HERCULANO PIRES

O INFINITO E O FINITO

(Lições de Espiritismo / Crônicas)

Sinopse da obra:

José Herculano Pires manteve, durante muitos anos, no jornal “Diário de São Paulo”, órgão dos Diários e Emissoras Associados, uma coluna de crônicas espíritas, na qual abordava temas de interesse geral relacionados com a doutrina codificada por Allan Kardec. Assinava-as com o pseudônimo de Irmão Saulo.

Nesta obra estão reunidas algumas das mais interessantes crônicas do autor, publicadas no referido jornal.

Jornalista, filósofo, escritor e professor, Herculano Pires alcançou grande conceito dentro e fora do movimento espírita. Sua produção literária ultrapassa aos oitenta títulos; alguns deles constituem-se verdadeiras obras filosóficas.

Herculano dedicou a maior parte de sua existência em favor da Doutrina Espírita, seja buscando interpretá-la com fidelidade, seja defendendo-a dos ataques dos adversários.

Capítulos da obra:

36 

Cuidado dos dirigentes de Centros em face às confusões doutrinárias

Duas espécies de confusões: as intencionais e as inocentes – Confusões de origem mediúnica – O caso de Ramatis

Faz-se, em geral, muita confusão a propósito de Espiritismo. Há confusões intencionais, promovidas por elementos interessados em combater a propagação inevitável da doutrina, e há confusões inocentes, feitas por pessoas de reduzido conhecimento doutrinário. As primeiras, as intencionais, não seriam funestas, porque facilmente identificáveis quanto ao seu objetivo, se não houvessem confusões inocentes, que preparam o terreno para aquelas explorações.

Os Centros Espíritas têm um grande papel a desempenhar na luta pelo esclarecimento do povo, devendo promover constantes programas de combate a todas as formas de confusão doutrinária. Por isso mesmo, devem ser dirigidos por pessoas que conheçam a doutrina, que a estudem incessantemente e que não se deixem levar por sugestões estranhas. Quando os dirigentes de Centros não se sentirem bastante informados dos princípios doutrinários, devem revestir-se, pelo menos, da humildade suficiente para recorrerem aos conselhos de pessoas mais esclarecidas e à leitura de textos orientadores.

Há um pequeno livro de Kardec que muitos dirigentes desprezam, limitando-se a aconselhar a sua leitura aos leigos e principiantes. É exatamente O Principiante Espírita. Esse livrinho é precioso orientador doutrinário, que os dirigentes devem ler sempre. Outro pequeno volume aconselhável é O que é o Espiritismo, também de Kardec. E como leitura auxiliar, de grande poder esclarecedor, aconselhamos ainda O Consolador, de Emmanuel. Principalmente agora, nesta época de confusões que estamos atravessando, os dirigentes de Centros, grupos familiares e demais organizações doutrinárias deviam ter esses livros como leitura diária, obrigatória.

Além das confusões habituais entre Umbanda e Espiritismo, Esoterismo, Teosofia, Ocultismo e Espiritismo, há outras formas de confusão que vêm sendo amplamente espalhadas no meio espírita. São as confusões de origem mediúnica, oriundas de comunicações de espíritos que se apresentam como grandes instrutores, dando sempre respostas e informações sobre todas as questões que lhes forem propostas. Um exemplo marcante é o de Ramatis, cujas mensagens vêm sendo fartamente distribuídas. Qualquer estudioso da doutrina percebe logo que se trata de um espírito pseudo-sábio, segundo a “escala espírita” de Kardec. Não obstante, suas mensagens estão assumindo o papel de sucedâneos das obras doutrinárias, levando até mesmo oradores espíritas a fazerem afirmações ridículas em suas palestras, com evidente prejuízo para o bom conceito do movimento espírita.

Não é de hoje que existem mensagens dessa espécie. Desde todos os tempos, espíritos mistificadores, os falsos profetas da erraticidade, como dizia Kardec, e espíritos pseudo-sábios, que se julgam grandes missionários, trabalham, consciente ou inconscientemente, na ingrata tarefa de ridicularizar o Espiritismo. Mas a responsabilidade dos que aceitam e divulgam essas mensagens não é menor do que a dos espíritos que as transmitem. Por isso mesmo, é necessário que os confrades esclarecidos não cruzem os braços diante dessas ondas de perturbação, procurando abrir os olhos dos que facilmente se deixam levar por elas.

O Espiritismo é uma doutrina de bom-senso, de equilíbrio, de esclarecimento positivo dos problemas espirituais, e não de hipóteses sem base ou de suposições imaginosas. As linhas seguras da doutrina estão na codificação kardeciana. Não devemos nos esquecer de que a codificação representa o cumprimento da promessa evangélica do Consolador, que veio na hora precisa. Deixar de lado a codificação para aceitar novidades confusas é simples temeridade. Tanto mais quando essas novidades, como no caso de Ramatis, são mais velhas do que a própria codificação.

Herculano Pires

Capítulos da obra:

37 

Melhor rejeitar nove verdades do que aceitar uma mentira

Estamos numa fase em que necessitamos da maior vigilância no campo doutrinário. Os espíritas, hoje mais do que nunca, precisam vigiar e orar, segundo ensinou Jesus. Porque o movimento doutrinário se expande cada vez mais e a Doutrina Espírita, sancionada pela evolução científica, desperta maior número de consciências. Por isso mesmo, a luta contra o Espiritismo é cada vez mais intensa. Essa luta não se processa apenas no campo adversário, mas também em nosso meio, através de mistificações e deturpações, contra as quais precisamos estar alertas, conscientemente prevenidos.

Poucos espíritas, lembrando a advertência de Kardec quanto à necessidade de repelir os erros para defender a verdade, vêm sendo capazes de distinguir o falso do verdadeiro, em matéria de comunicações mediúnicas. Obras de mistificação evidente, como as de Ramatis, são aceitas e defendidas com entusiasmo em nosso meio. De uma vez por todas, é preciso que usemos a cabeça, comparando as tolices ramatisianas, feitas para ridicularizar a doutrina, com as páginas equilibradas e os ensinamentos sensatos da codificação, bem como de Emmanuel, de André Luiz, de Hilário Silva e outros mensageiros do Alto.

Há também mistificações de encarnados, livros destinados a confundir o meio espírita, que circulam e são citados em artigos e livros. Devemos ter o maior cuidado nessas citações, pois elas concorrem para a difusão do erro, a semeadura do joio na seara, e somos sempre responsáveis pelo que fazemos de certo ou de errado. Precisamos intensificar a leitura e o estudo das obras de Kardec, de Léon Denis, de Emmanuel, nos Centros e grupos espíritas, rejeitando os livros imaginosos e falsos (entre os quais os de Roustaing e o famoso A Vida de Jesus ditada por Ele mesmo, que nada nos oferecem de novo e de bom, pois destinam-se apenas a ridicularizar o Espiritismo. Esses não são livros espíritas. São o joio semeado na seara de Jesus.

Herculano Pires

Capítulos da obra:

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Maneiras particulares de ver criam confusões doutrinárias

Discussões sobre a natureza tríplice do Espiritismo

– Posição clara de Kardec

– Um pouco de Pestalozzi e de Bergson

A natureza do Espiritismo, apesar de toda a clareza dos princípios doutrinários, é ainda problemática para muita gente. Não raro encontramos discussões a respeito, nos próprios meios doutrinários. Há quem sustente, enfaticamente, que o Espiritismo é apenas religião, e há quem afirme o contrário, com a mesma ênfase. Já tivemos ocasião de ouvir as duas afirmações em palestras sobre a doutrina. Mas tudo isso decorre tão somente da falta de compreensão global do problema, de melhor e mais acurado aprofundamento nos estudos doutrinários. Por mais ilustres que sejam os opositores, nesse caso, ambos se encontram irremediavelmente errados.

Não há dúvida que a nossa afirmação é também enfática. Mas a ênfase é necessária, quando se trata de enfrentar opiniões solenes, que contrariam a realidade dos fatos. Sim, dos fatos, porque princípios de doutrina, claramente fixados, também são fatos. E quando o próprio Kardec estabeleceu – e seus seguidores aceitaram, procurando explicá-lo em obras posteriores – o princípio da natureza tríplice da doutrina, não é possível que continuemos a provocar celeumas em torno do assunto. Se não bastam as afirmações de Kardec em O que é o Espiritismo, nem as explicações de O Livro dos Espíritos, que se consulte A Gênese, onde o mestre, por assim dizer, esmiúça o problema.

O Espiritismo é ciência, quando se ocupa das relações entre o visível e o invisível, no campo dos fenômenos mediúnicos; é filosofia, quando nos oferece uma concepção própria da vida e do mundo; e é religião, quando traça normas de conduta moral e espiritual, objetivando a aproximação da criatura ao Criador. Kardec explicou isto com meridiana clareza e Léon Denis o confirmou. O Espiritismo reúne em seu corpo doutrinário esses três aspectos em virtude de sua natureza de síntese conceptual. Em A Gênese, Kardec demonstra, de maneira matemática, num raciocínio que tem o rigor espinosiano das equações algébricas, que o Espiritismo é uma dupla revelação, ao mesmo tempo divina e humana. Revelação divina, porque procedente dos planos espirituais superiores, e humana, porque corroborada pela pesquisa e a observação científicas. Em seu discurso no Congresso Espírita Internacional de Paris, em 1925, e em seu livro O Gênio Céltico e o Mundo Invisível, Léon Denis afirma e esclarece, com a mesma precisão, a posição de síntese do conhecimento, que o Espiritismo assume em nosso tempo.

As confusões que ainda hoje se fazem a respeito nos lembram a parábola do elefante e dos cegos, no evangelho hindu de Ramakrishna. Um cego afirma que o elefante é uma coluna, porque só lhe apalpa uma das pernas; outro, que é um tonel, porque lhe toca o ventre; outro, que é uma bengala, pois lhe tateia a tromba; outro, um chicote, pois lhe examina a cauda. Mas quem tem olhos de ver sabe que o elefante é muito mais do que os aspectos parciais que seus membros podem apresentar ao tato. Assim também, se nos ativermos apenas a um dos aspectos do Espiritismo e não voltarmos os olhos para os demais, negaremos fatalmente a sua natureza tríplice.

No tocante à religião, os opositores apegam-se muito ao fato de Kardec não mencionar essa palavra na definição da doutrina que apresenta em O que é o Espiritismo. Realmente, em lugar de religião, o mestre fala em moral. Mas todos os que citam esse fato não se esquecem de citar, também, que Kardec era discípulo de Pestalozzi. Ora, a substituição de religião por moral era um dos princípios da filosofia pedagógica de Pestalozzi, para quem o ser humano era tríplice: o ser animal, o ser social e o ser moral, decorrendo desse fato uma concepção tríplice de religião, com a religião animal, a social e a moral. A religião moral era a mais elevada, a mais pura, destituída de formalismos, o que levava Pestalozzi a afirmar que a verdadeira religião é a moralidade.

O próprio Kardec deixa isso bem claro, em toda a sua obra, lutando contra o formalismo religioso e pregando uma religião puramente espiritual. Como falar em religião, no seu tempo, e ainda hoje, era falar em culto, em liturgia, em sacramentos, em sacerdócio, ou seja, em formalismo místico, o mestre preferia falar em moral. Mesmo porque o objetivo da religião, na espiritualização do homem, não é outro senão moralizá-lo, fazer dele um ser moral, que possa aproximar-se de Deus. O próprio Kardec explicou essa posição especial que havia assumido, na divulgação da doutrina, ao pronunciar o seu derradeiro discurso. E o magnífico texto de O Evangelho Segundo o Espiritismo não deixa dúvidas a respeito.

Resta ainda uma objeção: a de que religião sem forma, sem corpo ou sistema de rituais e organização sacerdotal não é religião. Mas essa objeção já foi amplamente refutada no campo filosófico e até mesmo no teológico, onde encontramos a posição curiosa de Schleiermacher, com o seu misticismo individual e livre. Filosoficamente, a mais lúcida solução do problema nos parece ser a de Bergson, com a sua teoria da religião estática ou social, presa a rígidas estruturas formais, e da religião dinâmica, que é o livre impulso do homem para Deus, correspondendo à religião moral de Pestalozzi e ao misticismo livre de Schleiermacher.

O Espiritismo começa com a definição de Deus, no primeiro capítulo da obra básica da doutrina, e se define poderosamente, na plenitude de sua natureza religiosa, em O Evangelho Segundo o Espiritismo. Negar, pois, que o Espiritismo é religião, não é mais do que contrariar a evidência.

Herculano Pires

Capítulos da obra:

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Não basta compreender a doutrina: é preciso sobretudo assimilá-la

Da compreensão intelectual à vivência dos princípios doutrinários – O perigo do artificialismo convencional – Problema de fundo e não de forma

Não basta aceitar os princípios renovadores da Doutrina dos Espíritos. É preciso vivê-los. Todas as doutrinas são sistemas lógicos, acessíveis à compreensão intelectual. Desse ponto de vista, o Espiritismo pode ser compreendido por qualquer pessoa curiosa e de capacidade mental comum. Trata-se de uma doutrina clara, baseada em princípios de fácil assimilação, embora por baixo dessa simplicidade existam problemas complexos, de ordem científica e filosófica. É fácil compreendê-lo, desde que se estude criteriosamente as suas obras básicas.

A simples compreensão de uma doutrina, porém, não implica a sua vivência. Além de compreendê-la, temos de senti-la. Somente quando compreendemos e sentimos o Espiritismo, quando o incorporamos à nossa personalidade, quando o assimilamos profundamente em nosso ser, é que podemos vivê-lo. Daí a razão de Allan Kardec ter afirmado a existência de vários tipos de espíritas, concluindo que “o verdadeiro espírita se conhece pela sua transformação moral”. Espiritismo compreendido e vivido transforma moralmente o homem.

Viver o Espiritismo, entretanto, não é viver no meio espírita, fazendo ou frequentando sessões, lendo obras doutrinárias ou ouvindo conferências. Pode fazer-se tudo isso, e ainda mais – pode-se até mesmo gastar muito dinheiro e tempo em obras de assistência social –, atendendo apenas à compreensão intelectual da doutrina, sem vivê-la. Porque viver o Espiritismo é pautar todas as ações pelos princípios doutrinários. É moldar a conduta pela doutrina. É agir, em todas as ocasiões, como o verdadeiro espírita de que falava Kardec.

Ainda neste ponto, porém, é necessário lembrar que não basta a conduta externa. Não basta a aparência. Nada mais avesso, aliás, às aparências, do que o Espiritismo. Anti-formal por excelência, contrário aos convencionalismos sociais e religiosos, o Espiritismo, como dizia Kardec, “é uma questão de fundo e não de forma”. Por isso mesmo, não podemos vivê-lo de maneira externa. Antes da conduta exterior, temos de reformar a nossa conduta interna, modificar nossos hábitos mentais e verbais. Pensar, falar e agir de acordo com os princípios renovadores da moral espírita, que é a própria moral evangélica, racionalmente esclarecida pela Doutrina do Consolador.

Surge ainda uma dificuldade, que devemos tentar esclarecer. Chegados a este ponto, muita gente nos perguntará, como sempre acontece, quando falamos a respeito: “O espírita deve então sujeitar-se rigidamente a um molde doutrinário?” Não, pois se assim fizesse estaria impedindo o seu livre desenvolvimento moral. Quando falamos em “moldar a conduta”, Fazemo-lo num sentido de orientação, nunca de esquematização. O espírita deve ser livre, pois, como acentuava o apóstolo Paulo, “onde não há liberdade não está o Espírito do Senhor”. Só a liberdade dá responsabilidade e só a responsabilidade produz a verdadeira moral.

Ao procurar viver o Espiritismo devemos, portanto, evitar as atitudes formais que conduzem ao artificialismo, e consequentemente à mentira e à hipocrisia. Como se vê, esse é o caminho contrário ao da Doutrina dos Espíritos, é o caminho tortuoso da Doutrina dos Homens, no plano mundano. Devemos ser naturais. E como modificar a nossa natureza inferior, sendo naturais? Primeiro, compreendendo que temos essa natureza inferior e precisamos modificá-la, o que fazemos pela compreensão da doutrina; depois, sentindo a necessidade de modificá-la, o que fazemos pela assimilação emocional da doutrina. Nossa transformação moral deve começar de dentro, e não de fora. Dos pensamentos e sentimentos, e não das atitudes exteriores. Deve ser uma transformação para Deus ver, não para os homens verem.

A falta de compreensão desse problema leva muitos espíritas a posições incômodas dentro da doutrina, e o que é pior, a posições comprometedoras para o movimento doutrinário. E leva também a lamentáveis confusões, principalmente no tocante ao problema religioso. Quando compreendemos, porém, que o Espiritismo não é somente um sistema doutrinário para assimilação intelectual, mas que é, sobretudo, vida, norma de vida, e principalmente, seiva renovadora da vida humana na Terra, então compreendemos que não é possível separar-se, dos seus aspectos científicos e filosóficos, o seu poderoso aspecto religioso. Lembraremos ainda o que dizia Kardec, ou seja, que o Espiritismo é forte justamente por afirmar e esclarecer as mesmas verdades fundamentais da religião.

Herculano Pires

Ver no site a obra publicada por Allan Kardec "O Que é o Espiritismo"

Fontes: Conferências dos 100 anos do Nascimento de Herculano Pires (Sergio Aleixo, com o tema "Fidelidade a Kardec no Espiritismo")

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Dilúvio de livros “espíritas” delirantes)

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Movimento espírita no “mundo do faz de conta”)

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Puritanos ou vendilhões? Eis a grave questão!)

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Estranhos movimentos espíritas)

"Porque o Espiritismo é uma doutrina cristã, baseada no Evangelho de Jesus, na crença em Deus e na sobrevivência da alma. Uma doutrina que prega, como ensinava Kardec, a moral de Jesus, a fraternidade pura entre os homens, o amor e a caridade incessante"

Herculano Pires "O Zelador da Doutrina Espírita"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Allan Kardec - O Evangelho Segundo O Espiritismo (Obra de Allan Kardec - "O Evangelho Segundo O Espiritismo" - Haverá falsos Cristos e falsos Profetas - Cap. XXI)

 

Herculano Pires - O Infinito e o Finito PDF

 

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