Resposta de Allan Kardec a um artigo

Publicado na Gazeta de Lyon em agosto de 1860

(Textos Extraídos da Revista Espírita de outubro de 1860)

Apresentação do tema:

“Uma sessão entre os Espíritas”

(Publicado na Revista Espírita, outubro de 1860)

Sob o título de: “Uma sessão entre os Espíritas”, a Gazette de Lyon publicou, em seu número de 2 de agosto de 1860, o artigo seguinte, ao qual o Sr. Allan Kardec, durante a sua permanência em Lyon, deu a resposta que se encontrará adiante, mas que esse jornal ainda não julgou oportuno reproduzir.

– Chamam-se Espíritas certos alucinados que, tendo rompido com todas as crenças religiosas de sua época e de seu país, fazem, todavia, profissão de se crerem em relação com os Espíritos.

Gerado pelas mesas girantes, o Espiritismo, entretanto, não é senão uma das mil formas desse estado patológico no qual o cérebro humano pode cair, quando se deixa levar a essas mil aberrações das quais a antigüidade, a Idade Média e os tempos atuais não deram senão muitos exemplos.

Condenados prudentemente pela Igreja, todas essas pesquisas misteriosas que saem do domínio dos fatos positivos, não têm outro resultado que o de produzirem a loucura naqueles que delas se ocupam, supondo que esse estado de loucura já não tenha passado ao estado crônico no cérebro dos adeptos, o que está longe de ser demonstrado.

Os Espíritas têm um jornal em Paris, e basta ler-lhe algumas passagens para se assegurar de que não exageramos nada. A inépcia das perguntas dirigidas aos Espíritos que são evocados não têm igual senão a inépcia de suas respostas, e se lhes pode dizer, com razão, que não vale a pena retornar do outro mundo para dizer tantas bagatelas.

Breve essa loucura nova, renovada das antigas, virá cair sobre a nossa cidade. Lyon possui Espíritas, e é na casa de simples canus que os Espíritos se dignam manifestar-se.

O antro de Trophonius está situado (sic) numa oficina, o grande sacerdote do lugar é um trabalhador em seda, e a sibila é a sua esposa; os adeptos são geralmente obreiros, porque ali não se recebe facilmente aqueles que, pelo seu exterior, anunciam muita inteligência: os Espíritos não se dignam manifestar-se senão aos simples. Provavelmente, foi o que nos valeu para sermos admitidos.

Convidado para assistir a uma das reuniões hebdomadárias dos Espíritas lioneses, penetramos numa oficina contendo quatro operários, dos quais um achava-se desprovido de trabalho. Foi ali, entre essas quatro potências, que a sibila tomou lugar em face de uma mesa quadrada, sobre a qual se esparramavam um caderno com uma pena de pato. Notai bem que dissemos uma pena de pato, e não uma pena metálica, os Espíritos tendo horror aos metais.

Vinte a vinte e cinco pessoas, dos dois sexos, compreendendo-se entre elas o vosso servidor, faziam círculo ao redor da mesa.

Depois de um pequeno speech do grande sacerdote, sobre a natureza dos Espíritos, e tudo recitado em estilo que deveria encantar os Espíritos, por causa de sua... simplicidade, as perguntas começaram.

Um jovem aproximou-se e perguntou à sibila: – Por que oito dias antes dos combates, seja na Criméia, seja na Itália, eu era sempre chamado para outra parte?

A inspirada (é o nome que se lhe dá) pegando a pena de pato, a passeia um instante sobre o papel, onde traça sinais cabalísticos, depois pronuncia esta fórmula: "Meu Deus, dai-me a graça de nos esclarecer sobre este assunto!" Em seguida acrescenta: "Eu li a resposta seguinte: É que estais destinado a viver para instruir e esclarecer os vossos irmãos."

É um adepto influente que se quer ganhar para a causa, evidentemente; além do mais, foi soldado, e talvez um ex-zuavo; não vamos nos fazer um mau assunto, e passemos.

Um outro jovem se aproxima, a seu turno, e pergunta: – O Espírito de meu pai me acompanha e protege nos combates?

Resposta: Sim.

Tomamos à parte este jovem e lhe perguntamos desde que época seu pai estava morto.

– Meu pai não está morto, respondeu-nos.

Um velho se apresenta em seguida e pergunta (notai bem a sutileza da pergunta, renovada de Tarquínio, o Antigo): – Foi o que eu penso a causa por que meu pai me deu o nome de Jean?

Resposta: Sim.

Um velho soldado do primeiro império pergunta, em seguida: – Os Espíritos dos soldados do velho império não acompanham os nossos jovens soldados na Criméia e na Itália?

Resposta: Sim.

A supersticiosa pergunta seguinte é feita, depois disto, por uma jovem: – Por que a sexta-feira é um mau dia?

A resposta não se fez esperar e, certamente, ela merece que se coloque em guarda com ela, por causa de diversas obscuridades históricas que faz desaparecer. – É, respondeu a inspirada, porque Moisés, Salomão e Jesus Cristo morreram nesse dia.

Um jovem operário lionês, como nós o julgamos pelo seu sotaque, pediu para ser esclarecido sobre um fato maravilhoso.

– Uma noite, disse ele, minha mãe sentiu um rosto que tocava o seu; ela despertou meu pai e eu, procuramos por toda parte e nada encontramos; mas, de repente, um dos nossos teares se põe a bater, nos aproximamos e ele se detém; mas um outro se põe a bater na extremidade da oficina: estávamos terrificados, e isto ficou bem pior quando vimos todos trabalharem ao mesmo tempo, sem que víssemos ninguém.

– Era, respondeu a sibila, vosso avô que vinha pedir preces. Ao que o jovem respondeu com um ar que deveria dar-lhe um fácil acesso ao santuário: – Foi bem isso, o pobre velho, se lhe prometera missas que não se lhe deram.

Um outro operário perguntou: – Por que, várias vezes, o travessão de minha balança se erguera sozinho?

– Foi um Espírito batedor, respondeu a inspirada, quem produziu esse fenômeno.

– Muito bem, respondeu o operário, mas eu detive o prodígio colocando um pedaço de chumbo no prato mais fraco.

– É muito simples, retomou a adivinhadora, os Espíritos têm horror ao chumbo, por causa da miragem.

Cada um quer ter a explicação da palavra miragem.

Aí se vê acabar o poder da sibila: – Deus não quer, disse ela, explicar isso, nem mesmo a mim!

Era uma razão maior diante da qual todos se inclinaram.

O grande sacerdote, então, prevendo objeções interiores, tomou a palavra e disse:

– Sobre esta questão, senhores, é necessário abster-se, porque seríamos levados para perguntas científicas, que estaríamos proibidos de responder.

Nesse momento, as perguntas se multiplicaram e se cruzaram:

– Os sinais que nos aparecem no céu, há algum tempo (os cometas), são aqueles de que fala o Apocalipse?

– Resposta: Sim, e em cento e quarenta anos este mundo não existirá mais.

– Por que Jesus Cristo disse que sempre haveria pobres?

– Resposta: Jesus Cristo quis falar dos pobres de espírito; para estes Deus vem de preparar um globo especial.

Não faremos notar toda a importância de semelhante resposta. Quem não compreende o quanto os nossos descendentes serão felizes, quando não terão mais a temer por se encontrarem em contato com os pobres de espírito? Quanto aos outros, a resposta da sibila deixa felizmente supor que o seu reino acabou. Boa nova para os economistas, a quem a questão do pauperismo impede de dormir.

Para terminá-la, uma mulher de quarenta a cinqüenta anos se aproxima e pergunta se seu Espírito já esteve encarnado e quantas vezes.

Estaríeis muito embaraçados para responder, e eu também; mas os Espíritos têm respostas para tudo:

– Sim, respondeu a pluma de pato, esteve três vezes: a primeira, como a filha natural de uma respeitável princesa russa (esta palavra respeitável, próxima da precedente, me intriga); a segunda, como filha legítima de um trapeiro da Boêmia, e a terceira, ela o sabe...

Esta amostra de uma sessão dos Espíritas lioneses deve bastar, nós o esperamos, para demonstrar que os Espíritos de Lyon valem bem aqueles de Paris.

Mas nos perguntamos se não seria melhor impedir pobres loucos de o tornarem ainda mais?

Antigamente, a Igreja era bastante poderosa para impor silêncio a semelhantes divagações; ela feriria talvez muito forte, é verdade, mas deteria o mal. Hoje, uma vez que a autoridade religiosa é impotente, uma vez que o bom senso não tem bastante império para fazer justiça a tais alucinações, a outra autoridade não deveria intervir neste caso, e por fim a práticas das quais o menor inconveniente é tornar ridículos aqueles que com isso se ocupem?

(Vide resposta do Sr. Allan Kardec)

Resposta do Sr. Allan Kardec
ao Sr. redator da Gazette de Lyon

(Publicado na Revista Espírita de Outubro de 1860)

Senhor,

Foi-me comunicado um artigo, assinado C. M., que publicastes na Gazette de Lyon, de 2 de agosto de 1860, sob o título: Uma sessão entre os Espíritas. Nesse artigo, se não fui atacado senão indiretamente, o sou na pessoa de todos aqueles que partilham as minhas convicções; mas isto não seria nada se as vossas palavras não tendessem a falsear a opinião pública sobre o princípio e as conseqüências das crenças espíritas, derramando o ridículo e a censura sobre aqueles que as professam, e que assinalais à vindita legal. Peço-vos permitir-me algumas retificações a esse respeito, esperando de vossa imparcialidade que, uma vez que crestes dever publicar o ataque, bem gostaríeis de publicar a minha resposta.

Não credes, Senhor, que o meu objetivo seja de procurar vos convencer, nem que vá restituir-vos injúria por injúria; quaisquer que sejam as razões que vos impeçam de partilhar a nossa maneira de ver, não penso em indagá-las, e as respeito se são sinceras; não peço senão a reciprocidade praticada entre pessoas que sabem viver. Quanto aos epítetos descorteses, não está nos meus hábitos deles me servir.

Se tivésseis discutido seriamente os princípios do Espiritismo, se a eles opusésseis argumentos quaisquer, bons ou maus, teria podido vos responder; mas toda a vossa argumentação se limita a nos qualificar de ineptos, e não me cabe discutir convosco se tendes erro ou razão; eu me limito, pois, a levantar o que as vossas assertivas têm de inexato, fora de todo personalismo.

Não basta dizer às pessoas, que não pensam como nós, que elas são imbecis: isto está ao alcance de qualquer um; é necessário demonstrar-lhes que estão erradas; mas como fazê-lo, como entrar na vida da questão se não se sabe dela a primeira palavra? Ora, creio que é o caso em que vos encontrais, de outro modo teríeis empregado melhores armas do que a acusação banal de estupidez. Quando tiverdes dado, ao estudo do Espiritismo, o tempo moral necessário, e vos previno que dele é necessário muito; quando tiverdes lido tudo o que possa assentar a vossa opinião, aprofundado todas as questões, assistido como observador consciencioso e imparcial a alguns milhares de experiências, a vossa crítica terá algum peso; até lá, não é senão uma opinião individual que não se apóia sobre nada, e a respeito da qual podeis, em cada palavra, ser preso em flagrante delito de ignorância. O princípio de vosso artigo disto é a prova.

“Chamam-se espíritas – dizeis – certos alucinados que romperam com TODAS as crenças religiosas de sua época e de seu país.” Sabeis, Senhor, que esta acusação é muito grave, e tanto mais grave que é, ao mesmo tempo, falsa e caluniosa? O Espiritismo está inteiramente fundado sobre o princípio da existência da alma, sua sobrevivência ao corpo, sua individualidade depois da morte, sua imortalidade, as penas e as recompensas futuras. Ele não sanciona estas verdades somente pela teoria, sua essência é de dar-lhes provas patentes; eis por que tantas pessoas, que não criam em nada, foram conduzidas para as idéias religiosas. Toda a sua moral não é senão o desenvolvimento destas máximas do Cristo: Praticar a caridade, restituir o bem para o mal, ser indulgente com seu próximo, perdoar aos inimigos, em uma palavra, agir para com os outros como gostaríamos que eles agissem para conosco. Achais, pois, estas idéias muito estúpidas? Romperam com toda a crença religiosa aqueles que se apóiam sobre as próprias bases da religião? Não, direis, mas basta ser católico para ter estas idéias; tê-las, seja; mas praticá-las é outra coisa, ao que parece. É bem evangélico a vós, católico, insultar bravas pessoas que não vos fizeram mal. Que não conheceis e que tiveram bastante confiança em vós, para vos receber entre elas? Admitamos que estejam no erro; será prodigalizando-lhes injúria, irritando-as que as conduzireis?

O vosso artigo contém um erro de fato que prova, ainda uma vez, a vossa ignorância em matéria de Espiritismo. Dissestes: Os adeptos são geralmente operários. Sabei, pois, Senhor, para o vosso governo, que sobre os cinco ou seis milhões de Espíritas que existem hoje, a quase totalidade pertence às classes mais esclarecidas da sociedade; ele conta entre seus adeptos um número muito grande de médicos em todos os países, de advogados, de magistrados, de homens de letras, de altos funcionários, de oficiais de todos os graus, de artistas, de sábios, de negociantes, etc., pessoas que classificais muito levianamente entre os ineptos. Mas passemos por cima disto. As palavras insulto e injúria vos parecem muito fortes? Vejamos!

Pesastes bem a importância de vossas palavras quando, depois de ter dito que os adeptos são geralmente operários, acrescentais, a propósito das reuniões lionesas: “Porque ali não recebem facilmente aqueles que, pelo seu exterior, anunciam MUITA INTELIGÊNCIA; os Espíritos não se dignam manifestar-se senão aos SIMPLES, provavelmente, foi o que nos valeu para ser ali admitido.” E mais longe esta outra frase: “Depois de um SPEECH sobre a natureza dos Espíritos, e tudo recitado num estilo que deveria encantar os Espíritos, por causa de sua SIMPLICIDADE, as perguntas começaram.” Eu não lembro os vossos gracejos a respeito da pena de pato da qual se servia, segundo vós, o médium, e outras coisas também muito espirituosas; falo mais seriamente. Eu não faria senão uma simples anotação, é que os vossos olhos e os vossos ouvidos vos serviram muito mal, porque o médium, de quem falastes, não se serve de pena de pato, e a forma, tanto quanto o fundo, da maioria das perguntas e das respostas, que narrastes em vosso artigo, são de pura invenção: são, pois, pequenas calúnias a favor das quais quisestes fazer brilhar o vosso espírito.

Assim, segundo vós, para ser admitido nas reuniões de operários, é necessário ser operário, quer dizer, desprovido de bom senso, e ali não fostes introduzido senão porque, dissestes, provavelmente vos tomaram por um tolo. Seguramente, acreditando-se que tivésseis bastante espírito para inventar coisas que não são, muito certamente ter-lhe-iam fechado a porta.

Sabeis bem, Senhor, que não atacais somente os Espíritas, mas toda a classe operária, e em particular a de Lyon? Esquecei-vos de que são estes mesmos operários, estes canus, como o dissestes com afetação, que fazem a prosperidade de vossa cidade, pela sua indústria? Foram pessoas sem valor moral, como esses operários, que produziram Jacquard? De onde saíram bom número de vossos fabricantes, que adquiriram a sua fortuna com o suor de seu rosto e à força da ordem e da economia? Não é insultar o seu trabalho comparando seus teares a potências? Derramais o ridículo sobre a sua linguagem; mas esqueceis que seu estado não é o de fazer discursos acadêmicos? Há necessidade de um estilo tirado ao cordel para dizer o que se pensa? As vossas palavras, Senhor, não são apenas levianas – emprego esta palavra com comedimento –, elas são imprudentes. Se nunca ainda Deus vos reservou dias nefastos, rogai-o para que disto não se lembrem. Aqueles que forem Espíritas os esquecerão, porque a caridade isso lhes ordena; fazei, pois, votos para que o sejam todos, porque eles haurem no Espiritismo princípios de ordem social, de respeito à propriedade, e sentimentos religiosos.

Sabeis o que fazem esses operários espíritas lioneses, que tratais com tanto desdém? Em lugar de irem se distrair num cabaré, ou de se nutrir de doutrinas subversivas e quiméricas; nessa oficina que comparais zombeteiramente ao antro de Trophomus, no meio desses teares de quatro potências, eles pensam em Deus. Ali os vi durante a minha estada aqui; conversei com eles e estou convencido do que se segue: Entre eles, muitos maldiziam seu trabalho penoso: hoje o aceitam com a resignação do cristão, como uma prova; muitos viam com olhos de inveja e de ciúme a sorte dos ricos: hoje, eles sabem que a riqueza é uma prova ainda mais arriscada do que a da miséria, e que o infeliz que sofre, e não cede à tentação, é o verdadeiro eleito de Deus; eles sabem que a verdadeira felicidade não está no supérfluo, e que aqueles que são chamados os felizes deste mundo, também têm cruéis angústias que o ouro não aquieta; muitos se riam da prece; hoje, eles oram, e reencontraram o caminho da igreja, que esqueceram, porque outrora não acreditavam em nada e hoje eles crêem; vários teriam sucumbido ao desespero: hoje, que conhecem a sorte daqueles que abreviam voluntariamente sua vida, se resignam à vontade de Deus, porque sabem que têm uma alma, e que antes disto não estavam certos; porque sabem, enfim, que não estão senão de passagem sobre a Terra, e que a justiça de Deus não falta a ninguém.

Eis, Senhor, o que sabem e o que fazem esses ineptos, como os chamais; eles se exprimem numa linguagem talvez ridícula, trivial aos olhos de um homem de espírito como vós, mas aos olhos de Deus o mérito está no coração e não na elegância das frases.

Alhures, dissestes: “Outrora a Igreja era bastante poderosa para impor silêncio a semelhantes divagações; ela feriria talvez muito forte, é verdade, mas ela deferia o mal. Hoje, que a autoridade religiosa está impotente, a outra autoridade não deveria intervir?” Com efeito, ela queimava; é verdadeira pena que não haja mais fogueiras. Oh, deploráveis efeitos do progresso das luzes!

Não tenho por hábito responder às diatribes; se não agisse senão por mim, nada teria dito; mas, a propósito de uma crença que me faz glória de professar, porque é uma crença eminentemente cristã, zombais de pessoas honestas e trabalhadoras, porque são iletradas, esquecendo que o próprio Jesus era operário; vós os excitais com palavras irritantes; chamais sobre elas o rigor da autoridade civil e religiosa, quando são pacíficas e compreendem o vazio das utopias, nas quais foram embaladas, e que vos meteram medo: devi tomar a sua defesa, lembrando-lhes os deveras que a caridade impõe, e dizendo-lhes que se outros faltam com os seus deveres, não é isso uma razão para deles se isentarem. Eis, Senhor, os conselhos que lhes dou; assim são também aqueles que lhes dão esses Espíritos que têm a tolice de se dirigirem a pessoas simples e ignorantes antes que a vós; é que, provavelmente, eles sabem que serão melhor escutados. Gostaríeis, a esse respeito, de me dizer por que Jesus escolheu seus apóstolos entre o povo, em lugar de tomá-los entre os homens de letras? Foi, sem dúvida, porque não havia ali, então, jornalistas para lhe dizer o que deveria fazer.

Direis, sem dúvida, que a vossa crítica não vai senão sobre a crença nos Espíritos e suas manifestações, e não sobre os princípios sagrados da religião. Disso estou persuadido; mas, então, por que dizer que os espíritas romperam com todos os princípios religiosos? Foi porque não sabíeis sobre o que eles se apóiam. Entretanto, ali vistes um médium orar com recolhimento, e vós, católico, ristes de uma pessoa que orava!

Provavelmente, não sabeis mais o que são os Espíritos. Os Espíritos não são outra coisa que as almas daqueles que viveram; as almas e os Espíritos são, pois, uma só e mesma coisa; de tal sorte que negar a existência dos Espíritos é negar a da alma; admitir a alma, a sua sobrevivência e a sua individualidade, é admitir os Espíritos. Toda a questão se reduz, pois, em saber se a alma, depois da morte, pode se manifestar aos vivos; os livros sacros e os Pais da Igreja o reconhecem. Se os Espíritas estão errados, estas autoridades enganaram-se igualmente; para prová-lo, trata-se de demonstrar, não por uma simples negação, mas por razões peremptórias:

1ª – Que o ser que pensa em nós, durante a vida, não deve mais pensar depois da morte;

2ª – Que, se pensa, não deve mais pensar naqueles que amou;

3ª – Que, se pensa naqueles que amou, não deve mais querer se comunicar com eles;

4ª – Que, se está por toda parte, não pode estar ao nosso lado;

5ª – Que, se está ao nosso lado, não pode se comunicar conosco. Se conhecêsseis o estado dos Espíritos, a sua natureza, e, se assim posso me exprimir, a sua constituição fisiológica, tal como no-la descrevem, e tal como a observação o confirma, saberíeis que, sendo o Espírito e a alma uma só e mesma coisa, não há de menos no Espírito senão o corpo do qual é despojado em morrendo, mas que lhe resta um envoltório etéreo, que constitui para ele um corpo fluídico com a ajuda do qual pode, em certas circunstâncias, se tornar visível, assim como ocorre nos fatos de aparições que a própria Igreja admite perfeitamente, uma vez que, de alguns, fez artigo de fé. Estando esta base dada, às proposições precedentes se acrescentariam as seguintes, vos pedindo provar:

6ª – Que, pelo seu envoltório fluídico, o Espírito não pode agir sobre a matéria inerte;

7ª – Que, se ele pode agir sobre a matéria inerte, não pode agir sobre um ser animado;

8ª – Que, se pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir a sua mão para fazê-lo escrever;

9ª – Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder às suas perguntas e transmitir-lhe o seu pensamento.

Quando tiverdes demonstrado que tudo isto não se pode, por razões tão patentes quanto aquelas pelas quais Galileu demonstrou que não é o Sol que gira, então a vossa opinião poderá ser tomada em consideração.

Objetareis, sem dúvida, que, em suas comunicações, os Espíritos dizem algumas vezes coisas absurdas. Isto é muito verdadeiro; eles fazem mais: dizem às vezes grosserias e impertinências. É que, deixando o seu corpo, o Espírito não se despoja imediatamente de todas as suas imperfeições; e é provável que aqueles que dizem coisas ridículas como Espíritos, o disseram mais ridículas ainda quando estavam entre nós; por isso, não aceitamos mais cegamente tudo o que vem de sua parte, quanto o que vem da parte dos homens. Mas me detenho, não tendo a intenção de fazer aqui um curso de ensinos; basta-me provar que faláveis do Espiritismo sem conhecê-lo.

Aceitai, Senhor, minhas cordiais saudações.

Allan Kardec

"Os Espíritos, em se depurando pelas encarnações sucessivas, perdem o egoísmo, como perdem suas outras impurezas"

Allan Kardec "O Codificador da Doutrina Espírita"

 

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Palestras de Jorge Hessen (Amai o vosso próximo)

 

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