CAIRBAR SCHUTEL

O BANDEIRANTE DO ESPIRITISMO

(OBRA BIOGRÁFICA)

 

 

WILSON GARCIA

&  

EDUARDO CARVALHO MONTEIRO

Biografia de Cairbar Schutel:

Nascido na cidade do Rio de Janeiro, a 22 de setembro de 1868 e desencarnado em Matão, Estado de S. Paulo, no dia 30 de janeiro de 1938.

No dealbar do século XX, quando eram ensaiados os primeiros passos no grandioso programa de divulgação do Espiritismo, e quando a Doutrina dos Espíritos era vista como uma novidade que vinha abalar os conceitos até então prevalecentes sobre a imortalidade da alma e a comunicabilidade dos Espíritos, dentre os pioneiros da época, surgiu um vulto que se destacou de forma inusitada, fazendo com que a difusão da nova Doutrina tivesse uma penetração até então desconhecida.

O nome desse seareiro era Cairbar de Souza Schutel, nome esse que se impôs, em pouco tempo, ao respeito e consideração de todos.

Ele jamais esmoreceu no propósito de fazer com que a nova revelação, que vinha fazer o mundo descortinar novos horizontes e prometia restaurar, na Terra, as primícias dos ensinamentos legados por Jesus Cristo quase vinte séculos antes, pudesse conquistar os corações dos homens, implantando- se na face do nosso planeta como uma nova força cujo objetivo básico era de extirpar o fantasma do materialismo avassalador.

Biografar um vulto dessa estirpe não é fácil tarefa, uma vez que as suas atividades não conheciam limitações nem eram bitoladas por conveniências de grupos ou de pessoas. Conseqüentemente, tudo aquilo que se disser sobre Cairbar Schutel não passa de uma súmula muito apagada de uma vida cheia de lutas, de percalços e sobretudo de ardente idealismo.

Registraremos, entretanto, alguns dados biográficos desse insigne batalhador espírita:

Cairbar de Souza Schutel, aos nove anos de idade, ficava órfão de pai e, seis meses após, de mãe. Seu avô, Dr. Henrique Schutel, interessou- se pela sua educação, matriculando- o no Colégio Nacional, depois Colégio D. Pedro II, onde estudou durante dois anos.

Animado de novos propósitos, abandonou os estudos e a casa do avô, passando a trabalhar como prático em farmácia, o que fez com que, aos 17 anos de idade já se tornasse respeitável profissional desse ramo.

Nessa época abandonou a antiga Capital Federal e rumou para o Estado de S. Paulo, onde se localizou primeiramente em Piracicaba e logo após em Araraquara e Matão. Esta última cidade era então um lugarejo muito singelo, com poucas casas e dependendo quase que exclusivamente do comércio de Araraquara, a cujo município pertencia.

Nessa humilde cidade, Cairbar Schutel acalentou o propósito de servir à coletividade, o que fez com que batalhasse arduamente para que Matão subisse à categoria de Município. Conseguindo colimar esse desiderato, foi eleito seu primeiro Prefeito.

Homem dotado de ilibado caráter, de ampla visão e de grande humildade, conseguiu conquistar os corações de todos. Na política não enfrentava obstáculos. Deve- se a ele a edificação do prédio da Câmara Municipal, o que fez com seus próprios recursos financeiros.

A política, no entanto, não era o seu objetivo, por isso, tão logo ele teve a sua Estrada de Damasco, representada pela sua conversão ao Espiritismo, abandonou esse campo, passando a dedicar- se inteiramente à nova Doutrina.

Conheceu o Espiritismo através de Manoel Pereira do Prado, mais conhecido por Manoel Calixto, que na época era um dos poucos e o mais destacado espírita do lugar. Embora não sendo profundo conhecedor dos princípios básicos da Codificação Kardequiana, Manoel Calixto conseguiu impressionar o futuro apóstolo, com uma mensagem mediúnica de elevado cunho espiritual, recebida por seu intermédio.

Em seguida a esse episódio, Cairbar integrou- se no conhecimento das obras fundamentais da Doutrina Espírita e, tão logo se sentiu compenetrado daquilo que ela ensina, fundou, no dia 15 de julho de 1904, o primeiro núcleo espírita da cidade e da zona, denominando- o "Centro Espíritas Amantes da Pobreza".

Não satisfeito com essa arrojada realização, no mês de agosto de 1905, lançou a primeira edição do jornal "O Clarim", órgão esse que vem circulando desde então e que se constituiu, de direito e de fato, num dos mais tradicionais e respeitáveis veículos da imprensa espírita.

Numa época quando pontificava verdadeira intolerância religiosa e quando o Espiritismo e outras religiões sofriam o impacto da ação exercida pela religião majoritária, Cairbar Schutel também teve o seu Calvário: um sacerdote reacionário e profundamente intolerante, resolveu promover gestões no sentido de fechar as portas do Centro Espírita, usando como arma ardilosa uma campanha persistente no sentido de fazer com que a farmácia de Cairbar fosse boicotada pelo povo.

Com o apoio do delegado de polícia, conseguiu deste a ordem para o fechamento do Centro onde se difundia o Espiritismo. Cairbar Schutel, no entanto, não era dos que se intimidam e, contra o padre e o delegado, levantou a barreira da sua autoridade moral e da sua coragem.

A ordem do delegado não foi respeitada por atentar contra a letra da Constituição Federal de 1891, e o valoroso espírita foi à praça pública protestar contra tamanho desrespeito. O padre, não tolerando aquela manifestação promovida por Cairbar, também promoveu uma passeata de desagravo.

Outros sacerdotes, nessa época, já estavam em Matão, apregoando a necessidade de se manter o "herético" circunscrito, de nada se adquirirem sua farmácia, e, sobretudo proibindo a todos a freqüência ao Centro Espírita.

Em face da tremenda pressão exercida, Cairbar anunciou que falaria ao povo em praça pública, refutando ponto por ponto todas as acusações gratuitas que lhe eram atribuídas pelos sacerdotes. O delegado proibiu- o de falar. Cairbar não acatou a proibição do delegado e, estribando- se na Constituição, dirigiu- se para a praça pública, falando aos poucos que, não temendo as represálias do padre, tiveram a coragem de lá comparecer.

Este, por sua vez, expressou a idéia de que, se a liberalíssima Constituição brasileira permitia esse direito a Cairbar, a Igreja de forma alguma consentiria e, aliciando um grupo de homens fanatizados, marchou para a praça pública, cantando hinos e cantorias fúnebres, portando, além disso, vários tipos de armas. O objetivo da procissão noturna era de abafar a voz do orador e atemorizar o povo.

Essa barulhenta manifestação provocou a repulsa de algumas pessoas cultas da cidade, as quais, dirigindo- se à praça, pediram a aquiescência do orador para, de público, manifestarem a desaprovação àquelas manifestações e responsabilizando o padre pelas conseqüências danosas daquele desrespeito à Carta Magna, afirmando que o orador tinha todo o direito de falar e de se defender. Diante dessa reação, o padre ficou assombrado e decidiu dispersar os acompanhantes, o que possibilitou a Cairbar prosseguir na defesa dos seus direitos e dos seus ideais.

Cairbar sabia ser amigo até dos seus próprios inimigos. Sempre inspirava simpatia e respeito. Sempre feliz no seu receituário, tornou- se, dentro em pouco, o Médico dos Pobres e o Pai da Pobreza, de Matão.

Além de prescrever o medicamento, ele o dava gratuitamente aos necessitados. Sua residência tomou- se um refúgio para os pobres da cidade. Muitas pessoas eram socorridas pela sua generosidade. Muitos recebiam socorros da mais variada espécie, em víveres, em roupas e sobretudo assistência espiritual.

O sentimento de amor ao próximo teve nele incomparável paradigma. Estava sempre solícito e pronto para socorrer um enfermo ou um obsediado. Atos de renúncia e de desapego eram comuns em sua vida.

Sua residência chegou a ser transformada em hospital de emergência para doentes mentais e obsediados. Em vista do crescente número de enfermos, em 1912 alugou uma casa mais ampla, na qual tratava com maiores recursos e com mais liberdade todos aqueles que apelavam para a sua ajuda fraternal.

No dia 15 de fevereiro de 1925, lançou o primeiro número da "Revista Internacional de Espiritismo", órgão que desde então vem circulando sem solução de continuidade.

Quando foi rasgada a Constituição ultraliberal de 1891, Cairbar Schutel foi à praça pública apoiando a Coligação Nacional Pró-Estado Leigo, entidade fundada no Rio de Janeiro pelo Dr. Artur Lins de Vasconcelos Lopes.

Nesse propósito combateu sistematicamente a pretensão, esposada por alguns grupos, de se introduzir o ensino religioso obrigatório nas escolas. Certa vez programou uma reunião num cinema de cidade vizinha para abordar esse tema.

Na hora aprazada ali estavam apenas alguns dos seus amigos, dentre eles José da Costa Filho e João Leão Pitta. Cairbar não se perturbou. Mandou comprar meia dúzia de foguetes e soltou-os à porta do cinema. Daí a 20 minutos o recinto estava repleto.

Foi pioneiro no lançamento de programa espírita pelo rádio, pois em 1936 inaugurou, pela PRD- 4. Rádio Cultura de Araraquara, uma série de palestras que mais tarde publicou num volume de 206 páginas.

Como jornalista escreveu muito. Durante muito tempo manteve uma secção de crônicas e reportagens no "Correio Paulistano" e na "Platéia", antigos órgãos da imprensa leiga.

Sua bibliografia é bastante vasta, dela destacamos as seguintes obras: "Espiritismo e Protestantismo", "Histeria e Fenômenos Psíquicos", "O Diabo e a Igreja", "Médiuns e Mediunidade", "Gênese da Alma", "Materialismo e Espiritismo", "Fatos Espíritas e as Forças X", "Parábolas e Ensinos de Jesus", "O Espírito do Cristianismo", "A Vida no Outro Mundo", "Vida e Atos dos Apóstolos", "Conferências Radiofônicas", "Cartas a Esmo" e "Interpretação Sintética do Apocalipse".

Fundou também a Empresa Editora "O Clarim", que passou a editar livros de outros autores.

Cairbar Schutel foi um homem de fé, orador convincente, trabalhador infatigável, dinâmico, realizador e portador dos mais vivificantes exemplos de virtude cristã.

 Paulo Alves de Godoy - Os Grandes Vultos do Espiritismo

Trechos da obra:

Cairbar Schutel e Chico Xavier

Cairbar só teve oportunidade de encontrar-se pessoalmente com Chico Xavier uma ocasião. Porém, chegaram a trocar correspondência durante algum tempo, quando, relata Chico, os dois comentavam suas atividades.

Dessas cartas Chico não se esquece que Cairbar sempre citava carinhosamente Dna. Mariquinhas, que, para ele, "era a alma e coração de seu trabalho".

É sugestivo o caso do único encontro dos dois baluartes do Espiritismo no Brasil. Chico, bem jovem ainda, iniciando sua carreira missionária; Cairbar, vivendo seus últimos anos de romagem terrena na presente encarnação.

Relatou-nos pessoalmente o médium mineiro que; quando trabalhava no Ministério da Agricultura na cidade de Pedro Leopoldo, seu superior, embora não esposando a fé Espírita, recebeu o pedido de um amigo de São Paulo que, interessado na mediunidade segura que espoucava, em Chico, gostaria de conhecê-lo e convidá-lo para uma semana espírita que se realizaria em São Paulo.

O chefe da seção "sugeriu", então, que seu comandado viesse a São Paulo para entrevistar-se com seu amigo paulistano, ao que, humildemente, Chico acedeu. Ingênuo, porém, e sem nunca ter saído dos arredores de sua terra natal, Chico descreve essa sua viagem como extremamente pitoresca, já que, imaginando ser São Paulo pertinho de Pedro Leopoldo, tomou o trem com a roupa do corpo pensando retornar no dia seguinte. Só que ninguém lhe avisou que só a viagem demorava trinta e seis horas...

Foi em São Paulo, então, que avistou-se com Cairbar Schutel, que o convidou para acompanhá-lo até a residência de Dna. Maria Elisa de Oliveira Borges para lhe ministrar um passe, pois a benfeitora da RIE encontrava-se muito mal de saúde.

Não puderam, no entanto, entrar no quarto da doente devido à precariedade de seu estado, mas realizaram uma comovida prece na sala. Chico se recorda bem deste dia, em que descreve a casa como sendo muito fria, triste, o que comoveu muito Cairbar.

***

Além de diversas psicografias recebidas de Cairbar, Chico relata que por volta de 1975, em sessão de materialização com a médium Dna. Hilda Odilon Negrão, ele voltou a conversar com o Espírito de Cairbar através do fenômeno da voz direta.

01 - O menino Cairbar Schutel. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

02 - Da esquerda para a direita – Francisco Velloso, Cairbar Schutel e José Maria Gonçalves. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

03 - Cairbar Schutel com os Volpe. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

4 - Antiga Farmácia de Cairbar Schutel. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

05 - Cairbar Schutel na Farmácia. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

06 - Cairbar Schutel em seu carro. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

07 - Oficinas de O Clarim. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

08 - Crianças na redação de O Clarim. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

09 - Centro Espírita O Clarim. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

10 - Espíritas de Bebedouro – Ano de 1913. No alto temos Cairbar Schutel com uma criança ao colo. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

11 - Cairbar Schutel com as irmãs Perche numa sessão mediúnica de tiptologia. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

12 - Mensagem Psicografada Cairbar Schutel. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

13 - Cairbar Schutel com companheiros espíritas distribuindo mensagens no cemitério de Matão, Sp. Um dos pioneiros nesse forma de divulgação foi Cairbar Schutel que fazia questão de se deixar fotografar junto das sepulturas para atestar sua convicção na imortalidade da alma. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

14 - Cairbar Schutel um imortalista por excelência se deixava fotografar junto aos túmulos do cemitério. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

15 - Fachada do atual Museu e Memorial Cairbar Schutel em Matão. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

16 - Busto de Cairbar Schutel na praça central de Matão. Crédito da foto - O Clarim, Matão, SP.

Fontes: Casa Editora O Clarim

Fontes: Fontes: Canal Jorge Hessen - Documentário sobre a vida de Cairbar Schutel "O Bandeirante do Espiritismo" (Documentário produzido pela extinta TV Morada do Sol, emissora independente sediada em Araraquara (SP), que depois veio a tornar-se Rede Mulher.)

Fontes: Canal Jorge Hessen (Inauguração do Memorial Cairbar Schutel)

 

 "Vivi, vivo e viverei porque sou imortal"

Cairbar Schutel "O Bandeirante do Espiritismo"

"O Espiritismo proporcionando vôos ao pensamento, nos eleva a um alto píncaro, donde desvendamos horizontes vastíssimos, que nos eram desconhecidos; ao mesmo tempo que nos mostra a nossa origem e o nosso destino, dando-nos posse da nossa individualidade imortal.
Belíssima e consoladora Doutrina, ele se tornou a Esperança dos desiludidos da sorte, a Luz que nos ilumina as veredas do porvir, o lenitivo para todas as dores; a Fé robusta, que nos projeta, de olhos abertos, sustentando-nos com suas níveas asas, nos abismos do Universo, onde a vida palpita, e as cores e sons se desdobram em paisagens e arabescos, deliciando-nos nas ascensões sucessivas para o Alto, para o Bem, para o Belo, para a Felicidade, para Deus."

Cairbar Schutel "O Bandeirante do Espiritismo"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Wilson Garcia - Eduardo Carvalho Monteiro (Cairbar Schutel - O Bandeirante do Espiritismo) PDF

 

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