ERNESTO BOZZANO

Ernesto Bozzano - Os Fenômenos de Assombração

(As manifestações espontâneas verificadas em todos os tempos, e a insistência de alguns Espíritos em mostrarem a sua presença em certos lugares, são a origem da crença nos locais assombrados)

 

OBRA RARA TRADUZIDA

 

Título Original em Francês

Ernesto Bozzano - Les Phénomènes de Hantise

Traduit de l'italien par Charles de Vesme

Préface du docteur J. Maxwell

Librarie Félix Alcan

Paris (1920)

 

Tradutora do Francês para o Português

Fabiana Rangel

Comentários da tradutora:

Segundo sua meticulosa metodologia, o autor classifica os fenômenos em auditivos, visuais, táteis, olfativos e físicos.

Os auditivos e visuais são subdivididos em duas categorias: coletivos e eletivos. São coletivos aqueles percebidos por todos os presentes nos locais em que ocorrem, e eletivos os que são percebidos apenas por algumas pessoas, com exclusão de outras.

Isso parece indicar que alguns sejam objetivos e outros subjetivos, mas o competente cientista italiano não se cansa de advertir que essas classificações são mais para efeito didático, pois a fenomenologia não se enquadra rigidamente nos esquemas que imaginamos para ela.

Acrescenta, por isso, com a honestidade que caracteriza o homem na busca da verdade, que a classificação dever “ser considerada provisória e convencional”.

A Tradutora (Fabiana Rangel)

Trechos da obra:

Venho à presente expor alguns dados estatísticos laboriosamente reunidos e que contribuirão mais tarde ao desembaraçamento dos traços característicos gerais dos fenômenos de assombração.

Eu diria, a princípio, que os casos de assombração que julguei suficientemente documentados para poderem ser utilizados como elementos estatísticos contam de 532; entre eles, há 491 concernentes aos locais obsediados e 41 concernindo às localidades obsediadas; esses últimos se encontram, então, na proporção de 13 por 100 em relação aos primeiros.

Observarei, então, que dos 532 em questão, há 374 pertencentes à categoria dos “fenômenos de assombração propriamente dita” e 158 que concernem aos fenômenos de “poltergeist”; estes últimos são, assim, na proporção de 28 por 100 em relação aos primeiros.

Se examinarmos as categorias separadamente, constatamos que nas dos fenômenos de “poltergeist” não se encontram senão poucos dados estatísticos interessantes.

Eu assinalarei 46 casos de “chuva de pedras”, 30 de casos de campainhas tocando espontaneamente, 7 casos de fenômenos de incêndio e 7 outros casos auditivos nos quais vozes humanas reais chamavam as pessoas da casa ou respondiam a seus chamados ou falavam longa e frequentemente, dando conselhos e ordens.

Por outro lado, os dados estatísticos importantes abundam na outra categoria dos “fenômenos de assombração propriamente dita”, que é de longe a mais importante.

Pudemos ver que os casos em questão figuram na minha classificação em número de 374 num total de 532, ou seja, na proporção de 72%. Vimos que uma de suas principais características consiste em encontrar-se geralmente em relação com algum evento de morte – na maior parte do tempo, trágico – ocorrendo nos locais ou localidades obsediadas, enquanto as precedentes a esse gênero não se encontram senão raramente nos fenômenos de “poltergeist”.

O aporte teórico dessa singularidade me parece tão importante que creio ser útil expor por inteiro os cálculos estatísticos que a confirmam, mostrando-nos que os 374 casos em questão podem ser divididos em inúmeros grupos muito distintos e sugestivos.

Assim, por exemplo, em um primeiro grupo de 180 casos – e sobre a base de informações quase sempre seguras e somente em alguns casos de natureza puramente tradicional – a origem da assombração coincidiria com um evento trágico acontecendo nesse lugar. Em um outro grupo de 27 casos, a falta de documentação seria substituída pela descoberta de restos humanos enterrados ou emparedados nesses lugares: indício manifesto de dramas de sangue ignorados.

Em um terceiro grupo, de 11 casos, o precedente se delimitaria pelo fato de que um caso de falecimento qualquer teria acontecido no local; e em um quarto grupo de 26 casos a pessoa falecida que se manifesta não seria morta nos locais assombrados, mas onde teria vivido por muito tempo.

Em 304 casos de um total de 374, existiria assim o precedente de um caso de morte coincidindo com a obsessão. Restariam 70 casos nos quais nenhum precedente de morte existiria, ou, para ser mais exato, dos quais não se teria conhecimento.

De todo modo, essa maioria enorme de casos com precedente de morte sobre os outros parece já suficiente para legitimar a hipótese da existência de um laço mais que provável entre as causas de duas ordens de fatos; tanto que, como foi dito, os casos negativos não são tão, na maioria das vezes, sucessivos a circunstâncias bem estabelecidas, mas unicamente por falta de documentação.

Assim, por exemplo, os precedentes de morte estão ausentes em vários casos de casas muito antigas e há muito consideradas obsediadas, pelo que se pode supor que as origens da assombração caíram no esquecimento em decorrência do tempo e da intermitência das manifestações. Em outros casos, são os relatores que deixam de falar delas ou que não tiveram o tempo de realizar investigações mais completas.

Ainda em outras circunstâncias, os casos negativos podem encontrar uma explicação fácil nas reticências interessadas dos proprietários dos locais obsediados. Há, além disso, casos em que a assombração se desenvolveu em um cemitério; poderíamos razoavelmente registrá-los entre os casos precedidos de morte. Em um caso, o fantasma aparece com a garganta cortada – símbolo evidente de suicídio ou crime.

Alguns episódios, enfim, são de natureza premonitória, o que deveria fazer com que fossem excluídos do grupo estatístico dos “fenômenos de assombração propriamente dita”. Nos 12 casos que restam, a assombração se manifesta em circunstâncias de lugar e tempo que permitem afirmar com certeza que nenhum evento de morte está relacionado aos locais obsediados. Essa circunstância não eleva em nada a importância da regra anunciada, aquela que, como nas outras regras, está sujeita a algumas exceções que a confirmam indiretamente.

Além disso, as exceções podem se explicar de diferentes formas: em primeiro lugar, porque uma vez admitida a existência de um mundo espiritual, não haveria nenhuma razão para não admitir que uma entidade espiritual possa se manifestar para além dos locais em que ela viveu; isso não deveria, entretanto, acontecer senão excepcionalmente, uma vez que é natural pensar que as visitas dos espíritos e as manifestações de assombração sejam determinadas em relação com a localidade onde viveu o defunto que se manifesta.

Ernesto Bozzano

CASO XX. – Em fevereiro de 1913, todos os jornais da Bélgica publicaram amplas informações sobre um caso de "chuva de pedras" ocorrido em seu país. O diretor de um jornal de Anvers, O Sincerista, foi aos locais para interrogar a polícia e o proprietário da casa, obtendo uma confirmação plena dos fatos. Ele escreveu:

Todos os jornais do país relataram os fatos singulares de lançamento de pedras, de autoria desconhecida, que aconteceram em Marcinelle, perto de Charleroi, na casa ocupada pelo sr. Van Zanten, rua César de Paepe.

Essas manifestações, que começaram no dia 30 de janeiro, quinta-feira, terminaram no domingo, último 2 de fevereiro, e não duraram mais que uns quatro dias. Elas movimentaram a polícia local, bem como a polícia montada, e fizeram com que o chão descesse. Mas todas as investigações oficiais não têm resultado até esse dia, pelo que sabemos.

Nós fomos ao local em 5 de fevereiro. A casa onde esses eventos aconteceram é a última de uma série de construções semelhantes. Ao lado dela, na fachada, rua César de Paepe, se encontra um grande jardim bem sombreado, que se estende até a esquina da primeira rua transversal e rodeia igualmente o fundo dos passeios e dos cercamentos de casas pequenas, das quais a casa Van Zanten termina a fila.

Pouco depois de nossa chegada aos lugares, pudemos conversar com um agente de autoridade, que teve uma parte considerável na organização do monitoramento.

O que mais o chocou, nas circunstâncias que ele teve de se ocupar, foi a singular exatidão do tiro, os projéteis atingindo, ao que parecia, exatamente o local escolhido antes pelo autor do delito.

"Eu vi, ele disse, uma pedra chegar ao meio de um grande vitral, depois uma série de outras chocar em espiral em volta do primeiro ponto de impacto, de modo a quebrar metodicamente toda a folha de vidro. Eu vi, acrescentou ele, em uma outra janela, um primeiro projétil retido por fragmentos de vidro na abertura que ele tinha acabado de fazer, ser alvejado, por sua vez, por um segundo passando exatamente no mesmo ponto."

"As pedras não podem vir, segundo nossas observações, senão de uma casa situada no lado oposto ao quadrilátero, a mais ou menos 450 metros do alvo. Para obter uma retidão semelhante nessas projeções, seria preciso que o culpado dispusesse de uma catapulta bastante potente e perfeitamente regulada."

Isso, eu ressaltei, não resolve o problema. Os objetos lançados, segundo isso que o senhor acabou de nos dizer, diferentes em forma, tamanho e densidade, cada projétil segue, então, uma trajetória diferente consideravelmente uma da outra, após efeitos variáveis da resistência do ar. Além disso, o vento agiria de modo notável para deslocar as pedras, tanto de um lado quanto de outro, de modo que podemos afirmar que um tiro assim preciso, com projeteis tão diferentes, está além das forças humanas.

Alguns instantes depois, tive oportunidade de ver o sr. Van Zanten, que, com grande complacência, consentiu me mostrar o imóvel, os desgastes sofridos, os projéteis conservados, e respondeu ainda de modo o mais cortês e detalhado às questões que acreditei dever colocar.

Eu falei, a princípio, do que o agente da força pública tinha me dito antes.

O primeiro fato é perfeitamente exato, disse-me o sr. Van Zanten, apenas o policial não o viu – ele sabia porque eu tinha dito – a primeira pedra, de fato, se chocou exatamente no meio desse vidro e as seguintes tocaram sistematicamente em espiral o primeiro buraco.

Assim, eu disse, o primeiro golpe foi preciso, sem nenhuma regra preliminar. Eis mais uma proeza, da qual nenhum artilheiro em carne e osso seria capaz, ainda que se dissesse a Estrela Belga.

Quanto à primeira pedra atingida pela segunda, o fato é exagerado. Mais uma vez o policial não estava lá no momento. Nós mesmos estávamos no quarto vizinho: uma pedra ficou presa entre a barra de cobre da cortina e a esquadria da janela. Vimos que o pequeno projétil não estava mais em seu local de origem, que ele tinha caído no chão.

"Mas o que mais nos espantou foi que nenhuma das 300 pedras lançadas acertaram ninguém. No primeiro dia, meu filho estava no jardim, minha filha dormia em seu berço, perto da janela aberta, e eles não foram incomodados de modo algum. A empregada recebeu, é verdade, um pedaço de tijolo na cabeça, mas praticamente não sofreu nada. Meu sogro foi atingido no braço e disse: "Olha, não senti nada".

Esse é um dos sinais, eu disse, pelos quais melhor se pode, segundo o que diz a teoria, distinguir os projéteis oriundos de assombração dos oriundos de intervenção humana".

Como nesse momento a empregada entrava, eu a interroguei. Sabemos como é frequente encontrar nas casas obsediadas uma pessoa do sexo feminino, que tenha atingido a idade da crise da puberdade; a empregada não parece ter quinze anos. os fenômenos pareciam se ligar a ela, pois os projéteis não começavam a se mostrar senão quando ela se levantava.

A empregada me mostrou o ponto da cabeça onde a pedra a tinha atingido. Nenhum penteado ou boina protegiam o lugar – "A senhora foi muito machucada? Perguntei. – Oh, sim, pois até chorei de dor durante o dia. – Entretanto, não sangrou.

A senhora teve algum inchaço ou galo? – Não, nada parecido". O projétil tinha o volume de um quarto de tijolo. Parece-me pouco comum que tenha produzido tão pouco efeito, vindo de tão longe e devendo, consequentemente, cair do alto.

Essas são as indicações que coletei. Deve-se, penso eu, depois desses indícios, atribuir uma probabilidade bastante séria à intervenção de uma causa extra-humana nos fatos relatados acima (Anais de Ciências Psíquicas, 1913, p. 152).

Nesse caso, é preciso observar a princípio a quantidade de projéteis lançados, de onde se poderia tirar uma boa prova complementar favorável à origem sobrenatural dos fenômenos se se leva em conta que um operador de lugar não teria escapado de ser pego em flagrante delito pelos guardas. Note-se também que quando os projéteis chocavam as pessoas, eles não lhes causavam nenhum mal, ou causavam muito menos do que o fariam normalmente.

Enquanto isso, ao se chocarem com outros objetos, eles produziam danos correspondentes a seu volume e peso.

Essa particularidade curiosa constitui a regra nas manifestações de "poltergeist" e contribui com as outras relacionadas mais acima demonstrando a existência de uma intenção e de uma vontade ocultas que vêm regrar as manifestações.

Essas particularidades sugerem uma outra observação que se liga a um comentário que seguiu o caso XVIII, sobre certos exemplos onde se falava de projéteis que percorriam com uma lentidão relativa sua parábola no ar.

Fenômeno teoricamente interessante, mas ao qual faço observar a raridade segundo os dados estatísticos coletados.

Agora, creio que essa asserção é modificável e isso em consequência desses exemplos de projéteis inofensivos para as pessoas, os quais contêm implicitamente a hipótese de que nessas condições eles não podem senão percorrer com uma lentidão relativa sua parábola no ar, pois de outro modo não deixariam de produzir todo seu efeito chocando pessoas assim como produzem ao chocar os telhados, os móveis e as louças.

A afirmação sobre a raridade dos casos de lentidão no curso dos projéteis se aplicaria, então, às pessoas que tiveram a possibilidade de observá-la, mas o fenômeno em si parece se realizar com uma frequência relativa.

Ernesto Bozzano - Os Fenômenos de Assombração

CASO XXII – A forma mais simples dessas manifestações é representada pelo caso seguinte, estudado pelo Professor Lombroso. Ele escreve:

Em 16 de novembro de 1900, em Turin, Via Bava, nº 6, em uma casa de espetáculos de um tal Fumero, começaram a ouvir durante o dia, mais especialmente à noite, uma série de barulhos estranhos.

Verificando a causa, constataram que estavam se quebrando garrafas cheias e vazias na adega, depois de lançadas de seus compartimentos intactos. O mais frequente, elas desciam do alto e rolavam, amontoavam-se contra a porta fechada, de modo a obstruir a entrada de quem quisesse abrir a porta. No pequeno quarto do piso superior que, no meio de uma escada, ligava ao quarto vizinho da pequena sala de espetáculo, tipo de loja dos fundos, apinhavam-se roupas e alguns desciam pela escada no quarto abaixo.

Duas cadeiras, caindo, quebraram. Objetos de cobre que estavam pendurados na parede da loja dos fundos caíram no chão percorrendo longos espaços no quarto, algumas vezes quebrando. Um espectador colocou sobre a cama do quarto superior seu chapéu, que desapareceu instantaneamente e foi encontrado na lixeira do pátio.

Ao examinar atenciosamente se existiam causas estranhas nesses fatos, foi preciso excluí-las. Em vão recorreram à polícia, depois ao padre. Mesmo enquanto este trabalhava, um enorme recipiente de vidro cheio de vinho quebrou a seus pés.

Um vaso de flores, levado no cabaré, desceu sobre uma mesa vizinha do alto de uma prateleira da porta onde tinha sido colocada, sem se quebrar. Dois recipientes de licor que estavam destilando se quebraram. Cinco ou seis vezes, na presença de guardas, uma pequena escada apoiada em um lado da parede, na pequena sala de espetáculo, caiu lentamente no chão, sem, entretanto, machucar ninguém.

Uma espingarda atravessou o quarto e foi parar no chão, no ângulo oposto. Duas garrafas desceram do alto com um certo impulso, sem quebrar, e contundiram o cotovelo de um comissário, que relata uma leve contusão.

A massa se acumulava e a polícia, se preocupando, disse ao Fumero que eles suspeitavam de simulação, de modo que aquelas pobres pessoas decidiram sofrer em silêncio. Mais ainda, fizeram crer que tudo tinha cessado depois de uma visita imaginária que eu teria feito, para não acrescentar outras zombarias à situação. Estudei o caso com atenção.

Examinei atenciosamente os lugares. Pequenos cômodos, dois que serviam de boutique para vender vinho, um de fundos, ligado por uma escada a outro cômodo superior que servia de quarto de dormir, enfim uma adega profunda para a qual se subia por uma longa escada e um corredor.

Alguém me disse que haviam notado que quando alguém entrava na adega, as garrafas se quebravam. Entrei ali, a princípio, sem luz, e ouvi, de fato, vidros quebrando e garrafas rolando sob meus pés. Então, acendi a luz. As garrafas estavam arrumadas em cinco compartimentos, sobrepostas umas às outras. No meio havia uma mesa grossa, sobre a qual eu coloquei seis velas acesas, supondo que os fenômenos espíritas deviam cessar sob forte iluminação. Ao contrário, vi logo três garrafas vazias que estavam a princípio no chão, rolarem como impulsionadas por um dedo e quebrarem perto da mesa.

Para impedir um possível truque, examinei atenciosamente, com um castiçal à mão, e apalpando todas as garrafas cheias que se encontravam nos compartimentos, assegurei-me de que não havia ali nem fios nem cordas que teriam podido explicar seus movimentos. Depois de alguns minutos, duas garrafas se soltaram e caíram no chão sem violência, como que levadas por alguém. Depois da descida, ao invés da queda, seis se quebraram no chão úmido, já todo inundado de vinho. Duas ficaram intactas.

Depois de uns quinze minutos, outras três garrafas do último compartimento caíram e quebraram no chão. Eu saí da adega. Enquanto eu estava no ponto de sair, ouvi uma garrafa quebrar no chão. Fechei a porta e tudo voltou a tranquilidade.

Eu voltei um outro dia. Disseram-me que os mesmos fenômenos continuaram, acrescentando que um pequeno moinho de cobre que se encontrava pendurado da parede tinha saltado de um ponto a outro da boutique dos fundos, chocando-se com a parede de frente até esmagar, o que pude constatar. Duas ou três cadeiras tinham saltado com tal violência que quebraram, sem tocar ninguém que se encontrava ali. Uma mesa igualmente havia quebrado.

Eu precisava examinar as pessoas. Havia um rapaz de treze anos, de aparência normal, e um outro igualmente normal. O patrão era um velho soldado corajoso, que ameaçava os espíritos com uma espingarda.

A julgar por sua tez rosada e seu bom humor, ele parecia um pouco alcoolizado. A patroa era, ao contrário, uma pequena mulher de cinquenta anos, cansada, muito magra, sujeita a tremores, nevralgias e alucinações noturnas desde a infância, e passou por uma histeroctomia. Então, aconselhei ao patrão afastá-la por uns dias.

Ela foi para Nolle, seu país (22 de novembro) e lá teve alucinações de vozes noturnas, movimentos, pessoas, que ninguém viu ou ouviu, mas ela não provocou nenhum movimento. Durante esses três dias, nenhum fato ocorreu no cabaré. Quando ela voltou, os fenômenos se multiplicaram, a princípio violentamente, depois com maior moderação. Isso dado, aconselhei a mulher a se ausentar novamente, e ela partiu (26 de novembro).

No dia da partida da mulher, que estava num estado de grande excitação e tinha blasfemado contra os pretensos "espíritos", vimos quebrar, caindo no chão, todos os pratos e garrafas que ela tinha colocado na mesa. Quando a família quis jantar, ela teve de fazer preparar a mesa em outro lugar e por outra mulher, pois nenhum prato tocado pela patroa restou intacto. Então, um fluxo mediúnico parecia suspeito nela.

Entretanto, durante sua ausência, os fenômenos se repetiram igualmente, e justamente duas de suas botas que estavam em seu quarto desceram as escadas, em pleno dia, às oito horas e meia da manhã, percorrendo no ar a boutique dos fundos, passando desta ao restaurante e, de lá, foram cair, do alto, aos pés de dois clientes sentados em uma mesa (27 de novembro).

Alguém as colocou novamente sobre no quarto, continuamente monitoradas, e elas não mexeram mais até o meio dia do dia seguinte. A essa hora, quando todos estavam à mesa, elas desapareceram. Encontramo-las uma semana depois, sob a cama do mesmo quarto.

Como os fenômenos continuavam, chamaram a mulher de Nole. Eles se repetiram na mesma intensidade. Uma garrafa de limonada, por exemplo, que estava no cabaré, sob os olhos de todos, em pleno dia, percorreu lentamente, como estivesse acompanhada por uma mão, quatro ou cinco metros até a butique dos fundos, cuja porta estava aberta, depois caiu no chão e quebrou.

Depois disso, veio ao espírito do patrão afastar um menino, o de treze anos. Tendo partido (7 de dezembro), todos os fenômenos cessaram, o que poderia fazer suspeitar ainda de uma influência desse menino, que, todavia, não era histérico e não provocou próximo a seus novos patrões nenhum acidente espírita. Poder-se-ia admitir também que, mesmo de Nole, a mulher histérica influenciava os objetos de sua casa em Turin, como veremos acontecer mais tarde.

Eis o que escreveu o Professor Lombroso em seu livro Ricerche sui fenomeni ipnotici e spiritici (p. 246). Em um outro relato do mesmo caso, publicado anteriormente nos mesmos Anais de Ciências Psíquicas (1906, p. 268), ele reproduziu o testemunho do sr. Pierre Merini, em 9 de janeiro de 1901, do qual extraio esta passagem:

Ali (na adega), em companhia de várias outras pessoas, vi se romperem garrafas sem causa aparente e plausível. Eu quis ficar sozinho para verificar melhor o fenômeno. As outras pessoas aceitaram minha proposição e eu me fechei na adega, enquanto todo mundo se retirava para o fundo do corredor onde começa a escada que conduz ao andar superior. Comecei por me assegurar, com a ajuda de uma vela, que eu estava realmente só.

Esse exame era fácil, graças ao tamanho da adega e à dificuldade que haveria de alguém se esconder atrás dos poucos utensílios de uso vinícola que ali estavam. Ao longo das paredes mais compridas da adega haviam disposto uma série de vigas robustas sustentadas em cada ponta por dois pés.

Essas pranchas eram inteiramente cobertas de garrafas vazias e cheias. Observei ainda que a janela que dava para o pátio, que em outros tempos serviu de escada para a adega, estava nesse momento obstruída por uma prancha.

Vi, então, várias garrafas vazias e cheias se romperem por si mesmas, na minha frente. Aproximei uma escada ao local onde elas se quebravam com maior frequência e subi até o último degrau. Peguei uma garrafa vazia que tinha acabado de quebrar e da qual não restava mais que a metade inferior.

Isolei-a das outras, colocando-a a alguma distância do local onde ela estava, ou seja, sobre uma das pilhas de sustentação das pranchas. Ao cabo de alguns instantes, a garrafa conseguiu se quebrar em estilhaços. Eis um dos fatos que posso melhor certificar.

Examinando com atenção a maneira como as garrafas quebravam, pude constatar que o rompimento era precedido por uma rachadura especial, própria do vidro quando ele racha.

Observaremos nesse caso o fenômeno curioso e pouco comum de garrafas que sem cair ou se deslocar voavam em estilhaços, e outro bastante comum, mas sempre interessante, de garrafas que, caindo, não se lançavam, mas caíam com uma "lentidão relativa, como que acompanhadas por uma mão".

Esse último fenômeno de lentidão na queda ou no percurso dos projéteis já foi amplamente comentada nesta obra. Acrescento que os movimentos sobrenaturais de objetos não se limitam a esses fatos na série de obsessões, mas se manifestam sob as formas mais variadas e mais caprichosas, como veremos no exemplo que segue.

Ernesto Bozzano - Os Fenômenos de Assombração

Ver no site as obras completas do Codificador da Doutrina Espírita "Allan Kardec"

Fontes: Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec (Bibliothèque spirite)

Fontes: l'Encyclopédie Spirite

 132. As manifestações espontâneas verificadas em todos os tempos, e a insistência de alguns Espíritos em mostrarem a sua presença em certos lugares, são a origem da crença nos locais assombrados. As respostas seguintes foram dadas a perguntas feitas a respeito.

1. Os Espíritos se apegam somente a pessoas ou também a coisas?

— Isso depende da sua elevação. Certos Espíritos podem apegar-se às coisas terrenas. Os avarentos, por exemplo, que viveram escondendo as suas riquezas e não estão suficientemente desmaterializados, podem ainda espreitá-los e guardá-los.

2. Os Espíritos errantes têm predileção por alguns lugares?

— Trata-se ainda do mesmo princípio. Os Espíritos já desapegados das coisas terrenas preferem os lugares onde são amados. São mais atraídos pelas pessoas do que pelos objetos materiais. Não obstante, há os que podem momentaneamente ter preferência por certos lugares, mas são sempre Espíritos inferiores.

3. Desde que o apego dos Espíritos por um local é sinal de inferioridade, será também de que são maus espíritos?

— Claro que não. Um Espírito pode ser pouco adiantado sem que por isso seja mau. Não acontece o mesmo entre os homens?

4. A crença de que os Espíritos freqüentam, de preferência, as ruínas têm algum fundamento?

— Não. Os Espíritos vão a esses lugares como a toda parte. Mas a imaginação é tocada pelo aspecto lúgubre de alguns lugares e atribui aos Espíritos efeitos na maioria das vezes muito naturais. Quantas vezes o medo não fez tornar a sombra de uma árvore por um fantasma, o grunhido de um animal ou o sopro do vento por um gemido? Os Espíritos gostam da presença humana e por isso preferem os lugares habitados aos abandonados.

Allan Kardec "O Livro dos Médiuns"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Allan Kardec - O Livro dos Médiuns (Obra de Allan Kardec - "O Livro dos Médiuns" -  Segunda Parte - Dos lugares assombrados - Cap. IX)

 

Ernesto Bozzano - Os Fenômenos de Assombração (PDF)

 

Ernesto Bozzano - Les Phénomènes de Hantise (1920) (Fr)

 

Ernesto Bozzano - Dei fenomeni di infestazione (1936) (Ital.)