ERNESTO BOZZANO

 

CÉREBRO E PENSAMENTO

 

 

Tradutor Nilson Garcia
 

 

 

Ernesto Bozzano - Cervello e pensiero

 

Tipografia Dante, Città della Pieve

 

Roma (1929)

Sinopse da obra:

Os casos de indivíduos que conservam sua inteligência apesar da destruição parcial ou total do cérebro conduzem, logicamente, a reconhecer a existência no homem de um espírito independente do organismo corporal, provido de um "corpo etéreo", sede da memória integral e das faculdades sensoriais supranormais.

Trechos da obra:

 

Finalizo, pois, chamando a atenção dos leitores sobre o fato de que os casos de indivíduos que conservam sua inteligência apesar da destruição parcial ou total do cérebro, contemplados conjuntamente com as circunstâncias notabilíssimas da existência na subconsciência humana de uma "memória integral" perfeita e de uma consciência individual superior, dotada de faculdades de sentido espiritual, conduzem logicamente a reconhecer a existência no homem de um espírito independente do organismo corporal, provido de um organismo espiritual ou "corpo etéreo", base da memória integral e das faculdades sensoriais supranormais.

 

Por outro lado, demonstramos que as conclusões que alcançamos, parecem perfeitamente conciliáveis com a teoria do "paralelismo psicofísico", sobre o qual insistem justamente nossos opositores.

 

E afirmo "justamente", porque não pode haver dúvida alguma a respeito da verdade intrínseca dos fatos observados pelos fisiólogos. Mas estes fatos, se examinados à luz das modernas investigações sonambúlicas e metapsíquica, mudam radicalmente de significação.

 

Faz-se, pois, necessário limitar o alcance teórico que abusivamente lhes assinalam, reconhecendo que, longe de demonstrar que o pensamento é uma função do cérebro, provam somente a existência de uma correlação, pela lei de equivalências, entre as atividades morfológicas e psíquicas, opostas entre si; correlação que poderia ser presumida a priori de tal modo parece natural e indispensável para bem compreender a função real e grandiosa confiada ao órgão do pensamento, função que é dupla: por um lado, a de registrar as vibrações físicas que chegam através dos sentidos, a fim de transformá-las de imediato em vibrações psíquicas perceptíveis para o espírito, e por outro lado, a de registrar as "imagens psíquicas" com as quais o espírito responde as vibrações específicas que chegam do meio terrestre, traduzindo-as e transmitindo-as à periferia em forma de ações apropriadas.

 

Pois bem, é evidente que tudo isto não pode se realizar sem uma dispersão de energia nervosa em perfeita equivalência com a natureza e intensidade das atividades psíquicas em função. Os físicos tem, pois, razão, deste ponto de vista limitado.

 

Ao contrário, o acabamos de dizer demonstra que fisiólogos estão equivocados quando impregnam a legitimidade da hipótese espírita, apesar da convergência imponentemente de todas as provas em seu favor, e que a combatam em nome do eterno, sem dúvida efêmero obstáculos do paralelismo que existe entre as funções morfológicas e psíquicas do cérebro. Como se a existência de um instrumento que ao ser acionado consome energia, não fosse compatível com a do obreiro que o faz funcionar. Ao contrário! Os dois termos de maior problema de ser se conciliam admiravelmente entre si, são inclusive indispensável para resolvê-lo.

 

Os espíritas proclamam, pois, solenemente, que a teoria do "paralelismo psicofísico" é legítima, incontestável, inquebrantavelmente verdadeira, e que é preciso unicamente modificar sua interpretação para fazê-la compatível com a nova psicologia supranormal que foi revelada pelas investigações sonambúlicas e metapsíquicas.

 

Ernesto Bozzano

O espírito e o cérebro se distinguem sem grilhetas materialistas (Jorge Hessen)

 

James Fallon, neurocientista, professor de psiquiatria e comportamento humano da Universidade da Califórnia, passou anos pesquisando o cérebro de potenciais homicidas. Aos 58 anos de vida acreditava ser uma pessoa “normal”, tendo como referência a família equilibrada e intensa atividade acadêmica. Certa tarde de outubro de 2005, vasculhando exames de pessoas que sofrem desordens psiquiátricas graves, através das imagens cerebrais de assassinos misturados com esquizofrênicos, depressivos e outros cérebros “normais”, teve uma singular surpresa: na análise dos exames deparou com determinada imagem que revelava o cérebro de um psicopata; todavia identificou que era o seu exame. Surpreendeu-se, afinal foi uma revelação chocante e começou a questionar a própria identidade. (1) Fallon descobriu que o seu cérebro apresenta “inativa” uma área ligada à conduta ética e à tomada de decisão. Observou igualmente que possui genes vinculados à violência.

 

Sob o guante das surpreendentes descobertas, publicou um livro intitulado “O psicopata no interior”. Na obra esquadrinha alguns argumentos sobre as causas de um homem feliz no casamento e na profissão, que pode ser um psicopata com as mesmas características genéticas de um serial killer. (2) É difícil determinar precisamente o que faz de uma pessoa um psicopata. Na verdade, a anormalidade mental tem uma variedade de sintomas que nem sequer aparecem no manual de diagnóstico de transtornos mentais. James Fallon acredita que, graças em grande parte à sua educação e apoio de sua família, tem sido capaz de canalizar suas tendências psicóticas.

 

Para os Espíritos, a nossa “mente é o campo da nossa consciência desperta, na faixa evolutiva em que o conhecimento adquirido nos permite operar”. (3) Destarte, “a mente transmite ao carro físico, a que se ajusta durante a encarnação, todos os seus estados felizes ou infelizes.” (4) Notamos no neurocientista da Califórnia que a plenitude do Espírito (estado mental), embora possa ser influenciada pelo universo cerebral, mantém preponderância sobre a “massa cinzenta”. Não fosse assim, seria ele, Fallon, um fantoche do mundo encefálico.

 

Para André Luiz, o cérebro é o ninho da mente. O cérebro é o veículo da inteligência no mundo carnal; por isso, muitos neurologistas fazem da personalidade um atributo do cérebro, porém sabemos que “a inteligência [individualidade] é um atributo essencial do Espírito”. (5) Kardec, explanando a questão 368, diz o seguinte: “pode-se comparar a ação que a matéria grosseira exerce sobre o Espírito a de um charco lodoso sobre um corpo nele mergulhado, ao qual tira a liberdade dos movimentos.” (6)

 

Atualmente há diferença essencial entre a neurociência acadêmica e a neurociência Espírita. Enquanto a primeira entroniza no cérebro o quartel-general da personalidade, a segunda faz da estrutura encefálica apenas mais um dos vários órgãos de manifestação do Espírito. Em que pesem as limitações das capacidades do Espírito após a sua união com o corpo, por causa da densidade material, o corpo carnal não é mais que o invólucro do Espírito, e este, ao se unir ao corpo, conserva os atributos espirituais. Sem dúvida que o corpo físico é um obstáculo à livre manifestação das faculdades do Espírito, como um vidro opaco se opõe à livre refração da luz.

 

Os órgãos são os instrumentos da manifestação das capacidades do Espírito. Essa manifestação está submissa ao desenvolvimento e ao grau de apuro dos atinentes órgãos. O Espírito tem sempre as aptidões que lhe são inerentes, e não são os órgãos que lhe dão as capacidades, mas são as faculdades que impelem o desenvolvimento dos órgãos. Deste modo, a distinção das aptidões entre os homens dimana do estágio do Espírito. As qualidades do reencarnado, que pode ser mais ou menos adiantado, constituem o princípio, mas obviamente “é necessário ter em conta a relativa influência da matéria, que pode limitar mais ou menos o exercício dessas faculdades.” (7)

 

Sobre a questão do cérebro humano, o Espiritismo e a Neurociência devem se complementar, pois as leis do mundo espiritual e as leis do mundo físico são expressões de uma realidade comum. A Neurociência precisa do Espiritismo, tanto quanto o Espiritismo encontra apoio na Neurociência; isolados, no estudo do cérebro não chegarão a um resultado final e submergirão no labirinto de hipóteses arriscadas. Lembrando, contudo, que o Espiritismo marcha ao lado da ciência, mas não se detém onde a ciência tem seus limites.

 

Inaceitável é a ciência materialista insistir em algemar o espírito no cérebro, como se ele fosse um cativo, para ser fartamente dissecado, a fim de ser comprovado que o cérebro é o agente integral da personalidade. Ora, em verdade o espírito continuamente tem se mantido incólume em relação a esse reducionismo materialista. No século XIX, Kardec, conhecedor das teses de Franz Josef Gall, médico alemão, teórico da frenologia (8), indagou aos Espíritos o seguinte: “da influência dos órgãos se pode inferir a existência de uma relação entre o desenvolvimento dos do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais?” A resposta dos Mentores Espirituais é fulgente: “Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.”. (9)

 

Das relações existentes entre o desenvolvimento do cérebro e a manifestação de certas faculdades, concluíram alguns estudiosos materialistas que os órgãos do cérebro são a própria fonte das faculdades, ideia que tende para a negação do princípio inteligente estranho à matéria. Consequentemente, faz do homem uma máquina sem livre arbítrio e sem responsabilidade por seus atos, pois sempre poderia atribuir os seus erros à sua organização e seria injustiça puni-lo por faltas que não teriam dependido dele. Ficamos, com razão, abalados pelas consequências de semelhante teoria. Até porque, “a psicologia e a psiquiatria, entre os homens, conhecem tanto do Espírito, quanto um botânico, restrito ao movimento em acanhado círculo de observação do solo, que tentasse julgar um continente vasto e inexplorado, por alguns talos de erva, crescidos ao alcance de suas mãos.”. (10)

 

A Doutrina Espírita esclarece que “os órgãos têm uma influência muito grande sobre a manifestação das faculdades [espirituais]; porém, não as produzem – eis a diferença. Um bom músico com um instrumento ruim não fará boa música, mas isso não o impedirá de ser um bom músico.”. (11) O espírito age sobre a matéria e a matéria reage sobre o espírito numa certa medida, e o espírito pode se encontrar, momentaneamente, impressionado pela alteração dos órgãos pelos quais se manifesta e recebe suas impressões materiais”. (12)

 

Há outra questão a ser considerada a respeito das influências captáveis pelo cérebro humano. Tais impressões podem advir de outras mentes de “encarnados e desencarnados que povoam o Planeta, na condição de habitantes dum imenso palácio de vários andares, em posições diversas, produzindo pensamentos múltiplos que se combinam, que se repelem ou que se neutralizam. Correspondem-se as ideias segundo o tipo em que se expressam, projetando raios de força que alimentam ou deprimem, sublimam ou arruínam, integram ou desintegram, arrojados sutilmente do campo das causas para a região dos efeitos. (13)

 

Avaliando essas variáveis, é certo que o Espiritismo e a Neurociência, no futuro, poderão se entender não se contradizendo, todavia unidas, marchando conectadas, procurando todos os expedientes disponíveis no sentido de compreender mais profundamente o homem. Caso contrário, a Neurociência flutuará em um mar de equívocos, enquanto conceber que o Espirito está amarrado, unicamente, no universo cerebral. Carece, pois, os estudiosos distinguirem as causas físicas das causas espirituais nos fenômenos psicológicos, a fim de poder melhor explicar o enigma da função do cérebro humano.

 

Referências Bibliográficas:

 

(1) Na época, James Fallon também estava envolvido em um estudo de Alzheimer e havia feito exames de seu próprio cérebro e de familiares.

 

(2) É um tipo de criminoso de perfil psicopatológico que comete crimes com uma certa frequência, geralmente seguindo um modus operandi. Muitos dos que foram capturados aparentavam ser cidadãos respeitáveis – atraentes, bem sucedidos, membros ativos da comunidade. Geralmente os serial killers demonstram três comportamentos durante a infância, conhecidos como a Tríade MacDonald (Urinam na cama Enurese noturna, Obsessão por incêndios -Piromania, Crueldade para com os animais).

 

(3) Xavier, Francisco Cândido. Pensamento e Vida, ditado pelo espírito Emmanuel, RJ: Ed FEB, 4ª edição, 1975.

 

(4) _______, Francisco Cândido e Vieira Waldo. Evolução em Dois Mundos, Ditado pelo Espírito André Luiz, RJ: Ed. FEB 2003

 

(5) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Questão 24, Ed. FEB, 1999

 

(6) Idem questão 368

 

(7) Idem questões de 367

 

(8) Princípio que alega cada função mental a uma zona do cérebro, sustentando que a própria forma do crânio indica o estado das diferentes faculdades mentais.

 

(9) _______, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 370, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1999

 

(10) Xavier, Francisco Cândido. Roteiro, ditado pelo Espírito Emmanuel, cap. 25 – Ante a vida mental, RJ: Ed. FEB, 1972

 

(11) ______, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, questão 372

 

(12) Idem questão 375

 

(13) ______, Francisco Cândido. Roteiro, ditado pelo Espírito Emmanuel, cap. 25 – Ante a vida mental, RJ: Ed. FEB, 1972

 

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas

Ver no site o Codificador da Doutrina Espírita "Allan Kardec"

 

Ver no site Bezerra de Menezes "A Loucura Sob Novo Prisma"

 

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (A mente não pertence ao cérebro e o cérebro não explica a mente)

 

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Cérebro humano publicado na revista “Espiritismo e Ciência”)

 

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Cogitação espírita a propósito da memória)

 

P: Da influência dos órgãos se pode inferir a existência de uma relação entre o desenvolvimento dos do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais?

 

R: "Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos."

 

Allan Kardec "O Livro dos Espíritos Cap. VII"

 

 

 

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