PIERRE-GAÊTAN LEYMARIE

 

O DESASTRADO CONTINUADOR DOS TRABALHOS

 

DE ALLAN KARDEC

 

O COVEIRO DE KARDEC

 

(1827 - 1901)

 

 

 

 

AMÉLIE GABRIELLE BOUDET

 

MADAME RIVAIL (SRA. ALLAN KARDEC)

 

A GRANDE HEROÍNA DO ESPIRITISMO

 

NA DEFESA DO ESPIRITISMO

 

CERCADA PELOS INIMIGOS DO ESPIRITISMO

 

DE DENTRO E FORA DO MOVIMENTO ESPÍRITA

 

(1795 - 1883)

 

 

 

 

Mme. P. G. Leymarie

 

Processo dos Espíritas

 

 

Prefácio de Francisco Thiesen

 

Apresentação de Hermínio C. Miranda

 

 

Madame P.G. Leymarie “Procès des Spirites”

 

A La Libraire Spirite, 7, Rue de Lille

 

Paris, (1875)

 

 

 

A FEB UM PREITO DE GRATIDÃO

 

Livro destinado aos estudiosos do Espiritismo, que narra fato da história da Doutrina, sobre o chamado “Processo dos Espíritas”, que ocorreu em Paris, em 1875. Trata-se do julgamento de Pierre-Gaêtan Leymarie, pela publicação de fotos – consideradas fraudulentas – de Espíritos desencarnados. Realça a fé e a integridade moral dos personagens espíritas desse processo. Prefácio de Francisco Thiesen e apresentação (resumo em português) por Hermínio C. Miranda.
 

Trechos da obra:

 

Amélie Boudet (A SENHORA KARDEC)

 

NO BANCO DOS RÉUS

 

Com a Senhora Kardec o juiz não foi menos descortês: foi muito mais desrespeitoso. Ela qualificou-se como viúva Rivail, dita viúva Allan Kardec, 80 anos, livreira, juntamente com a Sociedade. Buguet não era fotógrafo da sua Sociedade nem de outra qualquer. Era quem fornecia, no entanto, as fotografias que a Revue Spirite publicava.

 

Os 3.500 francos, como ficou explicado alhures, foram emprestados a ele por alguns senhores que se cotizaram, para isso, com seus recursos próprios e não com os da Sociedade. Buguet precisava liquidar, naquela ocasião, um título vencido. Ela havia ido ao estúdio com a intenção de obter uma foto de seu pai, mas foi a figura de um velho desconhecido que apareceu na chapa.

 

Na segunda tentativa, a imagem era a de Allan Kardec.

 

Leymarie fora também com ela e sabia, dessa vez, que ela desejava um retrato de seu marido. Quanto ao texto escrito, era de tal forma reduzido que não se poderia afirmar positivamente de quem fosse.

 

É certo que a Revue afirmara que a letra era de Kardec, pois, com efeito, várias pessoas reconheceram-na, depois de examiná-la cuidadosamente, mas não se emprestou muita importância a isso.

 

O juiz declara, então, que foi veiculada uma falsa informação, porque o texto fora preparado por Buguet, com a ajuda da Senhorita Ménessier. Como a Senhora Kardec afirmasse que, não obstante, a letra era de seu marido, o juiz chama a Senhorita Ménessier.

 

– Foi a senhorita que escreveu aquilo? – pergunta ele.

 

– Sim, senhor.

 

– A letra é de meu marido, insiste a Senhora Kardec.

 

– Madame – diz a moça –, fui eu que escrevi aquilo.

 

– Isso pode ser dito, mas não prova nada – insiste a Senhora Kardec.

 

– Será que diante dessa declaração madame ainda acreditava que Buguet fosse médium?

 

– Como não? Há 200 cartas vindas do interior afirmando tais fatos.

 

Embora o juiz persista em afirmar que se trata de ilusão, tanto quanto no caso da escrita, a Senhora Kardec permanece inabalável:

 

– Se fosse apenas uma pessoa, o senhor poderia ter razão, mas quando há centenas delas que afirmam o mesmo fato a questão é outra.

 

O juiz não compreende como pode ela insistir na sua convicção, quando, para ele, é claro que se trata da uma grosseira mistificação de Buguet.

 

– A Senhorita Ménessier talvez não esteja dizendo a verdade – retruca a Senhora Kardec –. Isso não prova coisa alguma, tanto quanto aquilo que afirma Buguet. Desde que ele afirma o contrário da verdade, sua recepcionista pode fazer o mesmo.

 

O juiz desiste de prosseguir nesse rumo e assesta suas baterias em Kardec, que, certamente, não estava em julgamento. Ele deseja saber quando o Sr. Rivail tomou o nome de Allan Kardec e quando publicou O Livro dos Espíritos. Em seguida, uma pergunta insólita, a que ele mesmo responde:

 

– Onde foi que ele arranjou esse nome? Num “grand grimoire”.

 

Grimório (em francês grimoire, em latim grimorium) é um manual de magia negra. Os três mais conhecidos são o “Grimo-rium Verum”, o “Grimório do Papa Honório” e o “Grand Grimoire”. Mesmo os autores especializados, como Lewis Spende, (An Encyclopaedia of Occultism, da University Books) considera a magia negra como “ignorante e supersticiosa perversão da verdadeira ciência”.

 

A Senhora Kardec declara não saber o que ele deseja dizer com isso, mas o juiz prossegue, implacável, agressivo e totalmente divorciado da verdade:

 

– Conhecemos as origens dos livros do seu marido. Ele os retirou principalmente de um “grand grimoire” de 1522, de um livro intitulado “Alberti... etc.”.

 

– Todos os livros de meu marido – afirma a Senhora Kardec – foram criados por ele, com a ajuda dos médiuns e das evocações. Nada sei desses livros que o senhor acaba de citar.

 

É incrível a atitude desse pobre juiz. Depois de ter afirmado que conhecia a Doutrina Espírita tão bem quanto os estudiosos de então, sai-se com essa de que Kardec buscara sub-repticiamente, num antiqüíssimo e ridículo livro de magia, a límpida estrutura da Doutrina. Será que ele dizia isso em plena convicção, ou desejava apenas impressionar os presentes? Ou o quê?

 

Quanto ao pseudônimo, também ele sabia. Era, segundo ele, o nome de uma grande floresta da Bretanha, que ninguém, ao que se saiba, conseguiu identificar. Além do mais, ela fizera erigir para ele um túmulo no cemitério de Père-Lachaise, onde mandara inscrever o nome de Allan Kardec. E o que tinha isso de censurável?

 

A Senhora Kardec parece aturdida. Somente sabe dizer isto:

 

– Acho que não se deveria brincar com essas coisas. Não é próprio rir-se de coisas semelhantes.

 

O juiz parece totalmente insensível ao respeito que deve merecer uma digna e idosa senhora, tratando-a como se fosse realmente a indigna companheira de um reconhecido trapaceiro.

 

– Não gostamos de pessoas que tomam nomes que não lhes pertencem, de escritores que pilham obras antigas, que enganam o público.

 

– Todos os literatos – responde Madame Kardec – adotam pseudônimos. Meu marido jamais pilhou coisa alguma.

 

O juiz retruca:

 

– Ele é um compilador, não um literato. É um homem que praticava a magia negra ou branca.

 

Vá sentar-se.

 

O procedimento desse homem perante a Senhora Kardec é das coisas mais lamentáveis desse tenebroso processo. Parece dominado por uma fúria incontida, como um possesso, um instrumento dócil das sombras, sem nenhum interesse em apurar a verdade e julgar serenamente o caso, como sua posição de juiz exigia.

 

Ao contrário, parece um acusador medieval indignado e grosseiro e, pelo menos em uma oportunidade, chegou a declarar que certo documento que leu deveria ter sido lido pelo Promotor. Ignorou ali sua posição de magistrado, para investir-se da autoridade de um inquisidor que não deseja julgar, mas condenar. O tratamento dispensado à Senhora Kardec é revoltante, é inconcebível, é irracional.

 

A pobre senhora, tomada de surpresa ante o cerrado ataque, parece aturdida, limitando-se a balbuciar algumas palavras ante a saraivada de verdadeiros impropérios contra seu nobre e digno esposo.

 

Ele desencarnara há cerca de 6 anos, daquela época, respeitado por eminentes figuras do pensamento mundial. Fora professora e autora de obras didáticas de elevada reputação, tinha livros traduzidos em várias línguas modernas.

 

Deve ter sido doloroso para a respeitável anciã ouvir tamanhos despautérios atirados com rancor e grosseria do alto de uma cátedra de magistrado, na presença de um público heterogêneo, que, a rigor, ali estava apenas pela avidez de colher emoções vulgares e gratuitas.

 

Obras complementares:

 

KARDEC NO BANCO DOS RÉUS

 

Em janeiro de 1875, a Revista Espírita, sob a direção de Pierre Gaetan Leymarie e supervisão de Amélie, abriu suas páginas a uma série de “fotografias de espíritos”, produzidas em estúdio pelo fotógrafo Édouard Buguet e pelo jovem médium americano Alfred Firman.

 

Uma das fotos exibia a viúva Amélie, com expressão serena, sentada numa cadeira. Ao fundo, a imagem diluída do suposto espírito de Kardec, mesma expressão sisuda das fotos antigas, com um cartão preenchido com letras miúdas, quase ilegíveis, diante dele. Para os observadores céticos, não havia dúvidas: montagem. E não era a única.

 

Muitos familiares saudosos recorriam à câmera de Buguet — e aos “ fluidos magnéticos” de Firman — para tentar captar a presença no estúdio de seus entes queridos mortos. Quarenta por cento dos clientes, segundo cálculos do próprio Leymarie, voltavam para casa com os flagrantes e — o mais importante — com a evidência da sobrevivência do espírito. Cada fotografia era vendida por 75 cêntimos, uma pechincha, mas não para a justiça.

 

O caso chegou nos tribunais no dia 16 de junho de 1875. Leymarie e os seus cúmplices foram acusados de fraude pelo juiz Millet. Sob pressão, Buguet não demorou a confessar suas artimanhas: entrevistava as famílias para colher dados sobre a aparência dos mortos — altura, idade, cores de cabelo e olhos — e, com ajuda de bonecos, silhuetas em papelão e negativos com semblantes semelhantes às descrições, compunha seus fotogramas.

 

Quanto a Leymarie, seria seu cúmplice ou sócio? Diante de um juiz incrédulo, garantiu Buguet:

 

— Não. Ele não sabia de nada.

 

O sucessor de Allan Kardec, Pierre Leymarie após a revista entrou no tribunal algemado — para alegria dos adversários do espiritismo e o júbilo da imprensa — e se recusou a confessar o crime para se livrar da cadeia.

 

Foi condenado a um ano de prisão e ao pagamento de quinhentos francos de multa — mesma pena de Buguet — após sofrer um interrogatório demolidor.

 

O juiz se recusou a dar crédito às testemunhas que juraram reconhecer, nas fotos do além, as imagens de seus mortos queridos, e atribuiu ao desespero estas declarações de fé. Ao longo dos interrogatórios, o nome de Allan Kardec foi citado pelo magistrado inúmeras vezes — e nunca com respeito.

 

Era como se a doutrina estivesse no banco dos réus. Até sobre as vendas das obras de Kardec o juiz pediu detalhes. Leymarie tinha as contas atualizadas: O livro dos espíritos já estava na vigésima edição, O livro dos médiuns, na décima, e O evangelho segundo o espiritismo, na sétima.

 

Mas o pior ainda estava por vir. Aos 80 anos, Amélie Boudet foi chamada a depor como testemunha. No centro do inquérito, Allan Kardec.

 

O juiz então perguntou, com ironia:

 

— Onde foi que ele arranjou este nome?

 

Amélie nem teve tempo de responder, pois o juiz já afirmava:

 

— Conhecemos as origens dos livros do seu marido. Ele os retirou principalmente do Grand Grimoire.

 

Grimório (em francês grimoire, em latim grimorium) é um manual de magia negra. Os três mais conhecidos são o “Grimo-rium Verum”, o “Grimório do Papa Honório” e o “Grand Grimoire”. Mesmo os autores especializados, como Lewis Spende, (An Encyclopaedia of Occultism, da University Books) considera a magia negra como “ignorante e supersticiosa perversão da verdadeira ciência”.

 

A viúva disse desconhecer a tal publicação — um livro de magia negra — e repetiu o que todo espírita sabia: as obras de Kardec seriam resultado de consultas a espíritos através de médiuns. O juiz deu de ombros e passou a questionar a decisão de a viúva enterrar o próprio marido não com o nome de batismo, mas com o pseudônimo retirado, segundo ele, do nome de uma floresta da Bretanha.

 

Amélie reagiu:

 

— Não se deve brincar com este assunto.

 

E o magistrado foi além, acirrando o diálogo:

 

— Não gostamos de gente que toma nomes que não lhe pertencem, de escritores que pilham obras antigas e que enganam o público.

 

– Todos os literatos – responde Madame Kardec – adotam pseudônimos. Meu marido jamais pilhou coisa alguma.

 

O juiz retruca:

 

— Ele é um compilador, não um literato. Era um homem que praticava a magia negra ou branca.

 

Vá sentar-se!

 

Se Kardec estivesse ali, corria o risco de ser preso. Mas estava bem longe, e já não mandava notícias do além.

 

Quem quisesse saber mais sobre ele precisaria recorrer a seus arquivos.

 

Fontes: Kardec - A Biografia - Marcel Souto Maior
 

 

 

Amélie Boudet (Senhora Allan Kardec). O Espírito de seu marido tem nas mãos uma mensagem obtida por escrita direta. Buguet, no Tribunal, tentou fazê-la passar como sendo uma cartolina adrede preparada pela Srta. Léonie Ménessier que confessou a adulteração grosseira.

 

Uma das fotos falsificadas que foram publicadas na Revue Spirite em janeiro de 1875 por Pierre Gaetan Leymarie e que deram margem ao célebre Procès des Spirites que envolveu a Madame Rivail continuadora dos trabalhos de Allan Kardec e que levaram os espíritas do mundo inteiro para lama do ridículo.

 

 

 

Édouard Buguet

 

O fotógrafo Édouard Buguet, fazendo uso de meios fraudulentos na obtenção de fotografias de Espíritos, é processado pelo Ministério Público.

 

A 16 de Junho de 1875, Leymarie e Alfred E. Firman foram também envolvidos no processo, em virtude dos laços de amizade que mantinham com Édouard Buguet, e, assim, julgados coniventes na fraude e condenados pela Justiça Francesa com pesadas multas e prisão celular.

 

 

 

Pierre-Gaêtan Leymarie

 

Apesar das cartas de solidariedade vindas das mais diferentes partes do mundo, inclusive do Brasil, Pierre-Gaêtan Leymarie foi condenado a um ano de prisão celular e ao pagamento de quinhentos francos de multa.

 

 

 

 

Uma rara primeira edição de Processo dos Espíritas, editada pela Sra P. G. Laymarie

 

Ver no site a Madame Rivail a continuadora do Espiritismo na França

 

Fontes: Canal Espírita (Programa Espiritismo em Foco) (Movimento Espírita Pós Kardec) (Episódios e Declínio Doutrinário na França)

 

Fontes: Canal Espírita (Espiritismo à Francesa: a derrocada do Movimento Espírita Francês pós-Kardec) (Comentários: Adriano Calsone, Antonio Cesar Perri de Carvalho, Carlos Campetti, Jorge Hessen, Oceano Vieira de Melo e Paulo Henrique de Figueiredo.)
 

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Movimento espírita Pós Kardec – Episódios e declínio doutrinário na França)

 

  Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Dossiê de Berthe Fropo e a decadência do Espiritismo)

 

"O sucessor de Allan Kardec, Pierre Leymarie após a revista entrou no tribunal algemado — para alegria dos Adversários do Espiritismo e júbilo da imprensa — e se recusou a confessar o crime para se livrar da cadeia."

Kardec - A Biografia - Marcel Souto Maior

"Os inimigos do Espiritismo, à espreita de tudo que pudesse entravar o movimento ascendente da Doutrina, aproveitam-se, com empenho, da ocasião de um processo, para dar, ao Espiritismo, um grande golpe e acabá-lo com a possante arma do ridículo. E de fato, foi menos um processo contra as fotografias que mesmo contra os espíritas."

 

Herculano Pires "O metro que melhor mediu Allan Kardec"

 

"Leymarie imergiu na invigilância, gerando o desfalecimento do Movimento Espírita já quase totalmente desintegrado. Cremos que a sucessão de Kardec deveria caber a Alexandre Delanne, até porque era vizinho e amigo de longa data da família Kardec, jamais a Leymarie.

 

Mas, quem era Leymarie? Era um praticante de Teosofia de Blavatsky, defendia as alucinações de Roustaing e era apaixonado pela maçonaria.

 

Pierre Leymarie foi o protagonista para o desmoronamento doutrinário, por conseguinte muitos espíritas franceses perderam o rumo sob o guante do misticismo imponderado. Para ilustrar, notemos o infame “Processo dos Espíritas”, resultante das reais fraudes reproduzidas por fotógrafos de má fé e publicadas de maneira descuidada por Leymarie na Revue Spirite. Naturalmente esse episódio foi traumático de consequências gravíssimas, ferindo mortalmente o moribundo Movimento Espírita francês."

 

Jorge Hessen "O Combativo Escritor Espírita"

 

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

 

Madame P.G. Leymarie - Processo dos Espíritas

 

 

 

Madame P.G. Leymarie - Procès des Spirites (1875) (Fr) (Obra rara)