HERCULANO PIRES

PEDAGOGIA ESPÍRITA

 

Sinopse da obra:

Seguindo os passos de Kardec, que chama a atenção para a necessidade de educarmos na compreensão das potencialidades do indivíduo e no respeito ao seu modo de ser, Herculano demonstra que a educação da criança e do jovem deve levar em consideração o respeito às necessidades, aptidões e desejos do educando. A possibilidade de ser feliz depende do respeito à personalidade de cada indivíduo, educado à luz dos ensinamentos do Mestre Jesus.

Mostra o autor a necessidade e possibilidade do auxílio aos educandos na utilização dos vínculos de amor tecidos através dos séculos, utilizando a estimulação da Doutrina Espírita.

A educação tradicional, fruto de uma sociedade “baseada no lucro”, não consegue promover a transcendência, o domínio das paixões, a superação da animalidade, a incapacidade de ser feliz e auxiliar o outro a conseguir a felicidade.

A Educação Espírita visa o desenvolvimento pleno do indivíduo, considerando-o um ser imortal e cósmico. Ressuscitando os ensinamentos de irmãos mais maduros espiritualmente, e os exemplos de Jesus, possibilita compreender o educando como “centelha divina, inteligência do Universo”, como lembra O Livro dos Espíritos, “deuses e luzes”, segundo Jesus.

Trechos da obra:

A didática naturalista

Jesus criou a Didática Naturalista, que se funda nas leis naturais e delas se serve para o ensino espontâneo. Todas as suas lições eram dadas em termos comparativos, sem artifícios, com simplicidade e naturalidade. Sua própria teologia não escapava a essa regra. Deus não era uma entidade mitológica, distanciada do homem, mas o pai dos homens, semelhante a todos os pais, vivendo no coração dos filhos e dialogando com eles no íntimo de cada um.

"Não está escrito, dizia ele, vós sois deuses?" Quando fazia um milagre, ou seja, quando produzia, pelo poder natural do seu espírito, um fenômeno hoje chamado paranormal, explicava aos discípulos que eles podiam fazer o mesmo e até mais do que ele fizera.

O sobrenatural do Cristianismo não provém de Jesus, mas dos homens, da mentalidade mitológica dos que não o puderam compreender e o transformaram em mito. Vejamos esta “heresia” de Paulo em: I Coríntios, 15:16 – “... se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.” A morte e a ressurreição de Jesus eram fatos naturais, que ocorrem com todos os homens.

O próprio Jesus diria à Madalena, depois da ressurreição: “Ainda não fui para meu pai e vosso pai”. A categoria do natural era o fundamento de todo o ensino de Jesus e portanto de toda a sua didática.

Essa categoria filosófica do Cristianismo desapareceu na Idade Média, no milênio sombrio em que a verdade cristã se misturou e confundiu com os erros e os enganos do paganismo e do judaísmo.

Mas no Renascimento a categoria cristã do natural ressurge das cinzas. E pedagogicamente é com Rousseau que ela vai-se impor novamente ao mundo. O naturalismo deísta de Rousseau é um rebento da seiva cristã. E esse rebento vai se desenvolver no pensamento de grandes pedagogos do futuro. O maior deles será Pestalozzi, o herói e mártir da Pedagogia Filantrópica, que significativamente será o mestre e o pai espiritual de Allan Kardec.

A Pedagogia Filantrópica é o ensino a serviço da caridade e sua didática é a do amor. A Pedagogia de Jesus e sua didática renascem com Pestalozzi, que as transmite a Kardec. “Uma tocha passa de mão a mão”, como diria Moreil, em nossos dias. Mas a caridade não é uma graça sobrenatural, é antes a virtude humana da fraternidade, sob a paternidade natural de Deus.

Vemos todos os elementos da categoria cristã do natural restabelecidos nesse episódio histórico e pedagógico para assinalar os tempos novos como a era do Consolador. Por isso a didática de Kardec seguirá a mesma linha naturalista da didática de Jesus, empregando a linguagem da simplicidade e os métodos naturais da razão e da intuição.

Vejamos como Kardec descreveu o método do professor discípulo de Pestalozzi: “Toma a criança ao sair das mãos da Natureza para acompanhá-la em seu desenvolvimento. Considera como se desenvolvem as suas idéias, estuda as suas necessidades e as suas faculdades. Depois de numerosas observações, estabelece um método que consiste essencialmente em aproveitar as faculdades que a criança recebeu da Natureza, a fim de proporcionar-lhe um raciocínio sadio e acostumá-la a pôr em ordem as suas idéias.

O professor procura desenvolver na criança o espírito de observação e a memória, porque a criança nasce observadora e o seu espírito de curiosidade e de análise precisa apenas de uma ajuda mínima. Basta ao professor ser ao mesmo tempo amável e severo”.

Kardec resume os seis princípios fundamentais do sistema pestalozziano, que empregava em suas obras didáticas e empregará a seguir no ensino espírita:

1) cultivar o espírito natural de observação do educando, chamando-lhe a atenção para os objetos que o rodeiam;

2) cultivar-lhe a inteligência, seguindo a marcha que possibilite ao aluno descobrir as regras por si próprio;

3) partir sempre do conhecimento para o desconhecido, do simples para o composto;

4) evitar toda atitude mecânica, fazendo o aluno compreender o alvo e a razão de tudo o que faz;

5) fazê-lo apalpar com os dedos e com a vista todas as realidades;

6) confiar à memória somente aquilo que já foi captado pela inteligência.

Todos esses dados se encontram na introdução de seu Curso Prático de Aritmética. Moreil comenta: “Os Princípios 3 e 5 parecem ter sido aproveitados palavra por palavra para a elaboração de O Livro dos Médiuns, o que prova a importância extraordinária da fase de Yverdun na vida do futuro fundador do Espiritismo”. E cita esta observação de Henri Sausse, amigo, companheiro e primeiro biógrafo de Kardec: “Foi nessa escola que se desenvolveu as idéias que deviam torná-lo um observador atento e meticuloso, um pensador prudente e profundo”.

Observação e ensino

Podemos ver em todas as obras de Kardec a constante sucessão de dois elementos dinâmicos da sua didática: a observação e o ensino. Por isso ele definiu o Espiritismo como “ciência de observação e doutrina filosófica”. A observação implicava a experimentação, pois sem esta não se completaria.

Uma vez observados os fatos de maneira rigorosa e submetidos à comprovação da experiência, esses fatos passavam do conhecido (a realidade palpável e verificável) para o campo do desconhecido (a explicação do mistério) com a revelação de suas leis e sua natureza, passando a constituir elementos de uma filosofia “desprovida do espírito de sistema”.

Esta necessidade de liberdade para o pensamento, que não devia prender-se às exigências de uma lógica artificial, à moda das formulações filosóficas em voga, colocaria a Filosofia Espírita na vanguarda no movimento filosófico da época.

Os “prejuízos do espírito de sistema”, segundo vemos em O Livro dos Espíritos, lhe foram revelados pelos próprios espíritos em significativa mensagem. Mas essa revelação correspondia precisamente à posição de observador que Kardec assumira.

Sem nenhuma intenção preconcebida, sem forçar as conclusões para não distorcer a verdade procurada, Kardec submetia as suas observações a rigorosa análise. Guardava-se ao mesmo tempo do preconceito e da precipitação, como ensinara Descartes, seu precursor na observação livre, na pesquisa desinteressada e nas relações mediúnicas com o Espírito da Verdade.

Vejamos nas suas próprias palavras como ele procedia no trato dos fenômenos paranormais. Os trechos seguintes pertencem à Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita que abre O Livro dos Espíritos, e referem-se à sua observação dos curiosos fenômenos de movimentos de objetos sem contato:

“O movimento circular nada tinha de extraordinário, pois pertence à Natureza. Todos os astros se movem circularmente. Poderíamos estar em face de um pequeno reflexo do movimento geral do Universo, ou melhor dito, uma causa até então desconhecida poderia produzir acidentalmente, nos pequenos objetos e em dadas circunstâncias, uma corrente análoga à que impulsiona os mundos.”

“Mas o movimento não era sempre circular. Freqüentemente, era brusco, desordenado, sendo o objeto violentamente sacudido, derrubado, levado numa direção qualquer e, contrariamente a todas as leis da estática, suspenso ou mantido no espaço. Não obstante, nada havia ainda nesses fatos que não pudesse ser explicado pelo poder de um agente físico invisível. Não vemos a eletricidade derrubar edifícios, arrancar árvores e mandar à distância os corpos mais pesados, atraí-los ou repeli-los?”

Essa ponderação, essa frieza racional, essa lucidez mental livravam o seu espírito de qualquer arrebatamento místico. O próprio Richet reconheceria, no seu Tratado de Metapsíquica, na crítica feita a Kardec, a vocação do mestre para a observação rigorosa e a experimentação científica.

A sua aceitação da hipótese de participação de espíritos nos fenômenos chega lentamente, numa batalha consciente da razão com a intuição. E a sua convicção espírita se forma na comprovação metódica da presença de inteligências invisíveis agindo sobre a matéria.

Assim, Kardec realiza, com antecipação de mais de um século, e praticamente sozinho, a façanha científica das equipes de pesquisadores da Parapsicologia, que hoje ainda se aturdem com a realidade espiritual que lhes queima as mãos em todo o mundo, inclusive na área soviética materialista.

E só depois de convicto, solidamente firmado em milhares de provas indestrutíveis, resolve servir-se da sua didática naturalista para ensinar ao mundo assombrado e indignado os princípios da nova ciência. Mas então nada mais o deterá.

Nem os anátemas do clero, nem as críticas dos cientistas, nem as diatribes da imprensa, nem o riso da ignorância ilustrada. O professor ensina e o mundo aprende. Uma nova ciência surgiu, uma nova era está nascendo, a Educação Integral de Jesus ressuscitou e a sua didática naturalista afugenta as últimas sombras do mistério e do sobrenatural.

A Educação Cristã se restabelece na Escola da Terra, livre dos prejuízos do espírito de sistema, no corpo espiritual (que os cientistas chamam hoje de corpo bioplástico) da Educação Espírita.

O Livro dos Espíritos e a Educação

A primeira característica de O Livro dos Espíritos, nem sempre percebida, é a sua forma didática. Não fosse Kardec um pedagogo, habituado à disciplina pestalozziana, e os Espíritos do Senhor não teriam conseguido na Terra um tão puro reflexo dos seus pensamentos.

Mas a didática de Kardec nessa obra não se limita à técnica de ensinar. E uma didática transcendente insuflada pelo espírito, que mais se aproxima da Didática Magna de Comenius do que dos manuais técnicos dos nossos dias.

A Educação Espírita brota desse livro como água da fonte: espontânea e necessária. Logo na Introdução temos um exemplo disso. Não se trata apenas de introdução à obra, mas à Doutrina Espírita.

Ao invés de uma justificativa e uma explicação do livro, temos uma abertura para a compreensão de todo o seu conteúdo e até mesmo da posição do Espiritismo no vasto panorama da cultura terrena, abrangendo as áreas até então conflitivas do Conhecimento e estabelecendo entre elas as ligações indispensáveis. Sim, indispensáveis porque o conflito entre as áreas culturais era o maior obstáculo à compreensão global do homem que o Espiritismo trazia.

Ainda agora, em nossos dias, o Prof. Rhine assinalou a existência de várias concepções antropológicas conflitivas: a religiosa ou teológica, a científica ou materialista, a filosófica materialista ou espiritualista e assim por diante. (Ver O Novo Mundo da Mente, de Rhine.) O que a Parapsicologia se propõe a fazer, mais de cem anos depois, Kardec já realizara com O Livro dos Espíritos.

Se os cientistas não perceberam isso, os espíritas por todo o mundo se beneficiaram com a nova concepção gestáltica e se incumbiram de propagá-la.

Bastaria isso para mostrar e provar que a didática de Kardec nessa obra transcendeu os limites puramente didáticos para atingir dimensões pedagógicas. Não poderíamos dizer que O Livro dos Espíritos é um tratado de Pedagogia, pois o seu objetivo específico não é a Pedagogia. Mas é evidente que se trata de um verdadeiro manual de Educação, no mais amplo e elevado sentido do termo. Seu objetivo explicito é ensinar e educar.

O ensino ressalta desde as primeiras linhas e se desenvolve até as últimas, sem solução de continuidade. Mas esse ensino não se limita à transmissão de dados técnicos de informações culturais objetivas. Pelo contrário, projeta-se além desses dados e leva o estudante ao campo pedagógico da formação moral e espiritual.

Ao terminar a sua leitura o estudante atento e perspicaz adquiriu novos conhecimentos, mas conquistou principalmente uma nova concepção do homem, da vida e do Universo. E mais do que isso, realizou o desígnio da sua própria existência, que é a sintonia do seu ser com o Ser Supremo: Deus.

O Sr. Sanson, materialista, lendo esse livro volta ao espiritualismo e se reencontra com Deus. Os caminhos da fé lhe eram vedados pela barreira do ilogismo religioso, mas O Livro dos Espíritos lhe demonstrou que entre os caminhos para Deus o da razão era o mais seguro. Este exemplo concreto e histórico, referido pelo próprio Kardec, mostra-nos a ligação das áreas culturais. Sanson ilustra essa ligação, como tantos outros o fariam mais tarde, ao atingir a fé pela razão.

Podemos dizer que, na Educação, segundo a conhecida proposição de Kerchensteiner, a Didática é o campo da cultura objetiva e a Pedagogia, que abrange naturalmente aquela, é o campo da cultura subjetiva.

Mais de cem anos antes de Kerchensteiner fazer essa proposição Kardec já a havia utilizado com êxito na elaboração de O Livro dos Espíritos. Pode-se alegar que essa não foi uma realização de Kardec, e sim dos Espíritos. Convém lembrar que a organização do livro, e até mesmo a sua fatura na produção do texto, através das perguntas que provocaram as respostas espirituais, estiveram a cargo de Kardec.

Nessa prodigiosa elaboração os Espíritos contribuíram com a matéria-prima, mas Kardec foi o artesão paciente e lúcido, esclarecido e capaz.

A preocupação de Kardec com as palavras, por exemplo, revela o cuidado do professor terreno que tem de aplicar os termos com exatidão para se fazer compreender. Os Espíritos não se importavam com isso, como muitas vezes disseram ao mestre, pois o que lhes interessava era o pensamento e seu significado intrínseco, sua substância. Mas Kardec estava encarnado – era o homem no mundo – e por isso mesmo atento aos problemas do mundo.

Vemos na Introdução como ele, logo de início procura e consegue definir com clareza os termos para que “a ambigüidade das palavras” não leve o leitor a confusões perigosas ou os possíveis exegetas a interpretações deturpadoras.

O Resumo da Doutrina dos Espíritos, que encontramos na Introdução, é outra prova do trabalho pessoal de Kardec e da maneira por que ele sabia colocar a Didática em função da Educação, entrosando-a na Pedagogia não só como instrumento de ensino, mas sobretudo como função pedagógica.

A leitura atenta e meditada desse resumo seria suficiente para esclarecer um leitor realmente interessado no assunto e predispô-lo à renovação interior. Nesse sentido, podemos dizer que Kardec realizou o sonho de Pestalozzi: deu ao mundo uma forma viva de ensino que ao mesmo tempo informa e forma, instrui e moraliza.

A dinâmica pedagógica de O Livro dos Espíritos teria impedido o desvirtuamento da Educação através do pragmatismo educacional, se porventura os pedagogos do século XX o tivessem encarado com isenção de ânimo e os cientistas, na sua maioria, não se tivessem deixado embriagar pelas teorias materialistas.

Herculano Pires

Ver no site o Prof. Rivail antes de elaborar a Codificação Espírita (Allan Kardec)

Fontes: Conferências dos 100 anos do Nascimento de Herculano Pires (Dora Incontri, com o tema "Herculano - por uma pedagogia espírita")

Fontes: Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Educação espírita: Arcabouço da futura geração saudável)

 

"Só um setor do conhecimento, nesta hora de transição, não necessita renovações, e esse setor é precisamente o Espiritismo. O que ele exige de nós não é renovação doutrinária, mas apenas expurgo de infiltrações espúrias nos Centros, produzidas pela leviandade de praticantes que se desvairam da orientação doutrinária, adotando atitudes, fórmulas e práticas antiquadas"

Herculano Pires "O Zelador da Doutrina Espírita"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Allan Kardec - A Gênese (Obra de Allan Kardec - "A Gênese" - Caráter da revelação espírita - Cap. I)

 

Herculano Pires - Pedagogia Espírita PDF