HERCULANO PIRES

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA ESPÍRITA

 

Sinopse da obra:

O Espiritismo codificado por Allan Kardec partiu da pesquisa científica da fenomenologia supranormal, originando-se desta a Ciência Espírita; desenvolveu a seguir a interpretação dos resultados da pesquisa, que resultou na Filosofia Espírita; tirou, depois, as conclusões morais da concepção filosófica, que levaram naturalmente à Religião Espírita.

É por isso que o Espiritismo se apresenta como doutrina de tríplice aspecto. A Ciência Espírita é o fundamento da Doutrina. Sobre ela se ergue a Filosofia Espírita. E desta resulta naturalmente a Religião – ou a moral – Espírita.

Muitas pessoas se atrapalham com isso e perguntam: “Como uma doutrina pode ser, ao mesmo tempo, Ciência, Filosofia e Religião?”

Mas essa pergunta revela a ignorância do processo gnosiológico – a teoria e o valor do conhecimento. Porque, na verdade, o conhecimento se desenvolveu nessa mesma seqüência e em todas as formas atuais de conhecimento repete-se o processo da história evolucionária das espécies.

Uma introdução ao estudo da Filosofia exige longa pesquisa de suas raízes nas coordenadas da evolução humana. Nesta obra, o autor propõe os primeiros passos para essa tarefa.

Capítulo da obra:

V

Ontologia Espírita

O problema do ser empolga toda a História da Filosofia e podemos considerá-lo como o elo que mantém a união do pensamento religioso com o filosófico. Deixando de lado a Filosofia mística do Oriente, que pertence ainda à fase do sincretismo gnosiológico, na qual Filosofia e Religião formam um todo confuso, podemos situar o início da cogitação ontológica de Pitágoras.

Dele passamos às escolas em contradição dos Eleatas e dos Jônios; atravessamos a era helenística, em que Plotino se destaca no neopitagorismo considerando o Ser como a “alma viajora do Infinito”; passamos pela Idade Média, em que a mística volta a impregnar o pensamento filosófico; pelo Renascimento, em que se repete com Descartes o episódio pitagórico; pelo Mundo Moderno, em que o problema do Ser vai ser posto em questão; e chegamos à época atual, ao Mundo Contemporâneo, em que o Ser se apresenta novamente dominando a Filosofia.

A Filosofia Espírita integra-se perfeitamente nessa tradição filosófica. E, cumprindo a sua função de síntese, esclarece, como vimos no caso de Fé e Razão, o sincretismo das fases místicas, mostrando o Ser como o centro natural de todo o processo do conhecimento.

A contradição eleata-jônica, que ainda hoje domina o mundo filosófico, encontra a sua solução dialética na Filosofia Espírita. Bem sabemos que esta afirmação é da mais alta gravidade, mas podemos assegurar que já seria um lugar comum se os filósofos que imperam no pensamento atual houvessem examinado sem prevenções a questão espírita.

Infelizmente, como escreveu Kardec há mais de cento e vinte anos ainda hoje podemos repetir que os homens eminentes no campo do saber assumem às vezes atitudes bastante pueris, deixando de lado questões importantes por motivos puramente circunstanciais.

O Ser, para Pitágoras, era representado pelo número 1. É a inefável unidade pitagórica, geralmente considerada como a substância numérica da realidade. Pitágoras, como acentuou Bertrand Russel, é o primeiro filósofo e também o primeiro homem em que Fé e Razão se definem como um par.

A Matemática é o processo racional de que ele se serve para esclarecer os problemas da Fé no campo da mística. De um lado, Pitágoras é um órfico (ligado à tradição de Orfeu na história religiosa dos gregos) e, de outro lado, é um jônico (ligado ao desenvolvimento das pesquisas físicas de Tales, na Jônia).

Assim, nele se fundem a concepção de Zenão de Eléia e Parmênides (escola eleata) do Ser como imóvel, uma esfera sem qualquer movimento (porque a esfera é a figura geométrica da perfeição e o não-movimento é a imagem ideal da perfeição), e a concepção de Tales de Mileto, do Ser como incessante movimento, a que Heráclito, de Efeso, dava a condição de constante devir, de renovação infinita.

Definindo o Ser como a Unidade, o Número Um, Pitágoras o considerava imóvel. Mas admitindo que essa imobilidade podia sofrer abalos, dava-lhe a possibilidade de agitar-se. E era assim que ele explicava a gênese do Universo: um estremecimento de Um produz o Dois e desencadeia a Década, o número 10 que representa o Universo.

O Ser teológico da Mística se transforma assim no Ser racional da Filosofia e se multiplica numa infinidade de seres. Os números são infinitos e o infinito matemático representa a natureza infinita do Universo. Na Filosofia mais recente voltamos a encontrar a posição pitagórica.

Para Sartre, o criador do Existencialismo Ateu, o Ser é uma espécie desses ovóides de que nos falam os livros de André Luiz (influência eleata) uma consciência fechada em si mesma, envolta numa espécie de membrana limbosa (segundo a própria expressão sartreana em L'etre et le Néant), mas que se projeta na Existência (influência pitagórica) saindo de sua imobilidade e seu isolamento para existir.

E nas demais correntes da Filosofia contemporânea o Ser continua na posição de problema fundamental. No marxismo e no neopositivismo é o ser humano o que importa. E o que é o ser humano, senão a projeção pitagórica do Ser único e a projeção sartreana do mistério limboso? Assim, o Ser é sempre, em qualquer sistema ou concepção, o mistério do Um e do Múltiplo.

Na Filosofia Espírita esse mistério se aclara através da revelação e da cogitação. A revelação, como vimos, pode ser humana ou divina. No caso é divina, pois reservamos para o campo humano a expressão clássica da técnica filosófica: a cogitação.

Os Espíritos revelaram a existência do Ser pela comunicação mediúnica (e a provaram pela fenomenologia mediúnica), mas os homens confirmaram essa existência pela cogitação, pela pesquisa mental do problema. Todos conhecemos a expressão de Descartes, Cogito, ergo sum (penso, logo existo). Kardec não repetiu Descartes, mas acrescentou um verbo novo ao pensar, ampliando o conceito da presença de Deus no homem.

Podemos interpretar assim a posição de Kardec: “Sinto Deus em mim, logo existo”. É o que vemos no capítulo 10 de O Livro dos Espíritos, onde a questão é assim colocada no item 6: “O sentimento intuitivo da existência de Deus que trazemos em nós seria efeito da educação e o produto de idéias adquiridas?” A resposta dos Espíritos é esta: “Se assim fosse, porque os vossos selvagens teriam também esse sentimento?”

A essas duas perguntas, a esse duelo que travou com os Espíritos, Kardec acrescenta no comentário ao mesmo item: “Se o sentimento da existência de um Ser supremo fosse apenas o produto de um ensino, não seria universal e só existiria, como as noções científicas, entre os que puderam receber o ensino.”

O conceito espírita de Deus, portanto, como todos os nossos conceitos, se origina no plano do sentimento, da afetividade humana. O homem, primeiramente, sente que Deus existe. É o caso do selvagem, que Feuerbach acusou de medroso (criando Deus pela imaginação aterrorizada diante da Natureza) e que Spencer dotou de uma capacidade de abstração mental inaceitável, tanto numa apreciação psicológica como antropológica e histórica.

Primeiro sentimos, depois pensamos. Há um livrinho de Emmanuel, Pensamento e Vida, recebido psicograficamente, por Chico Xavier, que explicará bem esse processo para aqueles que desejarem conhecê-lo do ponto de vista espírita.

Talvez agora se torne mais clara a nossa afirmação anterior que a Fé pertence à própria substância do Ser. Ao criar os seres (ou Espíritos), Deus lhes imprimiu sua marca, segundo Descartes, e essa marca é a idéia de Deus, inata no homem. Mas Kardec se refere a um sentimento intuitivo que precede à idéia e esse sentimento é que representa a verdadeira marca do obreiro em sua obra.

Assim, primeiro sentimos Deus e depois pensamos nele. O Ser está em nós por essa intuição, mas nós também somos seres. Cada criatura humana é um ser espiritual, mas é também um ser físico ou um ser corporal. Esse problema do Ser físico, hoje colocado pela chamada Ontologia do Objeto, é puramente verbal e, portanto, abstrato no plano da Filosofia atual. Mas na Filosofia Espírita é um problema concreto e suscetível de verificação experimental.

Encontramo-lo no item 605 de O Livro dos Espíritos, que assim o coloca: “Se o homem não possui uma alma animal, que por suas paixões o rebaixe ao nível dos animais, tem o seu corpo, que freqüentemente o rebaixa a esse nível, porque o corpo é um ser dotado de vitalidade, que possui instintos, mas não inteligentes, limitados aos interesses de sua conservação.”

Nas experiências de exteriorização da sensibilidade e da motricidade realizadas pelo Cel. Albert de Rochas, diretor do Instituto Politécnico de Paris, foi possível constatar-se a realidade desse ser vital, que os antigos conheciam mas tomavam por uma espécie de alma humana, como vemos a partir dos gregos.

Também em experiências de desdobramento mediúnico e em sessões de materialização e efeitos físicos vários observadores reconheceram materialmente a existência de uma espécie de corpo fluídico mais denso e pesado que o perispírito, que ao retirar-se do corpo material do médium embaraçava o perispírito e ao mesmo tempo deixava o corpo carnal em estado de morte aparente.

É o chamado corpo vital de certas doutrinas espiritualistas antigas, um ser que realmente corresponde à natureza animal do nosso corpo e é o responsável direto pelas nossas funções vegetativas. Assim, a Filosofia Espírita satisfaz as exigências atuais de ligação do pensamento filosófico com os dados da investigação científica, o que aliás constitui uma de suas características fundamentais.

O Ser, portanto, não é apenas o Espírito, é também o perispírito e o corpo vital. Isso a partir do desencadeamento da Década, ou seja, da multiplicação do Ser único ou supremo, que é Deus. Existe uma idéia geral de Ser, um conceito do Ser que foi bem definido em Aristóteles e na Bíblia. Para Aristóteles, o Ser é “aquilo que é”.

Na Bíblia é Deus quem fala, embora figuradamente, e se explica: “Eu sou o que é”. Esse conceito desce do plano divino para o humano em Descartes, quando verifica, no cogito que ele é porque pensa.

Mas o próprio Descartes volta ao conceito divino ao afirmar a existência de Deus no homem, ao encontrar essa existência no fundo do cogito, ou seja, da sua cogitação filosófica. Então, Deus é e se afirma na intuição cartesiana de um Ser Supremo, como se afirma no sentimento intuitivo kardeciano.

Parmênides, eleata, dizia que o pensamento do Ser é o próprio Ser. E o Ser, para ele, era uma esfera pensante (a esfericidade correspondendo à perfeição) mas como pensante, era ativo em si mesmo. Isso nos lembra a afirmação de Aristóteles de que Deus é o ato puro, ou seja, o Ser absoluto em que todas as potencialidades se encontram atualizadas, realizadas em ato.

Na Filosofia Espírita o conceito do Ser abrange todas as categorias daquilo que é, concordando, portanto, com o pensamento filosófico antigo e moderno. Mas ela tem as suas peculiaridades. A definição do Ser supremo, por exemplo, nos é dada no item 1 de O Livro dos Espíritos, da seguinte maneira:

“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.” Houve quem considerasse essa definição como antropomórfica, pois a inteligência é característica do homem. Essa crítica peca por ignorância: ignora que no Espiritismo o homem é criação de Deus e reflete no finito os seus atributos infinitos.

Antes de pertencer ao homem, a inteligência é de Deus. Mas vejamos as proposições que surgem dessa definição: Deus é apresentado como inteligência porque é a causa de efeitos inteligentes; esses efeitos constituem todo o Universo e todos os seres; a inteligência é o aspecto de Deus mais acessível à nossa compreensão e mais suscetível de verificação para nós no plano fenomênico ou existencial. No comentário ao item 5 Kardec explica:

“Para crer em Deus é suficiente lançar os olhos às obras da Criação. O universo existe; tem, portanto, uma causa. Duvidar da existência de Deus seria negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada pode fazer alguma coisa.”

Na resposta à pergunta 14 de O Livro dos Espíritos, quando Kardec insiste numa definição mais completa de Deus, vemos a seguinte afirmação dos Espíritos: “Deus existe, não o podeis duvidar e isso é o essencial.” Não precisamos examinar o resto da resposta, pois o exame desta simples sentença coloca-nos em várias pistas. São três proposições que surgem dessa afirmação:

1) A afirmação de Deus como realidade absoluta e fundamental;

2) A afirmação da existência de Deus, que coloca Deus no plano existencial, como realidade concreta e acessível aos nossos sentidos;

3) A afirmação da impossibilidade de se negar Deus, que não apenas é mas também existe, e de cujo ser e existir somos partícipes.

A primeira proposição é “Deus existe”, mas se desdobra logicamente em duas, afirmando primeiro a realidade de Deus como Ser e a seguir afirmando a existência de Deus. Deus como Ser é essência, como existência se projeta no plano fenomênico. Essa dedução provém do aspecto existencial do Espiritismo, formulado independentemente das chamadas Filosofias da Existência mas contemporâneo delas.

O existir de Deus é visível na Natureza, no Universo com suas leis: “Para crer em Deus é suficiente lançar os olhos às obras da Criação”. Isto levou alguns teólogos a acusarem o Espiritismo de panteísmo, mas o próprio O Livro dos Espíritos trata do assunto, repelindo por antecipação a acusação dos teólogos. A existência de Deus é reconhecida pelas religiões positivas como imanência.

Ora, a imanência de Deus na Natureza é a sua própria existência, é a sua forma de existir no plano fenomênico. Se o Espiritismo for panteísta todas as religiões superiores também o são, e isso de maneira irrevogável.

A terceira proposição é a de que não podemos duvidar da existência de Deus. Ela reforça as duas anteriores. Não podemos duvidar da existência de Deus porque ela implica a nossa própria existência e a do Universo em que existimos. Negar Deus seria negar a nós mesmos e negar a toda a realidade que nos cerca.

Mas a Filosofia Espírita nos mostra também que não podemos ir além na afirmação dessa realidade suprema. Temos os nossos limites: somos Espíritos encarnados em corpos animais, submetidos a uma experiência sensorial que restringe a nossa percepção e o nosso entendimento. Falta-nos um sentido, diz o item 10 de O Livro dos Espíritos, para podermos penetrar a natureza íntima de Deus.

A tentativa de “entrar num labirinto” para explicar o que nos é inexplicável só poderia levar-nos ao engano e estimular o nosso orgulho. Entretanto, como vimos pela afirmação do item 10, o Espiritismo não é agnóstico. A Filosofia Espírita é evolucionista e sustenta que o homem chegará a compreender Deus em maior amplitude e profundidade, na proporção em que desenvolver as suas potencialidades espirituais.

Mas quando descemos do Ser supremo para os seres múltiplos que povoam o universo o problema se torna mais fácil. Compreendemos sem dificuldade que Deus cria os seres com os elementos constitutivos do Universo.

A imagem simbólica do Gênese: “Deus criou o homem do limo da terra” adquire um sentido profundo e grave. A expressão bíblica se nimba de luz e poesia. Não é mais um absurdo nem uma infantilidade: é a expressão de um processo cósmico de criação. Deus não faz o homem de barro num sentido vulgar, mas é do barro da terra, através da ação progressiva das suas leis que Ele arranca no correr dos milênios os seres da matriz do não-ser.

Os Espíritos são os seres múltiplos e finitos que Deus cria com o barro simbólico do princípio inteligente, envolvidos na ganga do fluido universal e do princípio material. São como sementes mergulhadas na terra para germinar.

Mas a ontologia espírita, como todas as demais, implica ainda os problemas de essência, existência e forma. Os dois primeiros desses problemas obrigam-nos a uma referência histórica. O essencialismo filosófico sofreu um abalo em nossa época com o desenvolvimento do existencialismo.

As chamadas Filosofias da Existência encaram as coisas em sua realidade imediata, ao contrário do clássico procedimento dos essencialistas que buscam a substância das coisas. Na verdade, trata-se de um simples método de abordagem do problema filosófico. Mas na Filosofia Espírita encontramos a síntese dessas posições. Os seres têm essência e essa essência se desenvolve através da evolução: é o princípio inteligente.

Essa essência se reveste de formas diversas no processo evolutivo: a variedade infinita dos seres forma uma gigantesca escala que as Ciências distribuem em numerosas classificações de espécies, tanto na Mineralogia quanto na Botânica, na Zoologia e na Antropologia. Essência e forma constituem a existência. Tudo o que existe se constitui de uma essência que toma determinada forma e se reveste de matéria. A forma, como Aristóteles já descobrira, não pertence à matéria mas dela se apossa para amoldá-la.

Procede de um elemento intermediário: o fluido universal, que em suas modificações diversas se apresentava como magnetismo, eletricidade, princípio vital. Lemos no item 27 de O Livro dos Espíritos: “Ele se coloca entre o espírito e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria, suscetível, em suas inumeráveis combinações com esta e sob a ação do Espírito, de produzir infinita variedade de coisas, das quais não conheceis mais que ínfima parte.”

Essa expressão: “é fluido, como a matéria é matéria” mostra que a denominação de fluido tem um sentido hipostásico. Espírito, fluido e matéria são as hipóstases (ou as faixas) do real. A realidade ontológica reflete a realidade cósmica.

No ser humano essa realidade se apresenta no complexo espírito, perispírito e matéria. Entre os dois últimos existe ainda o fluido vital, como já vimos. Toda essa complexidade, entretanto, é simplesmente a expressão pluralista de um monismo fundamental. A essência é que tudo domina. Ela é a realidade última.

Mas só através da existência conseguimos atingi-la. Temos de penetrar as capas existenciais do Ser para encontrá-lo na sua realidade essencial. É por isso que o Espiritismo tem o seu aspecto existencialista: vivemos na existência, evoluímos através das existências sucessivas, vemos todas as coisas na perspectiva existencial, mas buscamos em tudo a sua essência, pois sabemos que somente nela iremos encontrar o real.

A ontologia espírita oferece-nos uma visão dialética das coisas e dos seres. Aprendemos que a realidade aparente é ilusória (como a própria Física hoje nos mostra) mas que é também necessária para chegarmos à realidade verdadeira.

O ser humano está no ápice da escala evolutiva existencial. Acima dele se abrem as perspectivas de outra existência, a dos Espíritos que superaram o domínio da matéria e que as religiões chamam anjos, devas, arcanjos e assim por diante.

Esses Espíritos conservam sua individualidade após a morte do corpo e a conservam através da evolução nos mundos superiores. Só a parte formal é perecível: o corpo e o perispírito. A essência do Espírito é indestrutível, pois representa a atualização das potencialidades do princípio inteligente, uma construção ou criação de Deus para fins que ainda ignoramos.

Como a essência é a mesma em todos os Espíritos, encarnados e desencarnados ou encarnados em mundos inferiores ou superiores, a comunicabilidade dos Espíritos é uma lei universal, regida por princípios naturais, como os de afinidade, justiça e amor. Essa lei de comunicabilidade mostra na prática o absurdo da teoria existencial e a incomunicabilidade proposta por Kierkegaard.

As dificuldades da comunicação humana decorrem do estágio evolutivo da Terra, mas já estão sendo superadas por todas as formas de desenvolvimento material e psíquico, particularmente pelo desabrochar progressivo da percepção extra-sensorial, no processo de aprimoramento mediúnico do homem terreno.

Um problema difícil é o da transição do princípio inteligente para o reino hominal, após a evolução nos reinos inferiores. Em O Livro dos Espíritos Kardec se esquivou a esse problema, embora os Espíritos o tenham colocado em algumas passagens. É em A Gênese, o volume final da Codificação, que ele resolve enfrentá-lo através de comunicações com Galileu, dadas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas pelo médium Camille Flammarion.

Ali se define, no n° 19 do capítulo VI do referido livro, como uma “iluminação divina”, esse momento decisivo. O Espírito então recebe, “com o livre-arbítrio e a consciência, a noção dos seus altos destinos”. E a comunicação acentua: “Unicamente a datar do dia em que o Senhor lhe imprime na fronte o seu augusto selo o Espírito toma lugar no seio da Humanidade.”

Há uma espécie de seres que não figura na ontologia espírita: a dos seres condenados para sempre ou voltados eternamente ao mal. A Filosofia Espírita não admite essa concepção aberrante da justiça e do amor de Deus.

Há diversidades no processo de evolução dos Espíritos, em virtude do livre-arbítrio, indispensável ao desenvolvimento da responsabilidade espiritual. Mas não há nem pode haver seres maus por natureza, pois isso estaria em contradição com o princípio da criação de todos os seres por Deus. Durante um século o Espiritismo foi acusado de demoníaco por negar a existência de espíritos eternamente maus.

Agora, a própria teologia católica se modifica em suas bases para, graças a alguns pensadores corajosos, aproximar-se da concepção espírita. É conhecido o livro revolucionário de Giovanni Papini sobre o Diabo e suas conclusões favoráveis à posição espírita. Menos conhecida é a posição do padre Teilhard de Chardin, que não avançou tanto como Papini, mas acabou afirmando que o condenado não fica excluído da ordem divina.

Aliás, em linhas gerais, Chardin é uma espécie de aproximação conceptual do Espiritismo, um referendum católico à Doutrina Espírita.

A escala espírita que figura em O Livro dos Espíritos, a partir do n° 100, oferece-nos um esquema ontológico da evolução do homem. Não se trata, como lembra Kardec, de um esquema rígido, mas de uma simples classificação em linhas gerais, para orientação dos estudiosos. Encontramos ali as diversas ordens e graus dos Espíritos, encarnados e desencarnados, com que nos defrontamos neste mundo.

É uma classificação espiritual que tem a sua aplicação psicológica no tocante aos encarnados, oferecendo-nos uma curiosa tipologia que muito nos auxiliará nas relações sociais. A Psicologia Espírita, hoje em desenvolvimento, mostrará a validade e o interesse da escala espírita na orientação dos estudos de tipologia e caracteriologia.

Como se vê, andam enganados os que pensam que o Espiritismo é uma espécie de fuga à realidade. Além de mostrar-nos as dimensões ocultas do real, ele nos oferece possibilidades de maior compreensão e controle da realidade aparente ou existencial que enfrentamos na vida terrena.

Herculano Pires

Fontes: Conferências dos 100 anos do Nascimento de Herculano Pires (Astrid Sayegh, com o tema "Introdução à filosofia espírita")

Fontes: Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (O Espiritismo jamais será superado)

"A fé esclarecida pela razão, pela compreensão, dar-lhes-á a força necessária para cumprirem os seus deveres, nesta hora de confusões sombrias por que vai passando o nosso planeta, às vésperas de uma nova aurora espiritual, prestes a brilhar sobre todo o mundo."

Herculano Pires "O Zelador da Doutrina Espírita"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Allan Kardec - O Livro dos Espíritos (Obra de Allan Kardec - "O Livro dos Espíritos" - Quarta Parte - Conclusão)

 

Herculano Pires - Introdução à Filosofia Espírita PDF