GABRIEL DELANNE

O FENÔMENO ESPÍRITA

 

Título Original em Francês

Gabriel Delanne - Le Phénomène Spirite

Temoignage des Savants - Etude Historique

Exposition Methodique de Tous Les Phenomenes

Discussion Des Hypotheses - Conseils Aux Mediums

La Theorie Philosophique

Ed. J. Meyer (B.P.S.)

(Paris) 1896

Prefácio da obra:

O Espiritismo é uma ciência cujo fim é a demonstração experimental da existência da alma e sua imortalidade, por meio de comunicações com aqueles que impropriamente têm sido chamados mortos.

Há quase meio século foram empreendidas as primeiras investigações sobre esse assunto; homens de ciência da mais alta notoriedade consagraram longos anos de estudos para certificar os fatos que formam a base dessa doutrina, e foram unânimes em afirmar a autenticidade dos fenômenos que pareciam produto da superstição e do fanatismo.

Na França, conheciam-se imperfeitamente essas pesquisas, de sorte que, aos olhos do grande público, o Espiritismo não passava de farsa de mesas girantes.

Contudo, o tempo desempenhou o seu papel, e essa doutrina apresenta hoje ao experimentador imparcial uma série de experiências rigorosas, metodicamente conduzidas, que provam, com segurança, a sobrevivência do eu humano à desagregação corporal.

São esses fatos que queremos expor, a fim de que eles implantem em todas as consciências a convicção da imortalidade, não mais baseada somente na fé ou no raciocínio, mas solidamente firmada na Ciência e no seu método severo e positivo.

A geração atual está fatigada de especulações metafísicas; recusa crer naquilo que não está absolutamente demonstrado, e se o movimento espírita, que já conta milhões de adeptos no mundo inteiro, não ocupou ainda o primeiro lugar, deve-se isso a que seus adeptos negligenciaram, até então, pôr sob os olhos do público fatos bem averiguados.

A maior parte das publicações periódicas contém comunicações de Espíritos, as quais podem ser interessantes sob certos pontos de vista; todavia, como sua autenticidade não está absolutamente provada, não produzem o efeito desejado.

As obras francesas aparecidas desde Allan Kardec sobre esse assunto são repetições, com exceção dos livros de Eugène Nus, Louis Gardy e Doutor Gibier, ou, então, não apresentam originalidade alguma sobre a questão, de modo que o movimento tem sido retardado. É preciso que se lhe dê novo impulso.

Para tal, é mister caminhar com o século e saber curvar-se às necessidades da época.

O materialismo triunfa por toda parte, mas já se pressente ser de pouca duração o seu reinado; basta servirmo-nos de suas próprias armas e combatê-lo em seu próprio terreno.

A escola positivista encerra-se na experimentação; imitemo-la: nenhuma necessidade temos de apelar para outros métodos, porque os fatos são obstinados, como diz o sábio Alfred Russell Wallace, e deles não é fácil desembaraçar-se.

Em vez de apresentar aos incrédulos toda a doutrina formulada pelos Espíritos e codificada por Allan Kardec, demos-lhes, simplesmente, a ler os trabalhos de mestres como Robert Hare, Crookes, Wallace, Oxon, Zöllner, Aksakof, pois que não poderão recusar os testemunhos desses grandes homens, que são, por títulos diversos, sumidades intelectuais no vasto domínio das ciências.

Não esqueçamos que Crookes fez a Física dar um passo gigantesco com a demonstração do estado radiante. Wallace é, com certeza, neste momento, o primeiro naturalista do mundo, pois, ao mesmo tempo que Darwin, achou e formulou a lei da evolução. Os trabalhos de Zöllner, em Astronomia, são universalmente conhecidos; os de Fechner, sobre a sensibilidade, são ensinados em toda parte; e quanto aos professores Mapes e Robert Hare, temos a dizer que eles gozam de indiscutível autoridade na América do Norte.

Eis aí os principais campeões do Espiritismo; mas o leitor encontrará, no fim deste volume, uma lista de numerosas notabilidades que afirmam categoricamente a realidade dos seus fenômenos.

É tempo de reagir contra os bonzos oficiais que tentam abafar as verdades novas, afetando uma desdenhosa indiferença. Se temos respeito e admiração pela Ciência sem prevenções, a que imparcialmente encara todos os fenômenos, estuda-os e explica-os friamente, fornecendo boas razões, também nos sentimos cheios de indignação contra a falsa ciência, rebelde a todas as novidades, encerrada em convicções adquiridas e crendo, orgulhosamente, ter atingido a meta do saber humano.

Foram homens desta classe, diremos como Wallace, que fizeram oposição a Galileu, a Harvey, a Jenner. Foram esses ridículos teimosos que repeliram a maravilhosa teoria das ondulações luminosas de Young; que zombaram de Stephenson, quando este quis fazer correr locomotivas sobre as linhas férreas de Liverpool e Manchester. Atiraram todos os sarcasmos possíveis contra a iluminação a gás, e repeliram Arago no próprio seio da Academia, quando este quis discutir a telegrafia; seres ignaros que classificaram o magnetismo como embuste e charlatanice, e que, ainda ultimamente, qualificaram de grande peta a descoberta do telefone.

Não foi por vão prazer de mostrar quanto o espírito humano, mesmo nas classes mais esclarecidas, está sujeito ao erro, que citamos alguns dos mais frisantes exemplos de obstinação nas corporações sábias e o seu horror pelas novidades. Nosso intuito é suscitar um sério movimento em prol dessas investigações, que têm considerável alcance, tanto no domínio material quanto no domínio psicológico.

Se realmente a alma não morre e pode agir sobre a matéria, achamo-nos em face de forças desconhecidas, cujo estudo é interessante; pela mesma forma verificaremos modos novos de energia, que podem conduzir-nos a resultados grandiosos; o mesmo sucede com a personalidade, que, conservando-se depois da morte, nos pôs em presença de um outro problema: a produção do pensamento sem os órgãos materiais do cérebro.

Deixemos de parte os rotineiros obstinadamente encerrados em seus sistemas, abramos bem os nossos olhos quando homens probos, sábios e imparciais nos falem de recentes descobertas, e fechemos os ouvidos ao alarido de todos os eunucos do pensamento, impotentes para saírem da órbita das idéias preconcebidas.

Diremos, como um sábio que não teme desviar-se dos caminhos trilhados, o Sr. Charles Richet, que uma boa e completa experiência vale por cem observações, e acrescentaremos:

Vale dez mil negações, ainda mesmo quando essas negações emanassem de sumidades da maior notoriedade, se estas não se dignassem repetir as experiências e demonstrar-lhes a falsidade.

Este simples resumo não tem outras pretensões além da de expor aos olhos do público as experiências feitas por homens eminentes, por mestres nesta arte tão difícil da observação exata; resultará disso a prova evidente da imortalidade do ser pensante, porque ela afirmar-se-á cada vez mais nítida, cada vez mais evidente, à medida que se desenvolver o magnífico encadeamento dos fenômenos, desde o movimento das mesas até as aparições visíveis, tangíveis e fotografadas dos Espíritos.

Tal é o nosso fim escrevendo esta pequena obra de propaganda.

Depois de um histórico sucinto das origens do Espiritismo, passaremos em revista os trabalhos dos sábios, salientando o que eles têm de convincente e incontestável. Em seguida, consagraremos um capítulo à exposição dos métodos pelos quais se podem evocar os Espíritos; enfim, terminaremos pelas conseqüências filosóficas que resultam dessas pesquisas.

Esperamos que este demonstrativo consciencioso e imparcial produza a convicção no espírito de todos os que souberem desprender-se dos preconceitos vulgares e das idéias preconcebidas, para friamente encararem esta ciência nova, cujos frutos são muito importantes para a Humanidade. É em nome do livre pensamento que convidamos os investigadores a se ocuparem com os nossos trabalhos; é com instância que lhes pedimos não repelirem sem exame esses fatos, tão novos e tão imperfeitamente conhecidos, pois estamos persuadidos de que a luz brilhará a seus olhos, como brilhou para os homens de boa-fé que, há cinqüenta anos, quiseram estudar os problemas do Além, tão perturbadores e tão misteriosos antes dessas descobertas.

Gabriel Delanne

Trechos da obra:

Materialismo e Espiritismo

O movimento científico que caracteriza o século XIX é o da investigação positiva. Longe de quererem, como outrora, firmar hipóteses admitidas a priori e fazer que os fenômenos da natureza concordem com as suas idéias preconcebidas, os sábios buscaram, no estudo meticuloso dos fatos, sua norma de conduta e chegaram, seguindo esse método, aos maravilhosos resultados que diariamente estamos verificando. Mas se, deixando o domínio material, os homens de ciência quiserem aplicar o positivismo às realidades espirituais, esbarrarão em dificuldades invencíveis ou, pelo menos, por eles supostas como tais.

A escola alemã, com Büchner e Moleschott, declara, positivamente, que as velhas concepções de Deus e da alma já estão fora do seu tempo e que a Ciência reduziu a nada essas crenças fabulo-sas. Moleschott aplicou-se, sobretudo, a demonstrar que a idéia é o produto direto de um trabalho molecular do cérebro, e Karl Vogt não teme dizer que o cérebro segrega o pensamento, mais ou menos como a urina é segregada pelos rins. Em nossa época, Haeckel desenvolveu teorias análogas; nada há de novo em seu sistema, a não ser as palavras: o mecanismo e a adaptação patológica, que, no fundo, significam: materialismo.

Pois bem! Nós, espíritas, vimos dizer aos positivistas: Somos vossos discípulos; adotamos o vosso método e só aceitamos como reais as verdades demonstradas pela análise, pelos sentidos e pela observação. Longe de nos conduzirem aos resultados a que chegastes, esses instrumentos de investigação fizeram-nos descobrir um novo modo de vida e esclareceram-nos sobre os pontos controversos.

As grandes vozes dos Crookes, dos Wallace, dos Zöllner proclamam que, do exame positivo dos fenômenos espíritas, resulta claramente a convicção de que a alma é imortal e que não só ela não morre, mas também pode manifestar-se aos humanos, por meio de leis ainda pouco conhecidas que regem a matéria imponderável. Todo efeito tem uma causa e todo efeito inteligente faz supor uma causa inteligente: tais são os princípios, os axiomas inabaláveis sobre os quais repousam as nossas demonstrações.

Os materialistas podiam, há pouco ainda, repelir os argumentos favoráveis aos fenômenos, dizendo que eles não obedecem ao verdadeiro método que conduz à verdade; mas nada de semelhante dever-se-á temer. Não viemos dizer: Precisa-se de fé para compreender a nossa revelação. Não tolhemos o livre exame; mas, ao contrário, dizemos: Vinde instruir-vos, fazei experiências, buscai compreender todos os fenômenos, sede observadores meticulosos, não aceiteis uma experiência senão quando puderdes repeti-la muitas vezes e nas mais variadas circunstâncias; em uma palavra, caminhai prudentemente em busca do desconhecido, porque, avançando-se à procura de novos princípios, é fácil cair-se em erro. Quando tiverdes suficientemente estudado, o próprio fenômeno vos instruirá acerca da sua natureza e do seu poder. Não será essa uma conduta positiva por excelência? Que poderão os mais decididos materialistas responder a Robert Hare, ao professor Mapes, ao Sr. Oxon? Servimo-nos das armas dos nossos inimigos para vencê-los: é em nome do seu método que proclamamos a imortalidade da alma mesmo depois da morte do corpo.

Todas as teorias que querem fazer do homem um autômato, todos os sábios que fizeram da ciência um escudo para proclamarem a materialidade do ser humano encontram o mais formal desmentido no testemunho dos fatos. Não é verdade que sejamos só matéria; não é justo pensar-se que, pela morte do corpo, sendo reduzidos a pó os elementos que o constituíam, nada restará daquilo que foi o ser pensante. A experiência demonstra-nos que, assim como a borboleta sai da crisálida, assim a alma deixa o seu vestuário grosseiro de carne para atirar-se, radiante, no éter, sua pátria eterna. Nada morre neste mundo, porque nada se perde. O átomo de matéria que se escapa de uma combinação entra no grande laboratório da natureza, e a alma, que se torna livre pela dissolução de seus laços corporais, volta ao seu ponto de partida. A gélida noite do túmulo não mais nos aterroriza, porque possuímos a prova certa de que os mausoléus não encerram senão cinzas inertes e que o ser pensante não desaparece.

É sobretudo para os miseráveis, para os deserdados deste mundo que esta sublime prova da imortalidade é doce e consoladora. A certeza absoluta de uma vida melhor anima o trabalhador na luta encarniçada que, diariamente, ele sustenta contra a necessidade. A morte não lhe aparece mais brutal e triste, como o aniquilamento supremo, mas, ao contrário, a porta que se abre para um mundo melhor, a aurora brilhante de um dia novo, mais compensador de seus sofrimentos que esta triste Terra sobre a qual vegeta.

Que todos aqueles a quem a perda de um ser ternamente querido deixou abatidos, desanimados, levantem a cabeça, porque as vozes dos Espíritos bradam-nos que essa dor os atinge, que eles vivem ao redor de nós, que nos envolvem em sua ternura e que de seus corações elevam-se constantes preces pedindo ao Eterno que nos proteja contra os perigos da existência. Eis as claridades sublimes que se desprendem da ciência espírita, eis as venturosas certezas que não podiam dar-nos as religiões nem as filosofias, porque seus dogmas e suas doutrinas, não estando mais em harmonia com os progressos do século, deixam o homem a braços com a dúvida, esse verme roedor da sociedade moderna.

Não nos iludamos: o tempo da fé cega passou; hoje, é necessário, para que uma teoria filosófica moral ou religiosa seja aceita, que ela repouse no fundamento inabalável da demonstração científica. Outros tempos, outros costumes. O mundo antigo apoiou-se na revelação; o de hoje precisa da certeza lentamente adquirida. A fé, por si só, não basta; é indispensável que a razão sancione o que se pretende fazer-nos aceitar como verdades.

A grande força do Espiritismo consiste na liberdade de exame que ele deixa ao cuidado dos seus adeptos. Todos os seus princípios podem ser discutidos e submetidos ao estudo. Cada vez que essa experiência foi feita, ele surgiu mais forte e mais robusto que nunca dessa prova temível. As religiões, na hora atual, assemelham-se a essas andadeiras que são indispensáveis à criança para aprender a caminhar, porém que se tornam inúteis, e mesmo prejudiciais, quando ela adquire o desenvolvimento preciso para se dirigir por si só. Encerrado em um dogmatismo estreito, o homem do século décimo nono sente que esse ensino caduco não mais está em harmonia com os seus conhecimentos e, forçado a escolher entre as certezas da ciência e a fé imposta, atira-se de corpo e alma para o materialismo. Se, porém, esse homem encontrar uma doutrina que concilie as exigências da ciência com as necessidades que a sua alma tem de crer em alguma coisa, ele não hesitará: adotará essa fé nova, que satisfaz plenamente a todas as suas aspirações. Estas considerações sumárias explicam a enorme aceitação do Espiritismo. Não devemos, contudo, crer que o Espiritismo seja inimigo das religiões: ele não combate senão os seus abusos; dirige-se mais particularmente aos materialistas e àqueles que, sem serem completamente ateus, estão indecisos acerca da vida futura.

Em vez de ser ridiculizada e combatida, esta doutrina deveria achar-se na base de todo o ensino moral ou religioso. Dando ao homem a prova evidente de que a sua passagem pela Terra é temporária, de que terá de responder, depois, pelo bem ou mal que fez, impõe um paradeiro aos seus maus instintos, que, em nossos dias principalmente, ameaçam corromper a sociedade. O Espiritismo faz conhecer, com efeito, as condições em que se acha a alma depois da morte do corpo. Em vez de considerar o Espírito de um modo abstrato, nossa doutrina demonstra que ele é, depois da morte, uma individualidade verdadeira, que não tem menos realidade que o homem; somente a natureza do corpo mudou, quando as condições da existência deixaram de ser as mesmas.

Gabriel Delanne

Ver no site o pesquisador espírita Herculano Pires "Introdução à Filosofia Espírita"

Ver no site Os Pesquisadores Espíritas Clássicos

Fontes: Encyclopédie Spirite

Fontes: Biblioteca Virtual - O Consolador

 

Dedicatória

À

alma imortal

de meu venerado mestre

Allan Kardec

eu dedico este livro

obra de um de seus mais obscuros

mas de seus mais sinceros admiradores

Gabriel Delanne

 

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