Ernesto Bozzano

Telepatia, telemnesia e a lei da relação psíquica

 

"Telepatia (Telestesia): Percepção à distância, implicando uma sensação ou visualização direta de coisas ou condições, independentemente de qualquer veículo sensorial conhecido, e em circunstâncias que excluem a presunção de serem as noções adquiridas originárias de mentalidade estranha à do percipiente."
“Telemnesia”, segundo a qual o médium conseguiria captar as informações de que tem necessidade, nas subconsciências de pessoas afastadas.

 

Ernesto Bozzano - Telepatia, Telemnesia e la legge del rapporto psichico

Tipografia Dante, Città della Pieve

Roma (1928)

Sinopse da obra:

A monografia de Ernesto Bozzano apresenta um estudo da telepatia (Percepção à distância, implicando uma sensação ou visualização direta de coisas ou condições, independentemente de qualquer veículo sensorial conhecido, e em circunstâncias que excluem a presunção de serem as noções adquiridas originárias de mentalidade estranha à do percipiente) e da telemnesia (segundo a qual o médium conseguiria captar as informações de que tem necessidade, nas subconsciências de pessoas afastadas), em confronto com a lei de “relação psíquica” relacionada a esses dois fenômenos.

Trechos da obra:

A questão da relação psíquica reveste-se de um interesse de primeira ordem.

Com efeito, se se demonstra como está bem fundada a teoria que já sustentei, segundo a qual o domínio, no qual agem as faculdades telepática e telemnésica, é suscetível de ser circunscrito de acordo com os fatos verificados, a demonstração experimental da existência e da sobrevivência do espírito humano deve ser considerada como já estando cientificamente assentada, pois que uma categoria especial de casos de identificação de mortos não pode ser encarada nos limites dos quais operam as faculdades em apreço.

Volto, por conseguinte, a este importante assunto, dispondo-me a analisar a fundo as modalidades nas quais se produz a telemnesia, argumento este que, do nosso ponto de vista, é mais essencial que o outro concernente à relação psíquica.

Os leitores terão a bondade de desculpar-me se a preocupação de ser claro me obriga a reproduzir aqui uma passagem do trabalho em que resumi a tese que eu desenvolvera:

“Já repeti, por várias vezes, nas minhas obras, e repito-o aqui ainda uma vez, com a esperança de fazer-me ouvir: a análise comparada, aplicada ao imenso material de fatos acumulados em 80 anos de pesquisas, fez emergir uma lei psíquica fundamental a que estão sujeitas todas as manifestações supranormais de natureza inteligente: é a lei da relação psíquica, graças à qual as comunicações telepáticas ou telemnésicas, entre um sensitivo ou um médium, de um lado, e uma pessoa afastada, do outro, não podem se realizar senão achando-se preenchida uma das três seguintes condições:

Quando há relações de conhecimento pessoal entre o sensitivo ou o médium e a pessoa afastada, ou, na falta disso, quando há, entre os experimentadores, alguém que conheça pessoalmente a pessoa afastada, ou, pelo menos, quando se apresenta ao sensitivo ou ao médium um objeto que durante certo tempo tenha sido usado pela pessoa em questão (psicometria).

Esta lei inexorável da “sintonização psíquica”, para as comunicações à distância entre duas subconsciências, encontra uma correspondência perfeita na lei análoga da “afinidade” entre os diferentes elementos da matéria e as diferentes “forças” da natureza: afinidade atômica, molecular, química e sintonização entre as ondas elétricas.

Segue-se que não se poderia pretender que, nas circunstâncias de que se trata, o sensitivo ou o médium não pode dispensar a relação psíquica para captar informes nas subconsciências dos outros.

Isto equivale a pretender entrar em relação, pela radiofonia, com uma estação emissora sem ter regulado, primeiro, o seu aparelho para o “comprimento da onda” da estação procurada. Isto dito, será preciso convir que, nos casos de que se trata, da mesma forma que a correspondência do comprimento da onda é indispensável para as comunicações radiofônicas, também a sintonização das vibrações fluídicas inerentes à aura do sensitivo ou médium deve corresponder às vibrações fluídicas inerentes à aura especial da pessoa afastada que se trata de procurar.

Fica, pois, entendido que, quando nenhuma das três condições acima indicadas se realiza, a relação psíquica à distância, entre pessoas vivas, não pode se estabelecer, o que é o mesmo que dizer que os casos de identificação pessoal de mortos, que viveram obscuramente e eram desconhecidos do médium e dos assistentes, não podem ser explicados pelas faculdades supranormais subconscientes e, portanto, eles nos obrigam logicamente, inevitavelmente, inexoravelmente – queira-se ou não – a chegar à interpretação espírita dos fatos. Ter-nos-emos entendido desta vez?

Enfim, não nos esqueçamos disto: a hipótese da “telemnesia”, segundo a qual o médium conseguiria captar as informações de que tem necessidade, nas sub-consciências de pessoas afastadas, está suficientemente comprovada nos limites das informações estritamente pessoais à pessoa afastada e conhecida do médium e dos assistentes, informações que existem, mais ou menos vivas, no limiar da consciência dessa pessoa, mas está longe de se achar demonstrada, e mesmo suspeitada, no que concerne a terceiras pessoas conhecidas do indivíduo em apreço.

Aliás, essas informações, no caso que nos ocupa, são quase sempre insignificantes e muito antigas, completamente esquecidas do indivíduo em questão, ao qual não podem interessar.

Nestas condições, dever-se-ia admitir que as faculdades investigadoras da “telemnesia” possuem o poder prodigioso de selecionar a informação insignificante procurada no meio da massa inumerável de informações de todas as espécies, registradas na memória integral do indivíduo distanciado.

É, pois, claro que, antes de admitir a existência subconsciente de uma faculdade capaz de selecionar a tal ponto inconcebível e inverossímil, é preciso dispor de boas provas nesse sentido, porém estas não existem, da mesma forma que não existe qualquer parcela de presunção experimental de natureza a sugerir a existência dessa faculdade.

Seria coisa inteiramente outra no caso, ao qual aludi mais acima, de as informações ligadas, de maneira estritamente pessoal, ao indivíduo afastado, existindo tais informações, mais ou menos vivas ainda, no limiar de sua consciência. Com efeito, nestas circunstâncias, a “telemnesia” não agiria ativamente, selecionando, recebendo impressões...”

Ora, ver-se-á que, no estudo que segue, consegui demonstrar, apoiando-me em fatos, que tudo contribui para confirmar o valor científico dos argumentos apresentados no trabalho anterior, assim relativamente à relação psíquica como no que concerne à “telemnesia”.

Começando pela lei da relação psíquica, direi que, na massa imponente das classificações que, depois de 43 anos, continuo a manter em dia, em cada categoria, grupo ou subgrupo de fenômenos, há uma consagrada aos casos das manifestações telepáticas sem a relação psíquica, classificação que comecei, reconhecendo o bem fundado axioma científico e filosófico segundo o qual “não há regras sem exceções”.

Esses casos, se os examinarmos a fundo, não contradizem a regra, mas, antes, a confirmam. Da mesma forma, a circunstância de haver pensado em registrar os fatos desta natureza me permite, agora, pronunciar-me com suficiente conhecimento de causa sobre esta importante questão.

Direi, então, que, no decurso de 43 anos de leituras muito intensas, não cheguei a reunir senão nove casos desta espécie, com dezessete outros casos nos quais a relação psíquica está velada mas existindo. Acrescento que nenhum dos casos que recolhi é realmente contrário à lei em questão, sendo todos suscetíveis de explicações diversas que os levam ao círculo da relação psíquica.

Isto dito, começo, sem mais delongas, a citação dos exemplos, escolhendo alguns casos típicos do grupo dos nove casos que carecem da relação psíquica, ou, mais exatamente, cuja relação psíquica, em lugar de se produzir de forma estritamente pessoal, direta ou indireta, se produz excepcionalmente por invasão difusa em um dado meio de um feixe de vibrações psíquicas engendradas pela intensidade dramática dos acontecimentos percebidos telepaticamente pelo sensitivo.

Ernesto Bozzano

***

Caso I – Tiro-o do Journal of the S. P. R. (vol. XXI, pág. 92). Conta a Srta. Evelyn Vincent:

“Meu sonho consistiu nisto: Parecia achar-me perto de uma carruagem de aluguel, que estava parada. Percebia no caminho, à direita da carruagem, uma poça de sangue, e me perguntava: “Que se pode fazer para ajudá-la?” Uma voz respondia: “Ela está morta. Seu rosto está cadavérico.”

Via, em seguida, que se retirava um corpo de mulher da carruagem e que era levado. Eu ignorava por que me achava lá, mas guardei a impressão de que passava de carruagem ao lado da que acabava de perceber. Sentia-me apavorada com esse espetáculo...

Tal é a narrativa pura e simples de meu sonho.”

Esse sonho correspondia a um assassinato acontecido, na mesma hora, isto é, às 2 horas do dia 6 de fevereiro de 1923, nas mesmas condições. A vítima, uma jovem, fora transportada para um hospital, onde dera entrada já morta. O moço que a matara tinha espontaneamente se apresentado à polícia.

A percipiente não conhecia, de modo algum, os protagonistas do drama.

Ver no site o pesquisador espírita Cel. Albert de Rochas

Fontes: Ricerca Sulla Vita Della Spirito (Biblioteca Espírita Italiana)

Fontes: Portal Italiano "Lo Spiritismo"

Fotografia e Telegrafia do Pensamento

"(...) Quem na Terra sabe de que maneira se estabeleceram os primeiros meios de comunicação do pensamento? Como foram inventados ou, antes, descobertos, dado que nada se inventa, pois que tudo existe em estado latente, cabendo aos homens apenas os meios de pôr em ação as forças que a Natureza lhes oferece? Quem sabe quanto tempo foi necessário para que os homens usassem da palavra de modo perfeitamente inteligível?

Aquele que soltou o primeiro grito inarticulado tinha sem dúvida uma certa consciência do que queria exprimir, mas os a quem ele se dirigiu nada a princípio compreenderam. Só ao cabo de longo lapso de tempo se verificou a existência de palavras convencionadas, depois a de frases abreviadas e, por fim, discursos inteiros.

Quantos milhares de anos não foram necessários para que a Humanidade chegasse ao ponto em que hoje se encontra! Cada progresso nos modos de comunicação, nas relações entre os homens, foi sempre assinalado por uma melhora no estado social dos seres.

À medida que as relações de indivíduo a indivíduo se tornam mais estreitas, mais regulares, a necessidade se faz sentir de uma nova e mais rápida forma de linguagem, mais apropriada a pôr os homens em comunicação instantânea e universalmente uns com os outros. Por que não teria cabimento no mundo moral, de encarnado a encarnado, por meio da telegrafia humana, o que ocorre no mundo físico, por meio da telegrafia elétrica?

Por que as relações ocultas que ligam, de maneira mais ou menos consciente, os pensamentos dos homens e dos Espíritos, por meio da telegrafia espiritual, não se generalizariam entre os homens, de modo consciente?

A telegrafia humana! Aí está uma coisa de molde certamente a provocar o riso dos que se negam a admitir o que não caia sob os sentidos materiais. Mas, que importam as zombarias dos presunçosos?

As suas negações, por mais que eles as multipliquem, não obstarão a que as leis naturais sigam seu curso, nem a que se encontrem novas aplicações dessas leis, à medida que a inteligência humana se ache em estado de lhes experimentar os efeitos.

O homem exerce ação direta sobre as coisas, assim como sobre as pessoas que o cercam. Frequentemente, uma pessoa de quem se faz pouco caso a exerce decisiva sobre outras de reputação muito superior. Isto decorre de que na Terra se veem muito mais máscaras do que semblantes e de que aí o olhar tem a obscurecê-lo a vaidade, o interesse pessoal e todas as paixões más.

A experiência demonstra que se pode atuar sobre o espírito dos homens, à revelia deles. Um pensamento superior, fortemente pensado, permita-se-nos a expressão, pode, pois, conforme a sua força e a sua elevação, tocar de perto ou de longe homens que nenhuma ideia fazem da maneira por que ele lhes chega, do mesmo modo que muitas vezes aquele que o emite não faz ideia do efeito produzido pela sua emissão.

É esse um jogo constante das inteligências humanas e da ação recíproca de umas sobre as outras. Juntai-lhe a das inteligências dos desencarnados e imaginai, se o conseguirdes, o poder incalculável dessa força composta de tantas forças reunidas.

(...) Se se pudesse suspeitar do imenso mecanismo que o pensamento aciona e dos efeitos que ele produz de um indivíduo a outro, de um grupo de seres a outro grupo e, afinal, da ação universal dos pensamentos das criaturas umas sobre as outras, o homem ficaria assombrado!

Sentir-se-ia aniquilado diante dessa infinidade de pormenores, diante dessas inúmeras redes ligadas entre si por uma potente vontade e atuando harmonicamente para alcançar um único objetivo: o progresso universal.

Allan Kardec

KARDEC, Allan. "Obras Póstumas". 25.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1990. Primeira Parte. Fotografia e telegrafia do pensamento. (trecho) p.113-119."


RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Allan Kardec - Obras Póstumas (Introdução ao estudo da fotografia e da telegrafia do pensamentos)

 

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