado a reconduzir os culpados que as perspectiva das chamas do inferno e, mesmo, o patíbulo.

Por que, então, não o daria nas prisões? Isto levaria mais de um a refletir, conforme temos vários exemplos. Como, porém, acreditar nas palavras de um morto, quando se crê que, após a morte, tudo está acabado? Contudo, dia virá em que se reconhecerá esta verdade: que os mortos podem vir e instruir os vivos.

N. do T.: Vide O Céu e o Inferno, 2ª parte, capítulo VI (Jacques Latour)

Allan Kardec

Revista Espírita de Novembro de 1864

Ver no site os Continuadores do Espiritismo na Bélgica após Allan Kardec "José Lhomme"

Fontes: Canal Espírita Jorge Hessen (O Espiritismo De Kardec Aos Dias De Hoje - Filme Completo) (Documentário Produzido pela Federação Espírita do Brasil)

Fontes: Union Spirite Belge

Fontes: Vade Mecum Espírita

"Os livros espíritas em questão sem dúvida encerram, em toda a sua pureza e com os desenvolvimentos que exige o estado atual do espírito humano, os ensinos e preceitos de Jesus, em quem os Espíritos reconhecem um Messias. Condenar esses livros no Índex não é, de certo modo, ali por os evangelhos que estão de acordo conosco? Parece-nos que sim, mas é certo que não somos infalíveis como vós.

Segunda reflexão: Esta medida que hoje tomam não é um tanto tardia? Porque esperar tanto tempo? Além de ser mais ou menos inexplicável – a menos de crer que o Espiritismo vos pareça de tal modo verdadeiro e estejais de tal modo persuadidos de seu triunfo, que durante muito tempo hesitastes em atacá-lo abertamente e de frente, e de poderosíssimo interesse pessoal – pois não vos faremos a injúria de vos supor ultra ignorantes – vos decidiu ao fazer, além de ser mais ou menos inexplicável, dizemos nós, é ainda muito desajeitado.

Com efeito, o Livro dos Espíritos, o Livro dos Médiuns e a do Evangelho Segundo o Espiritismo, estão atualmente nas mãos de milhares de pessoas e não duvidamos muito que a Congregação de Roma possa agora fazer achar mau e abjeto o que cada um julgou grande e nobre.

“Seja como for, os livros espíritas estão no Índex. Tanto melhor, porque muitos dos que não os leram ainda irão devorá-los. Tanto melhor! Porque de dez pessoas que o percorrem, pelo menos sete convencer-se-ão aí, ficarão fortemente abaladas e desejosas de estudar os fenômenos espíritas; tanto melhor!

Porque os nossos próprios adversários, vendo seus esforços conduzir a resultados diametralmente opostos aos que esperavam, ligar-se-ão a nós, se forem sinceros, possuírem desinteresse e as luzes que seu mistério comporta. Aliás, assim o quer a lei de Deus: nada no mundo pode ficar eternamente estacionário; tudo progride e a ideia religiosa deve seguir o progresso geral, se não quiser desaparecer."

Allan Kardec - Revista Espírita, julho de 1864 - Extrato da Revista Espírita de Antuérpia - Sobre a cruzada contra o Espiritismo

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Allan Kardec - Revista Espírita (FEB) - 1864

 

Revue Spirite (Revues Spirites janvier 1858 - mai 1869) (Directeur: Allan Kardec)

 

Le Spiritisme Belge (Fr)