GABRIEL DELANNE

O ESPIRITISMO PERANTE A CIÊNCIA

 

Título Original em Francês

Gabriel Delanne - Le Spiritisme Devant la Science

Paris, Éditeur Dentu, 1885

Sinopse da obra:

Gabriel Delanne foi um dos cientistas que deram continuidade ao trabalho de Kardec, na divulgação da Doutrina Espírita.

Nesta obra, o autor demonstra que o Espiritismo, longe de contrariar a Ciência, é nela que se firma, não havendo incompatibilidade entre um e outro.

Aprecia casos comprovados experimentalmente de aparições materializadas, telepatia, transportes, visão a distância e premonição, entre outros, relatando a adoção, por grande número de cientistas, da teoria espírita como a única explicação geral de todos os fenômenos investigados.

Aconselha a pesquisa séria da mediunidade e reprova energicamente os que, por preconceito ou fanatismo, não admitem a adoção de medidas preventivas contra as mistificações no campo experimental.

Acrescenta um Apêndice que visa informar sobre a consagração pela Ciência de algumas das mais importantes teorias da obra, várias décadas após a sua publicação.

Trechos da obra:

Temos alma?

Temos alma? Tal é a questão que nos propomos estudar neste capítulo. Parece, à primeira vista, que este problema pode ser facilmente resolvido, porque desde a mais remota Antigüidade as pesquisas dos filósofos tiveram por objeto o homem, sua natureza física e intelectual; poder-se-ia crer que chegaram a um resultado? Pois bem, conforme alguns sábios modernos, não é assim.

Os antigos que tinham tomado por divisa a célebre máxima “conhece-te a ti mesmo” não se conheciam. Eles imaginavam que o homem fosse composto de dois elementos distintos: a alma e o corpo; basearam, nessa dualidade, todas as deduções da filosofia, e eis que, em nossa época, uma escola nova acha que eles se enganaram; que em nós tudo é matéria; que a antiga entidade qualificada com o nome de alma não existe; e que é preciso abjurar esse velho erro, filho da ignorância e da superstição.

Antes de nos submetermos passivamente a esse aresto, examinemos se os argumentos fornecidos pelos materialistas têm, realmente, o valor que lhes querem atribuir. Procuraremos acompanhá-los no próprio terreno e tentaremos discriminar o que de verdadeiro e de falso existe em suas teorias. Anteporemos, em relação aos seus trabalhos, as conclusões imparciais da ciência e da especulação modernas. Dessa comparação nascerá, assim o esperamos, a certeza de que existe em nós um princípio independente da matéria, que dirige o corpo, e a que chamamos alma.

Àqueles que duvidarem da utilidade, para o homem, do princípio espiritual, responderemos: não há assunto mais digno de nossa atenção, porque nada nos interessa mais do que saber quem somos, para onde vamos e donde viemos.

Tais questões se impõem ao espírito, após os dolorosos acontecimentos aos quais ninguém está isento neste mundo.

A alma, iludida e mutilada, recolhe-se a si própria, depois dos combates da existência, e indaga por que o homem está na Terra, se seu destino é o de sofrer sempre?

Quando se vê o vício triunfante ostentar o seu esplendor, a quem não ocorre a idéia de que os sentimentos de justiça e de honestidade são palavras vãs? Afinal de contas, não é a satisfação dos sentidos o fim supremo ao qual aspiram todos os seres?

Quem de nós, tendo ardentemente perseguido a realização de um sonho, não sentiu o coração vazio e a alma desenganada, depois de o haver atingido? Quem de nós não indagou, quando o turbilhão da existência lhe tenha deixado um instante de repouso: – Por que estamos na Terra e qual será o nosso futuro?

O sentimento que nos impele a essa pesquisa é determinado pela razão que quer, imperiosamente, conhecer o porquê e o como dos acontecimentos que se realizam em torno de nós. É ela que nos põe no coração o desejo de aprofundar o mistério de nossa existência. Se em meio ao ruído das cidades essa necessidade se impõe algumas vezes ao nosso espírito, com muito maior força, ainda, ela se apossa de nós, quando, ao deixar os centros populosos, nos encontramos face a face com as naturezas eternas, imutáveis. Ao contemplar os vastos horizontes de imensa paisagem, os céus profundos, semeados de estrelas, verificamos a nossa pequenez no conjunto da criação. E ao lembrar que os mesmos lugares em que agora nos encontramos foram pisados por inumeráveis legiões de homens, que não deixaram outros traços além do pó de seus ossos, perguntamos, com angústia, por que esses homens viveram, amaram e sofreram?

Quaisquer que sejam as nossas ocupações, quaisquer que possam ser os nossos estudos, somos levados invariavelmente a ocupar-nos de nosso destino, sentimos a necessidade de conhecer-nos e de saber em virtude de que leis nós existimos.

Seremos o joguete das forças cegas da natureza? Nossa raça, que apareceu na Terra depois de tantas outras, não será mais que um anel dessa imensa cadeia de seres que se deve suceder em sua superfície? Ou efetivamente será a plena eclosão da força vital imanente de nosso Globo?

A morte, enfim, dissolverá os elementos constitutivos do nosso corpo para os mergulhar de novo no cadinho universal, ou conservaremos, depois dessa transformação, uma individualidade para amar e recordar?

Todos esses pontos de interrogação se erguem diante de nós nas horas de dúvida e de reflexão; eles prendem o espírito na rede de idéias que suscitam e obrigam o mais indiferente dos homens a indagar: Existe a alma?

Gabriel Delanne

Trechos da obra:

Provas da imortalidade da alma pela experiência

À pergunta – existe a alma? – a ciência responde talvez, os fenômenos do magnetismo, do hipnotismo e da anestesia dizem que sim, e nisso confirmam todas as deduções da filosofia e as afirmações da consciência.

Constrangidos, pela evidência dos fatos, a admitir uma força diretriz no homem, grande número de materialistas se refugiam em uma última negativa, sustentando que essa energia se extingue com o corpo, de que ela não era senão uma emanação. Como todas as forças físicas e químicas, dizem eles, a alma, essa resultante vital, cessa com a causa que a produz; morto o homem, está aniquilada a alma.

Será possível? Não seremos mais que um simples conglomerado vulgar de moléculas sem solidariedade umas com as outras? Deve desaparecer para sempre nossa individualidade cheia de amor e, do que foi um homem, não restará verdadeiramente senão um cadáver destinado a desagregar-se, lentamente, na fria noite do túmulo?

Ante a grandiosa questão da imortalidade do ser pensante, diante desse temível problema que tem apaixonado as maiores inteligências, em face desse ignoto, cheio de mistério, não hesitamos em responder de maneira afirmativa.

Temos provas seguras da existência da alma após a morte; podemos estabelecer irrefutavelmente que estamos com a verdade, e isto com o auxílio de experiências simples, práticas, ao alcance de todos, e para cuja explicação não se faz mister um gênio transcendente. O ignorante pode, como o sábio, ter uma convicção, e esse resultado é devido a uma ciência nova – o Espiritismo.

Quando se pensa na gravidade ligada à solução do problema da sobrevivência do eu e nas conseqüências que daí resultam, não se poderia achar demasiado insistir nos fenômenos que nos mostram, de forma probante, a existência da alma depois da morte. A vida social, as leis que a dirigem são baseadas num ideal moral que só se pode apoiar na crença em Deus e numa vida futura.

Há longos séculos, com efeito, os povos, confiando nos princípios de suas religiões, que lhes pareciam inabaláveis, aceitaram as leis ditadas por seus legisladores. Mas, com os tempos modernos, com a discussão livre, levantaram-se dúvidas sobre a legitimidade dessas leis; o direito divino, que fazia de um homem o senhor de um povo, sossobrou na tormenta de 93, e esse resultado é devido, assim em política como em filosofia, ao descrédito em que caíram as idéias religiosas. Havia aliança íntima entre a realeza e o clero; quando os enciclopedistas minaram os dogmas, com o mesmo golpe ruiu o trono.

A fé cega, imposta pelos padres, produziu erros e crimes sem número, contra os quais se revoltou o espírito humano, livre dos preconceitos. Ninguém encara, sem horror, as matanças dos valdenses, dos albigenses, dos camisardos. Os gritos das vítimas de S. Bartolomeu, dos Savonarola e dos João Huss repercutem dolorosamente no fundo dos corações, e os suplícios da Inquisição, seus monstruosos autos-de-fé lançam sangrenta mancha na história do catolicismo. Os fanáticos que condenaram Galileu nada conheciam das maravilhas do Universo; a fé estreita e intolerante que possuíam só podia gerar a ignorância e a credulidade.

Os cristãos da idade média faziam mesquinha idéia de nosso Mundo, que só conheciam em parte. Consideravam-no como a base do Universo; não viam no Céu senão a morada de Deus e nas estrelas mais que pontos luminosos. Tinham, assim, estabelecido uma hierarquia grosseira, colocando o inferno no centro da Terra e o paraíso acima do Sol, de sorte que éramos o eixo de toda a criação, e fora do nosso mundículo nada existia.

A Astronomia, porém, veio destruir essa fabulosa concepção. Ampliaram-se os nossos conhecimentos, a nossos olhos, enlevados, o infinito descobriu os seus espaços. As estrelas não são mais pontos brilhantes disseminados pela mão do Criador, para iluminar as noites, porém mundos imensos que rolam no vazio, sóis radiantes, que arrastam em sua corrida, através do infinito, um cortejo de planetas. A imensidade nos apareceu com suas profundezas insondáveis; sabemos que nossa Terra é parte ínfima dessa poeira de mundos que turbilhonam no éter, de sorte que as crenças baseadas em nosso orgulho apagaram-se ao sopro da realidade.

O Universo inteiro ostentou diante de nós os esplendores de sua harmonia eterna, a simetria inalterável de suas transformações, sua imutabilidade, sua imensidade! Diante de tão novos espetáculos, reconheceram os homens a inanidade de suas crenças primitivas, queimaram o que haviam adorado e, levando o desdém do passado aos últimos limites, repeliram a noção de Deus e a da alma, como de entidades vetustas, sem nenhum valor objetivo. Assim se estabeleceu a corrente materialista nascida no 18º século, da luta contra os abusos.

O homem de nossa época não quer mais crer, desconfia mesmo da razão e se refugia na experiência sensível como a única que lhe pode trazer a verdade; eis por que exige ele provas positivas dos fenômenos que eram, até então, do domínio da filosofia. Estas considerações explicam-nos o pouco êxito de escritores eminentes como Ballanche, Constant Savy, Esquiros, Charles Bonnet, Jean Reynaud, que pregaram a imortalidade da alma.

Em nossos dias, um filósofo e sábio, Camille Flammarion, segue a rota gloriosa desses grandes homens. Este vulgarizador de gênio semeia a mancheias as idéias da palingenesia humana, e os resultados correspondem a seus nobres esforços; ele deve, porém, a fama que alcançou, mais à beleza do estilo que às idéias que emite. O espírito humano, agitado há séculos entre os mais diversos sistemas, está cansado das especulações metafísicas e se aferra à observação material como a uma tábua de salvação. Daí o grande crédito dos homens de ciência no momento atual. Eles formam uns corpos sagrados, cujos julgamentos não têm apelação. Possuem a soberba dos antigos colégios sacerdotais, sem lhes partilhar as raras virtudes, e em ambas as partes a intolerância é a mesma.

A maioria do povo, que só percebe o exterior das coisas, vendo os conhecimentos antigos destruídos pelos descobrimentos modernos, crê cegamente em seus novos condutores e se lança, após eles, no materialismo absoluto.

Não mais se raciocina; vai-se de cabeça baixa às últimas conseqüências, e, porque está provado que o cérebro é a sede do pensamento, já não existe a alma; porque não se acredita mais em Jeová a pairar sobre as nuvens, Deus não passa de fabuloso mito.

Contra essas tendências é que o Espiritismo vem reagir. Sendo o nosso século o da demonstração material, ele apresenta ao observador imparcial fatos bem verificados.

O Espiritismo deixa de parte as teorias nebulosas, desprende-se dos dogmas e das superstições e vai apoiar-se na base inabalável da observação científica; os próprios positivistas poderão declarar-se satisfeitos com as provas que fornecemos à discussão, porque elas nos são trazidas pelos maiores nomes de que se honra a ciência contemporânea.

Há 50 anos que essa doutrina reapareceu no Mundo, foi submetida a críticas apaixonadas, a ataques muitas vezes desleais. Seus adeptos foram escarnecidos, ridicularizados, anatematizados; quis-se fazer deles os últimos representantes da feitiçaria; entretanto, apesar das perseguições, acham-se na hora atual mais numerosos e mais poderosos do que nunca; encontram-se, não entre os ignorantes, mas entre os esclarecidos; escritores, artistas, sábios.

O Espiritismo se espalha no Mundo com rapidez inaudita; nenhuma filosofia, nenhuma religião tomou tão considerável desenvolvimento em tão curto tempo.

Hoje, mais de 40 publicações, mensais ou hebdomadárias, levam ao longe o resultado das pesquisas empreendidas em todas as partes do Mundo, e seus partidários, grupados em sociedade, contam muitos milhões de aderentes em toda a superfície do Globo.

A que é devida essa progressão formidável? Tão-só à simplicidade dos ensinos espiritistas, baseados na justiça de Deus, e, sobretudo, aos meios práticos que essa nova ciência emprega para convencer a todos da imortalidade da alma.

Há duas fases distintas na história do Espiritismo, que é útil assinalar. A primeira compreende o período que vai do ano de 1846, data de sua aparição, até o ano de 1869, que foi o da morte de um escritor célebre, Allan Kardec. Durante esse tempo, estudou-se em toda parte o fenômeno espírita, as experiências se multiplicaram e os observadores sérios descobriram que os fatos novos eram produzidos por inteligências que viviam uma existência diferente da nossa. Dessa certeza nasceu o desejo de estudar tão curiosas manifestações, e, com documentos recolhidos em toda parte, Allan Kardec, compôs O Livro dos Espíritos e, mais tarde, O Livro dos Médiuns, que são o indispensável às pessoas desejosas de se iniciarem nessas novas práticas. O grande filósofo que os escreveu, imprimiu vigoroso impulso a tais investigações, e à sua dedicação infatigável, pode-se dizer, é que se deve a propagação tão rápida dessas consoladoras verdades.

O segundo período, que se estende de 1869 até nossos dias, é caracterizado pelo movimento científico, que se voltou para as manifestações dos Espíritos. A Inglaterra, a Alemanha, a América parecem caminhar de acordo nessas pesquisas. Já os mais autorizados sábios desses países proclamam alto a realidade dos fenômenos espiritistas e, dentro em pouco, o mundo inteiro se associará a esses nobres trabalhos, que têm por fim arrancar-nos à crença degradante do materialismo. Já veremos os documentos em que se estriba nossa afirmação.

Passou o tempo em que se podia, a priori, repelir as nossas idéias sem lhes dar a honra de as discutir; hoje, o Espiritismo se impõe à atenção pública. É preciso que os absurdos preconceitos que o acolheram no berço desapareçam diante da realidade. É necessário saber que, longe de serem visionários, de possuírem cérebro oco, os espiritistas são observadores frios e metódicos, que só relatam os fatos bem observados.

Força é que se convençam de que muitos milhões de homens não são vítimas de uma loucura contagiosa; que, se crêem, é porque a doutrina lhes oferece os mais dignos ensinos, porque abre ao espírito os mais vastos horizontes. Convém, enfim, que se deixem de lado as fáceis zombarias empregadas há vinte e cinco anos nos jornalecos, e que nem mesmo fazem rir os que os editam. A nova ciência que ensinamos não consiste, somente, no movimento de uma mesa, porque, tão grande é a distância que vai destes modestos ensaios às suas conseqüências, quão a maçã de Newton à gravitação universal.

Convidamos os homens de boa-fé a fazerem pesquisas sérias, pedimos-lhes que meditem nos ensinamentos de nossa filosofia e eles se convencerão de que nas nossas explicações nunca intervém o sobrenatural.

O Espiritismo repele o milagre com todas as forças. Faz de Deus o ideal da justiça e da ciência; diz que o Criador do Mundo, tendo estabelecido leis que exprimem seu pensamento, não pode derrogá-las, pois que elas são a obra da razão suprema e é impossível qualquer infração a essas leis. Os fatos espíritas podem ser todos, senão explicados, pelo menos compreendidos com os dados da ciência atual, o que demonstraremos no fim desta obra.

A parte espiritual do homem foi desprezada pelos sábios; seus trabalhos versavam tão-só sobre o corpo e eis que os Espíritos invadem a Ciência que os havia desdenhado.

Gabriel Delanne

Ver no site as obras de Allan Kardec "O Codificador da Doutrina Espírita"

Ver no site o pesquisador espírita Herculano Pires "A Ciência Espírita"

Fontes: A Luz na Mente - Revista On line de Artigos Espíritas (Espiritismo e Ciência - Uma reflexão necessária)

Fontes: A Luz na Mente - Revista On line de Artigos Espíritas (Coexistência entre Ciência e Espiritismo é possível?)

"O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo. Ele no-lo mostra, não mais como coisa sobrenatural, porém, ao contrário, como uma das forças vivas e sem cessar atuantes da Natureza, como a fonte de uma imensidade de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso, relegados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. É a essas relações que o Cristo alude em muitas circunstâncias e daí vem que muito do que ele disse permaneceu ininteligível ou falsamente interpretado. O Espiritismo é a chave com o auxílio da qual tudo se explica de modo fácil."

Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. I, item 5.

 

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