HERCULANO PIRES

AGONIA DAS RELIGIÕES

 

Sinopse da obra:

As religiões são seres sociais que nascem, crescem e morrem. São corporificações dos anseios de transcendência inatos no homem. Por que motivo podemos afirmar que as religiões do nosso tempo estão agonizando? O que virá depois delas? Este livro responde a essas indagações através de penetrante estudo do desenvolvimento e decadência das religiões contemporâneas.

Nesta obra Herculano demonstra que a decadência das religiões iniciou-se no fim da Idade Média. Com o Renascimento, houve a explosão cultural e científica iniciada na Europa, e as religiões simplesmente se negaram a acompanhar essa evolução, mantendo-se na insistência de impor a fé cega ao ser humano.

As instituições religiosas não conseguem mais acompanhar a nova necessidade do ser contemporâneo, que deseja saber o porquê de todas as coisas, principalmente da sua própria existência e do seu objetivo final, que é a evolução infinita, em todos os ângulos – científico, filosófico e moral.

Capítulo da obra:

Capítulo 1 - Agonia das Religiões

As Religiões estão morrendo. Este é um dos fatos marcantes do nosso tempo, mais precisamente do Século XX. O poder das Religiões não é mais religioso, mas simplesmente econômico, político e social. As igrejas se esvaziam, os seminários se fecham, a vocação sacerdotal desaparece, o clero de todas elas recorre no mundo inteiro aos mais variados expedientes para manter seus rebanhos, fazendo-lhes concessões perigosas.

Mas todos os expedientes mostram-se incapazes de restabelecer o prestígio e o poder religiosos, servindo apenas de remendos de pano novo em roupa velha, segundo a expressão evangélica. Começam então a aparecer os sucedâneos, milhares de seitas forjadas por videntes e profetas da última hora, na maioria leigos que se apresentam como missionários, taumaturgos populares, místicos improvisados e de olhos mais voltados para os bens terrenos do que para os tesouros do Reino dos Céus.

Esses bastardos do espírito, que pululam por toda parte, caracterizam o fenômeno sócio-cultural da morte das Religiões. O fato é bem conhecido dos que estudam a Sociologia da Cultura. Quando um sistema institucional esvazia-se no tempo, tragado na voragem das mudanças culturais, os aproveitadores invadem os domínios abandonados e socorrem a seu modo os órfãos em desespero.

As grandes revoluções políticas e sociais mostram-nos como as tiranetes do populacho assumem as funções dos nobres decaídos, substituindo a autoridade tradicional pelo mandonismo dos clãs ressuscitados. Podemos aplicar ao caso uma paródia da explicação metafísica do horror ao vácuo, dizendo que as sociedades têm horror ao caos e preenchem a falta de autoridade legítima (ou pelo menos legitimada) pelo autoritarismo dos sátrapas.

Esse evidente sintoma de agonia das instituições tradicionais está presente em toda a área religiosa do nosso tempo. É o carisma das fases de mudança. Não há dúvida, portanto, de que as Religiões agonizam.

E o responsável por esse fato alarmante, como sempre, é a própria vítima, que, pela imprevisão, pelo abuso do poder, pelo apego às comodidades institucionais, deixou-se levar na ilusão de sua indestrutibilidade. As próprias Religiões cavaram a sua ruína no desenrolar do processo histórico. Acomodadas em sua superioridade, confiantes no privilégio de sua origem e natureza sobrenaturais, recusaram-se a integrar-se na cultura natural, marginalizando-se a si mesmas.

A evolução cultural alargou progressivamente o fosso entre a Cultura e a Religião, tornando irreversível a situação das instituições religiosas. Assim, dialeticamente, o conceito arbitrário do sobrenatural, que era o fundamento de sua segurança, tornou-se o motivo de sua decadência.

No Ocidente, os primeiros sinais da crise religiosa contemporânea surgiram em plena Idade Média, com o episódio trágico-romântico de Aberlardo, prenunciando a Idade da Razão. Essa nova fase, que se iniciou com o Renascimento, traria a revolução cartesiana, Rousseau, Chaumette e o Culto da Razão na Revolução, e posteriormente Augusto Comte e a Religião da Humanidade. No ano da morte de Augusto Comte, em 1857, Denizard Rivail iniciaria na França o movimento da Fé Racional.

Assim, a França, que centralizava o processo cultural no Mundo Moderno, apresenta uma seqüência de tentativas para a integração da Religião no sistema cultural em desenvolvimento, sempre rejeitadas pela soberania eclesiástica apoiada no conceito do sobrenatural. Paralelamente aos movimentos renascentistas da França, desencadeou-se na Alemanha, no Século XVI, o movimento da Reforma, iniciado por Lutero.

No Oriente a reação às religiões tradicionais foi mais lenta e tardia, menos precisa e definida, com menores conseqüências, que só se acentuaram no Século XIX. Nem por isso deixou de produzir efeitos que se intensificaram no decorrer desse século até o presente sob influências ocidentais.

Na Rússia, sob a inspiração francesa de Rousseau, Tolstoi promoveu a revolução religiosa do Século XIX, na linha luterana de volta ao Cristianismo Primitivo, fazendo uma nova tradução dos Evangelhos em sentido místico-racional. Todos esses movimentos revelam a insatisfação cultural no tocante à soberania das Religiões, fundada no conceito do sobrenatural, que as mantinham desligadas do processo cultural.

Ainda no Século XIX a obra de Renan, na França, assinalava a tendência do espírito francês, no plano da História do Cristianismo, no sentido de estabelecer a verdade sobre os primórdios da Religião dominante e retirá-la do campo suspeito do sobrenatural.

Temos, nesse esboço de um vasto panorama histórico, a visão objetiva dos processos que vinham preparando, desde os fins do milênio medieval, a derrocada das Religiões.

Em nosso século, o desenvolvimento acelerado das Ciências, a laicização do Estado e da Educação, a desagregação da família, a expansão cultural e a rápida modificação dos costumes e do sistema de vida pelo impacto da Tecnologia – abrangendo praticamente todo o mundo – fortaleceram a concepção pragmática e materialista, dando o golpe de misericórdia no sobrenatural e nos sistemas religiosos que nele se apóiam.

A etiologia da decadência das Religiões torna-se palpável. Seria simples tolice querer negá-la.

Não obstante, o sentimento religioso do homem não foi aniquilado. Pelo contrário, ele subsiste e vem sendo considerado, particularmente nos países da área dominada pelo Marxismo, como um resíduo do passado que terá de desaparecer totalmente com o avanço irresistível da cultura. A própria URSS, que se desmandou em campanhas violentas contra a Religião, viu-se obrigada a fazer concessões significativas ao chamado ópio do povo.

Nos Estados Unidos o Pragmatismo de William James e o Instrumentalismo de John Dewey temperaram a situação permitindo uma espécie de trégua na qual, segundo Rhine, as concepções antípodas do homem – a religiosa e a científica – podem encontrar-se ao pé do leito de um moribundo sem estardalhaço.

Mas as atrocidades da II Guerra Mundial geraram na Alemanha um movimento de reforma radical das Teologias tradicionais, que se projetou nos Estados Unidos e vem penetrando sutilmente em toda a América, através de traduções de livros dos novos teólogos, que anunciam a morte de Deus e pregam a novidade do Cristianismo Ateu.

Os teólogos mais uma vez se enganam. A teoria da Morte de Deus, que eles procuram inutilmente explicar como um acontecimento atual, do nosso tempo, nunca se verificou nem pode verificar-se. Deus não é um ser nem é mortal, porque é o Ser Absoluto, o Bem, segundo Platão, a Idéia Suprema de que derivam todas as idéias e, portanto, todas as coisas e todos os seres.

Os teólogos da chamada Teologia Radical da Morte de Deus, e seus companheiros de outros ramos teológicos subseqüentes, sofrem de um processo de alucinação por transferência. Quem está morrendo não é Deus, são eles mesmos e suas Teologias, eles e as Religiões formalistas e dogmáticas.

A concepção nova de Deus, que nasce dos escombros da concepção antropomórfica do passado, é a de uma Inteligência Cósmica que preside a toda a realidade possível. Os cosmonautas soviéticos, depois de umas voltas ao redor do grão de areia da Terra, declaram eufóricos que Deus não existe, pois não tiveram o prazer de encontrá-lo nos microscópicos subúrbios do nosso planeta.

Fizeram como o estudante de Eça de Queiroz, em A Cidade, que, para provar a inexistência de Deus, tirou o seu relógio-patacão do bolso do colete, diante de colegas, e deu o prazo de alguns minutos para que Deus o fulminasse.

Como não foi fulminado, declarou que estava provada a inexistência de Deus e guardou o patacão no bolso. Essas piadas servem apenas para mostrar-nos o estado de ignorância em que ainda nos encontramos; e para provar, isso sim, que estamos mortos em nossa estupidez diante da grandeza do Cosmos. Dizer que Deus morreu é como dizer que a vida se extinguiu. O fato de estarmos vivos e fazermos essa afirmação já prova o contrário.

Os teólogos radicais são tão radicais que não admitem a única explicação possível para a sua teoria da Morte de Deus. Essa explicação seria a de que o Deus convencional das religiões morreu, com a idéia hoje inaceitável.

Mas eles se opõem a isso e dão explicações que ninguém pode entender, pois só entendemos o que é racional. O problema é mais sério do que pensam os teólogos, que fazem piada dizendo colocar o Cristo provisoriamente no lugar de Deus, do que resulta o Cristianismo Ateu, última novidade das Religiões no Século XX.

Apesar de tudo isso, verifica-se que o que eles pretendem é colocar o problema da existência de Deus em termos mais acessíveis à razão. Essa pretensão coincide com os objetivos do pensamento francês, na seqüência histórica mencionada acima.

É pena que esses teólogos atuais não tenham a facilidade de expressão e a lucidez que caracterizam o pensamento francês. Se entre eles houvesse um teólogo gaulês, certamente lhes explicaria que o conceito celta de Deus devia satisfazê-los.

Os celtas, que eram um povo monoteísta como os hebreus e viveram na Antiguidade, poderiam corrigir os teólogos atuais e dar lições de lógica às Religiões em agonia. Foram considerados bárbaros e sofreram na pele a barbárie dos civilizados romanos, mas Aristóteles afirmou que eles eram o único povo filósofo do mundo.

De todo o exposto parece evidente que a agonia atual das religiões nada tem a ver com a Religião. Sim, porque a Religião é uma das características fundamentais da natureza humana. Parodiando a teoria aristotélica do animal político, podemos dizer que o homem é um animal religioso.

A falsa teoria do espanto do mundo como origem da Religião, que até mesmo Van Der Leuw ainda sustenta, não pode manter-se em pé diante da prova antropológica de que nunca existiu no mundo um povo ateu, desde os homens da caverna até os nossos dias. A idéia de Deus é inata no homem, como Descartes afirmou, depois de encontrá-la no fundo misterioso do cógito. É uma idéia evidente por si mesma e indispensável à compreensão de nós mesmos e do mundo.

Certas pessoas opiniáticas, muito ciosas de si mesmas, costumam dizer que Deus não existe porque ninguém pôde provar a sua existência. A própria Ciência ensina que a causa se prova pelo efeito. Basta-nos olhar uma flor ou um grão de areia para sabermos que Deus precisa existir, que existe necessariamente.

O que não podemos aceitar é o Deus das religiões, porque esse Deus – ilógico e absurdo, como dizia Aristides Lobo – pertence a um passado remoto em que a humanidade necessitava dele. A essência da Religião constitui-se de apenas um núcleo e uma partícula, como o átomo de hidrogênio. O núcleo é a idéia de Deus e a partícula o sentimento religioso. A Religião verdadeira, que jamais agonizou e nunca morre, tem nesse átomo simples e puro a sua raiz simbólica.

Mas, para que a Religião possa desempenhar livremente o seu papel fundamental na evolução humana, é necessário que a reintegremos na Cultura Geral, como uma de suas áreas mais importantes. Para livrar o Conhecimento da dispersão produzida pelas especializações científicas, foi necessário criar-se a Filosofia da Ciência. Para livrar a Religião da pulverização sectária é indispensável libertá-la do formalismo dogmático, do profissionalismo religioso, do fanatismo igrejeiro.

A agonia das religiões é determinada pela asfixia das estruturas antiquadas, do irracionalismo baseado no conceito do sobrenatural e da Revelação Divina. Os dois tipos de religião analisados por Bergson, o social e o individual, devem fundir-se na síntese da Religião do Homem, que ressalta historicamente das aspirações francesas e mereceu do poeta bengali Rabindranath Tagore um estudo lúcido e lírico.

O Conhecimento é um todo, é global. Teoria e prática são verso e reverso de um mesmo processo. O homo sapiens e o homo faber são uma e a mesma coisa: o homem. As especializações são simples formas de divisão do trabalho, de acordo com as diferenciações de tendências individuais. Ciência e Técnica, Filosofia e Moral, Metafísica e Religião são apenas divisões metodológicas do campo do Saber, formas disciplinares do pensamento e da ação.

A Era da Comunicação de Massa, que segundo Mcluhan fez da Terra uma aldeia global, estourou o mundo chinês do passado, de muralhas e mandarinatos. A dicotomia kantiana, que negou a impossibilidade do conhecimento extra-sensorial, foi superada pelas conquistas físicas e psicológicas de hoje.

O sobrenatural mudou de nome, é apenas o natural desconhecido que a investigação científica vai rapidamente integrando no Conhecimento Global da realidade una. Temos de adaptar-nos às condições novas e às novas dimensões do homem e do mundo. As próprias igrejas estão abrindo as portas dos conventos e dos mosteiros para não morrerem asfixiadas.

As Ciências rompem com o passado, a Filosofia se livra dos sistemas para enfrentar com desenvoltura a problemática do pensamento, os tabus são esmigalhados pelo homem novo, os mestres e gurus se fazem discípulos da única fonte real de sabedoria que é a Natureza. O sacerdócio é uma espécie em extinção. Os teólogos foram confundidos por Deus, que não quis entregar-se em suas mãos inábeis.

Se quisermos salvar a Religião, nesse maremoto das transformações que afligem os passadistas, façamos urgentemente a liquidação das religiões em agonia e mandemos os seus artigos de fé, seus ícones e suas medalhas para o Museu do Homem, como simples testemunhos de um tempo morto.

Tudo isso é aflitivo para os espíritos rotineiros e acomodatícios, como a mensagem cristã era escândalo para os judeus e espanto para gregos e romanos. Mas os espíritos flexíveis, corajosos, lúcidos, empenhados na busca da Verdade – essa relação direta do pensamento com o real – não se atemorizam, antes se rejubilam com a libertação do homem.

Esta é a verdade flagrante do momento que vivemos: o homem se liberta de seus temores, da ilusão de sua fragilidade existencial, do confi-namento planetário, do embuste e da hipocrisia, para viver a vida como ela é, na plenitude das suas potencialidades corporais e espirituais.

O homem se emancipa e toma consciência da sua natureza cósmica. Diante dele está o futuro sem limite, a imortalidade dinâmica e demonstrável que se opõe ao conceito limitado da imortalidade estática e hipotética. Sua herança não é o pecado nem a morte, mas a vida em nova dimensão.

Herculano Pires

Série Emmanuel - Estudos e dissertações em torno da obra (O Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec)

Fontes: Conferências dos 100 anos do Nascimento de Herculano Pires (Walter Paulo Sabella, com o tema "Agonia das religiões")

Fontes: Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (O Espiritismo, sublime religião)

"Em meados do Século XIX ocorreu uma abertura cósmica para o homem em todos os sentidos. Três séculos após a Revolução Copérnica, que começara a demolir o geocentrismo de Ptolomeu, Kardec rompia o organocentrismo da concepção científica do homem, que tinha em seu apoio a tradição religiosa judeu-cristã. Nicolau Copérnico escrevera em latim o seu tratado De Revolucionibus Orbium Celestium (Das Revoluções das Orbes Celestes) que só foi publicado em 1543, após a sua morte, e condenado pelo Papa Paulo V. Kardec publicou “O Livro dos Espíritos”, em 1857, que também não escapou à dupla condenação da Igreja e da Ciência".

Herculano Pires "O Zelador da Doutrina Espírita"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Allan Kardec - O Livro dos Espíritos (Obra de Allan Kardec - "O Livro dos Espíritos" - Introdução)

 

Herculano Pires - Agonia das Religiões PDF