Ernesto Bozzano

 

Aparições de defuntos no leito de morte

 

 

Aparição [do latim apparitione] - 1. Fantasma. 2. Fenômeno pelo qual os seres do mundo incorpóreo se manifestam visíveis ao homem

 

 

TRADUTOR Carlos Imbassahy

 

 

 

Ernesto Bozzano - Delle apparizioni di defunti al letto di morte

 

Tipografia "Dante", Città della Pieve

 

Roma (1906)

Prefácio:

Façamos uma ligeira exposição sobre o autor e seus trabalhos:

Ernesto Bozzano é um escritor italiano que tem dedicado ultimamente a sua atividade ao estudo dos problemas psíquicos. E essa sua atividade tem sido prodigiosa.

Não podemos declarar ao certo o número de seus trabalhos já publicados sobre o assunto, porque, necessariamente, ao ser impresso este volume já aquele número deveria estar acrescido.

Bozzano é infatigável e inimitável em sua produtividade.

As suas trinta monografias, escritas em italiano, acham-se completamente esgotadas.

Grande foi, portanto, a nossa dificuldade no traduzir esta obra, em virtude do obstáculo intransponível de encontrar o original.

A esse respeito escrevia o notável psiquista italiano a esta Federação, nos seguintes termos:

“É próprio vero che le mie opere sono addirittura irreperibili in lingua italliana. I miei cinque volumi sono tutti esauriti e le mie trenta monografie sono, a loro volta, quasi tutte exaurite. Occorrerebbe pensare a uma nuova edizione generale dei libri e delle monografie; ma la mia produzione è oramai così vasta che l’impresa diventa finanziariamente molto onerosa in Italia.

In merito alle traduzioni francesi delle mie opere La informo che il mio volume sui Fenomeni d’Infestazione venne pubblicato dalla Casa editrice Felix Alcan di Parigi, ed è ancora in vendita.

L’altro mio volume sui Casi d’Identificazione Spiritica venne pubblicato per cura di Cesare Vesme nel 1914, e ritengo sia ancora vendibile presso l’Institut Métapsychique International. In pari tempo La informo che il direttore della Revue Spirite ha intrapreso la pubblicazione di quasi tutte le mie monografie in edizioni di piccoli volumi, dei quali ne furono già pubblicatti tre, che s’intitolano: Phénomènes Psychiques au moment de la Mort, Les Manifestations Psychiques et les Animaux, e À Propos de l’Introduction à la Métapsychique Humaine.”

Veio a propósito essa transcrição, visto como nos é exposta, por seu próprio autor, a situação atual dos seus livros.

Vemos, assim, que se achavam já completamente esgotados os seus cinco volumes; as suas trinta monografias, em língua italiana, também já dificilmente se encontravam. Pensou-se em uma nova edição geral das monografias e dos livros; sendo, porém, presentemente, muito vasta a sua produção, a impressão, em Itália, tornava-se, financeiramente, muito onerosa.

Algumas dessas produções encontram-se em língua francesa, sendo os Fenômenos de Assombração editados pela Casa Felix Alcan, de Paris; os Casos de Identificação Espírita foram publicados, em 1914, graças aos cuidados de César Vesme. O diretor da Revue Spirite empreendeu a publicação de quase todas as monografias em pequeno volume, sendo já publicadas três: Fenômenos Psíquicos no Momento da Morte, As Manifestações Metapsíquicas e os Animais e A Propósito da Introdução à Metapsíquica Humana.

É o que nos informa o autor da presente obra.

***

Já em vários outros idiomas começaram a ser também traduzidos os livros do escritor italiano, cujo nome é verdadeiramente conhecido em todo o mundo, dentro e fora dos círculos espiritualistas.

O seu valor não consiste unicamente na sua extraordinária fecundidade literária, senão também no interesse, na utilidade e na beleza de seus escritos.

É um vigoroso polemista e dir-se-ia que sua missão consiste em demonstrar a inanidade de todas as hipóteses formuladas em oposição à espírita.

Dotado de profunda erudição, possuidor de invejável espírito de lógica, é um adversário respeitável com que têm topado os arquitetos da teoria do subconsciente e suas filiais.

Bozzano é bem o descendente dessa raça de artistas que se têm imposto ao mundo pela magia de suas obras-primas.

A sua pena nunca se maculou na agressão. Por vezes, nas obras em que revida à crítica materialista, nota-se-lhe o calor daqueles que nasceram sob o céu do sul da Europa e têm na alma os arroubos do talento. Mas a serenidade do hermeneuta não se turba e a sua argumentação segue, imperturbável, até deixar completamente arrasada, aniquilada a construção adversa.

O ardoroso escritor compreendeu que contra fatos não há argumentos. E toda a sua obra é uma completa exposição de fatos, é a argumentação em torno dos fatos.

No presente livro se encontram os fatos ocorridos por ocasião da morte. Há por vezes histórias curtas, historietas singelas, mas que nem por isso nos deixam de comover.

Não era outra, aliás, a intenção do autor, senão a de mostrar à Humanidade que, já com os pés no limiar do outro mundo, podem estes que nos fazem as últimas despedidas dizer-nos o que percebem nesses novos umbrais em que estão prestes a penetrar e que julgávamos insondáveis até agora. É o testemunho dos moribundos. Testemunho insuspeito pela solenidade do momento e indubitável pela lógica dos fatos.

***

Onde mais cresce a nossos olhos o vulto do escritor irmão é no desprendimento que revela, no desinteresse que demonstra em relação aos proventos materiais que lhe podia trazer a sua vasta produção.

Como lhe perguntássemos ou como lhe perguntasse Antônio Fonseca, administrador da Livraria da Federação, quais as condições em que permitiria a tradução dos seus livros, por aquela instituição, declarou Ernesto Bozzano, em carta de 5 de novembro de 1926:

“Mi affretto a risponderle che io nulla chiedo e nulla voglio.”

“Apresso-me a responder-lhe que não peço nada e que não quero nada” – tal foi o gesto generoso do autor do presente trabalho.

Cristãos como somos, e julgando fracos os nossos agradecimentos, esperamos que o autor receba um dia os frutos desse esforço gigantesco que desprende em prol da Verdade, dentro dessa Seara onde militamos também deste outro lado do Atlântico, sem outro interesse que o de servir à Humanidade e a Deus.

Rio, novembro de 1927.

Carlos Imbassahy

 

Introdução da obra:

Em todos os tempos e entre todos os povos tem-se notado que, durante a crise suprema da morte, a inteligência humana dava, muitas vezes, sinais de perspicácia e previdência extraordinárias, ou que estava sujeita a percepções de natureza supranormal, partilhadas, bastas vezes, por outras pessoas presentes ou afastadas.

Os representantes da ciência oficial e aqueles que se ocupam das novas pesquisas metapsíquicas se têm esforçado no exame, pelo método experimental, dessas manifestações tão interessantes do período pré-agônico.

Pelo fato de terem eles conseguido fazer entrar facilmente parte dessas manifestações no círculo das leis conhecidas da psicofisiologia, não se pode, certamente, afirmar que o mesmo aconteça com todas.

Os fenômenos em questão parecem, com efeito, infinitamente mais complexos do que se poderia supor e sua imensa esfera de ação estende-se desde os simples casos de hipermnesia e de paramnesia até os de ação ou percepção telepática; dos casos de lucidez e de telestesia até os de precognição e retrocognição.

A tudo isso se vêm ainda superpor episódios sensacionais de visões extáticas, de visões “panorâmicas”, de visões simbólicas e, enfim, os bem impressionantes da percepção de fantasmas dos mortos.

Estes últimos são de muito maior freqüência e a tal ponto que a experiência popular extraiu daí uma de suas numerosas generalizações proverbiais.

Toda mulher do povo vos dirá, de fato, que quando um doente “fala com seus mortos”, não há mais nenhuma esperança de cura.

Noventa e nove vezes sobre cem assim acontece realmente.

Como não é possível desenvolver, em simples monografia, um tema tão vasto, proponho-me tratar exclusivamente dos fenômenos das aparições de defuntos no leito de morte.

Esses fenômenos são os que mais especialmente têm chamado a atenção de alguns sábios eminentes, os quais acabaram por concluir que tais fatos deviam ser classificados entre os pertencentes à variada categoria das alucinações subjetivas.

Essa indução era, em suma, razoável; sabe-se que as condições pré-agônicas predispõem a todas as formas de sensações e percepções alucinatórias e não se pode afirmar que as visões de que se trata sejam, em princípio, diferentes das outras.

Não é menos verdade, entretanto, que a análise desses fenômenos revela, aqui e ali, zonas obscuras, constituídas por circunstâncias ou situações bastante embaraçosas e sugestivas, de forma a reconhecer-se que o argumento merece um exame ulterior e não é possível formar-se sobre o assunto uma idéia nítida, senão estendendo as investigações a um número suficiente de casos. Eis por que me decidi a empreender a presente classificação.

Nas curtas observações que for fazendo, à medida que citar os episódios, cada vez mais complexos, restringir-me-ei às regras sãs experimentais, nas quais se inspiraram os distintos sábios na matéria, limitando-me a indicar sempre os pontos obscuros que a ciência oficial ainda não esclareceu e a fazer notar, enfim, que, se queremos explicar todos esses fatos em seu conjunto, é indispensável não somente completar a hipótese alucinatória pela telepática, como ainda mesmo orientar-nos para a hipótese espírita.

Com efeito, o mistério que rodeia o conjunto dos fenômenos metapsíquicos é de tal maneira impenetrável pelos métodos ortodoxos da ciência oficial, que não é possível admitir-se sejam pronunciados, em nome da Ciência, juízos sem apelação contra uma hipótese qualquer, capaz de explicar os mesmos fenômenos.

Faço, no entanto, questão de salientar que, publicando a presente classificação, não me proponho, de forma alguma, provar ou ilustrar uma tese qualquer; o que unicamente desejo é lembrar incidentes que, tomados insuladamente, apresentam apenas valor científico limitado, mas que possuem um valor especial se os encaramos em união com os outros grupos de fenômenos metapsíquicos, os quais convergem, todos, para a demonstração científica da sobrevivência.

Isso dito, passemos, sem mais, à exposição dos casos.

Ernesto Bozzano

Ver no site a obra publicada por Gabriel Delanne "A Alma é imortal"

Fontes: Portal O Livro dos Espíritos

Fontes: Ricerca Sulla Vita Della Spirito (Espíritas Italianos)

"A libertação da alma e do corpo se opera gradualmente e com uma lentidão variável, segundo os indivíduos e as circunstâncias da morte. Os laços que unem a alma ao corpo não se rompem senão pouco a pouco, e tanto menos rapidamente quanto a vida foi mais material e mais sensual".

 

Allan Kardec "O Livro dos Espíritos"

 

 

163. Deixando o corpo, a alma tem imediata consciência de si mesma?
— Consciência imediata não é o termo: ela fica perturbada por algum tempo.

 

164. Todos os Espíritos experimentam, no mesmo grau e pelo mesmo tempo, a perturbação que se segue à separação da alma e do corpo?
— Não, pois isso depende da sua elevação. Aquele que já está depurado se reconhece quase imediatamente, porque se desprendeu da matéria durante a vida corpórea, enquanto o homem carnal, cuja consciência não é pura, conserva por muito tempo mais a impressão da matéria.

 

Allan Kardec "O Livro dos Espíritos"

 

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

 

 

Allan Kardec - Revista Espírita de dezembro de 1858 (Ano I - Dezembro de 1858 nª 12 - Um Espírito nos Funerais de seu Corpo)

 

 

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