LÉON DENIS

CRISTIANISMO E ESPIRITISMO

 

OS Grandes Clássicos do Espiritismo

 

Léon Denis - Christianisme et Spiritisme

Preuves Expérimentales de La Survivance

Relations Avec Les Esprits des Morts, La doctrine secrète, La nouvelle révélation

Librairie des Sciences Psychiques

Paris (1898)

Comentário do site:

Percebemos que o Cristianismo dos 3° primeiros séculos muito se parecia com a Doutrina Espírita em suas estruturas e nas suas formas, pois não havia padres que direcionavam os ensinamentos de Jesus Cristo.

Quando a Igreja Católica foi oficializado pelo Imperador Romano Constantino, esta se tornou um apêndice do poder secular é foi perdendo a  essência  dos Ensinamentos de Jesus Cristo.

Acredito que o Cristianismo e o Espiritismo são correlatos, pois o Espiritismo tenta reviver as mesmas práticas dos ensinamentos da Boa Nova de Jesus Cristo, Como amor ao próximo e a Vivência do Evangelho em toda a sua Plenitude.

Irmãos W. e Jorge Hessen

Sinopse da obra:

Nesta obra, Léon Denis demonstra a perfeita identidade da Doutrina Espírita com os preceitos do Cristianismo puro, pregado nos Evangelhos. Narra de forma compacta a expansão do Cristianismo e os desvios deste nos caminhos do dogmatismo, das conveniências sacerdotais e dos interesses sectários.

Ao longo da obra, Denis nos demonstra que as escrituras sagradas confirmam amplamente os conceitos espíritas, como a mediunidade e a reencarnação.

Por fim, o autor mostra por que o Espiritismo se apresenta como a Terceira Revelação, ou o Consolador prometido por Jesus. E com ele temos a possibilidade de destruir as religiões sectárias e fazer florescer uma única e verdadeira religião cristã, fraterna e solidária, entre todas as criaturas, todos os povos, todas as nações.

Nota 2:

Sobre a origem dos Evangelhos

O Antigo Testamento é o livro sagrado de um povo – o povo hebreu; o Evangelho é o livro sagrado da Humanidade. As verdades essenciais que ele contém acham-se ligadas às tradições de todos os povos e de todas as idades.

A essas verdades, porém, muitos elementos inferiores vieram associar-se.

Nesse ponto de vista o Evangelho pode ser comparado a um vaso precioso em que, no meio da poeira e das cinzas, se encontram pérolas e diamantes. A reunião dessas gemas constitui a pura doutrina cristã.

Quanto à sua verdadeira origem, admitindo que os Evangelhos canônicos sejam obra dos autores de que trazem os nomes, é preciso notar que dois dentre eles, Marcos e Lucas, se limitaram a transcrever o que lhes fora dito pelos discípulos. Os outros dois, Mateus e João, conviveram com Jesus e recolheram os seus ensinos. Os seus evangelhos, porém, não foram escritos senão quarenta e sessenta anos depois da morte do mestre.

A seguinte passagem de Mateus (XXIII, 35) – a menos que se trate de uma interpolação bem verossímil – prova que essa obra é posterior à tomada de Jerusalém (ano 70). Jesus dirige esta veemente apóstrofe aos fariseus: “Para que venha sobre vós todo o sangue inocente que se tem derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que vós matastes entre o templo e o altar”.

Ora, segundo todos os historiadores e, em particular, segundo Flávius Josefo, esse assassínio foi praticado no ano 67, isto é, trinta e quatro anos depois da morte de Jesus.

Se atribuem ao Cristo a menção de um fato que ele não pudera conhecer, ao que se não terão animado acerca de outros pontos?!

Os Evangelhos não estão concordes sobre os fatos mais notáveis atribuídos a Jesus. Assim, cada um deles refere de modo diferente as suas derradeiras palavras. Segundo Mateus e Marcos, teriam sido: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” Conforme Lucas, o Cristo, ao expirar, teria dito: “Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito” expressivo testemunho do amor filial que o unia a Deus. João, finalmente, põe na sua boca estas palavras: “Tudo está cumprido.”

O mesmo se verifica relativamente à primeira aparição de Jesus: ainda nisso os evangelistas não estão de acordo. Mateus fala de duas mulheres que, juntas, o teriam visto. No dizer de Lucas, foi aos dois discípulos que se dirigiam para Emaús que em primeiro lugar o Cristo se mostrou. Marcos e João assinalam unicamente Maria Madalena como testemunha de sua primeira aparição.

Notemos ainda uma divergência acerca da Ascensão: Mateus e João, os únicos companheiros de Jesus que escreveram sobre a sua vida, dela não falam. Marcos a indica em Jerusalém (XVI, 14,19), e Lucas declara que ela teve lugar na Betânia (XXIV, 50, 51), no próprio dia da ressurreição, ao passo que os Atos dos Apóstolos dizem ter sido quarenta dias depois (Atos, 1, 3).

Por outro lado, é evidente que o último capítulo do evangelho de João não é do mesmo autor do resto da obra.

Este terminava primitivamente no versículo 31 do cap. XX, e o primeiro versículo que se lhe segue indica um acréscimo.

João teria ousado dizer-se “o discípulo que Jesus amava?” Teria ele podido pretender que no mundo inteiro não caberiam os livros em que se descrevessem os fatos e os gestos de Jesus? (XXI, 25). Se reconhecemos que foi acrescentado um capítulo inteiro a esse evangelho, seremos levados a concluir que numerosas interpolações poderiam ter sido feitas igualmente.

Falamos do grande número de Evangelhos apócrifos. Deles contava Fabrício trinta e cinco. Esses evangelhos, hoje desprezados, não eram, entretanto, destituídos de valor aos olhos da Igreja, pois que num deles diz Nicodemos que ela vai buscar a crença na descida de Jesus aos infernos, crença imposta a toda a cristandade pelo símbolo do concílio de Nicéia, e de que não fala nenhum dos Evangelhos canônicos.

Em resumo, segundo A. Sabatier, decano da Faculdade de Teologia Protestante de Paris, os manuscritos originais dos Evangelhos desapareceram, sem deixar nenhum vestígio certo na História. Foram provavelmente destruídos por ocasião da proscrição geral dos livros cristãos, ordenada pelo imperador Diocleciano (edito imperial de 303). Os escritos sagrados que escaparam à destruição não são, por conseguinte, senão cópias.

Primitivamente, não tinham pontuação esses escritos, mas, em tempo, foram divididos em perícopes, para comodidade da leitura em público – divisões às vezes arbitrárias e diferentes entre si. A divisão atual apareceu pela primeira vez na edição de 1551.

Apesar de todos os seus esforços, o que a crítica pôde cientificamente estabelecer de mais antigo foram os textos dos séculos V e IV. Não pôde remontar mais longe senão por conjeturas sempre sujeitas à discussão.

Orígenes já se queixava amargamente do estado dos manuscritos no seu tempo. Irineu refere que populações inteiras acreditavam em Jesus sem a intervenção do papel e da tinta. Não se escreveu imediatamente, porque era esperada a volta do Cristo.

Nota 3:

Sobre a autenticidade dos Evangelhos

Um atento exame dos textos demonstra que, em meio das discussões e das perturbações que agitaram, nos primeiros séculos, o mundo cristão, não se hesitou, para aduzir argumentos. em desvirtuar os fatos, em falsear o verdadeiro sentido do Evangelho. Celso, desde o século II, no Discurso verdadeiro, lançava aos cristãos a acusação de retocarem constantemente os Evangelhos e eliminarem no dia seguinte o que havia sido inserido na véspera.

Muitos fatos parecem imaginários e acrescentados posteriormente. Tais, por exemplo, o nascimento em Belém, de Jesus de Nazaré, a degolação dos inocentes, de que a História não faz menção alguma, a fuga para o Egito, a dupla genealogia, contraditória em tantos pontos, de Lucas e Mateus.

Como, também, acreditar na tentação de Jesus, que a Igreja admite nesse mesmo livro em que acredita encontrar as provas da sua divindade? Satanás leva Jesus ao monte e lhe oferece o império do mundo, se ele lhe quiser prestar obediência. Se Jesus é Deus, poderia Satanás ignorá-lo? E, se conhecia sua natureza divina, como esperava exercer influência sobre ele?

A ressurreição de Lázaro, o maior dos milagres de Jesus, é unicamente mencionada no quarto Evangelho, mais de 60 anos depois da morte do Cristo, ao passo que as suas menores curas são citadas nos três primeiros.

Com o quarto Evangelho e Justino Mártir, a crença cristã efetua a evolução que consiste em substituir à idéia de um homem honrado, tornado divino, a de um ser divino que se tornou homem.

Depois da proclamação da divindade do Cristo, no século IV, depois da introdução, no sistema eclesiástico, do dogma da Trindade, no século VII, muitas passagens do Novo Testamento foram modificadas, a fim de que exprimissem as novas doutrinas (Ver João, I, 5,7). “Vimos, diz Leblois, na Biblioteca Nacional, na de Santa Genoveva, na do mosteiro de Sannt-Gall, manuscritos em que o dogma da Trindade está apenas acrescentado à margem. Mais tarde foi intercalado no texto, onde se encontra ainda.”

Nota 4:

Sobre o sentido oculto dos Evangelhos

Muitos dentre os padres da Igreja afirmam que os Evangelhos encerram um sentido oculto.

Orígenes diz:

“As Escrituras são de pouca utilidade para os que as tomem como foram escritas. A origem de muitos desacertos reside no fato de se apegarem à sua parte carnal e exterior.”

“Procuremos, pois, o espírito e os frutos substanciais da Palavra que são ocultos e misteriosos.”

O mesmo diz ainda:

“Há coisas que são referidas como histórias, que nunca se passaram e que eram impossíveis como fatos materiais, e outras que eram possíveis, mas que não se passaram.”

Tertuliano e Denis, o Areopagita, falam também de um esoterismo cristão.

Santo Hilário declara repetidas vezes que é necessário, para inteligência dos Evangelhos, supor-lhes um sentido oculto, uma interpretação espiritual.

No mesmo sentido se externa Santo Agostinho:

“Nas obras e nos milagres de Nosso Salvador há ocultado mistérios que se não podem levianamente, e segundo a letra, interpretar sem cair em erro e incorrer em graves faltas.”

São Jerônimo, em sua Epístola a Paulino, declara com insistência:

“Toma cuidado, meu irmão, no rumo que seguires na Escritura Santa. Tudo o que lemos na Palavra santa é luminoso e por isso irradia exteriormente, mas a parte interior ainda é mais doce. Aquele que deseja comer o miolo deve quebrar a casca.”

Sobre esse mesmo assunto, animada controvérsia teológica se travou entre Bossuet e Fenelon. Afirmava este haver um sentido secreto das Escrituras, transmitido unicamente a iniciados, uma gnose católica vedada às pessoas vulgares.

De todas essas ocultas significações a primitiva Igreja possuía o sentido, mas dissimulava-o cuidadosamente; pouco a pouco veio ele a se perder.

Nota 5:

Sobre a Reencarnação

Em suas obras faz o historiador judaico Josefo profissão de sua fé na reencarnação; refere ele que era essa a crença dos fariseus. O padre Didon o confirma nestes termos, em sua Vida de Jesus: “Entre o povo judeu e mesmo nas escolas acreditava-se na volta da alma dos mortos na pessoa dos vivos”.

É o que explica, em muitos casos, as perguntas feitas a Jesus por seus discípulos.

A propósito do cego de nascença, o Cristo respondeu a uma dessas interrogações:

“Não é que ele tenha pecado, nem seus pais, mas é para que nele se manifestem as obras de Deus.”

Os discípulos acreditavam que se podia ter pecado antes de nascer, isto é, numa existência anterior. Jesus compartilha da crença deles, pois que, vindo para ensinar a verdade, não teria deixado de retificar essa opinião, se errônea fosse. Ao contrário, a ela responde, explicando o caso que os preocupa.

O sábio beneditino Dom Calmet se exprime do seguinte modo em seu Comentário sobre essa passagem das Escrituras:

“Muitos doutores judeus acreditam que as almas de Adão, de Abraão, Fineias, animaram sucessivamente vários homens da sua nação. Não é, pois, de modo algum para estranhar que os apóstolos tenham raciocinado como parece raciocinarem aqui sobre a enfermidade desse cego, e que tenham acreditado que fora ele próprio quem, por algum pecado oculto, cometido antes de nascer, tivesse atraído sobre si mesmo semelhante desgraça.”

A respeito da conversação de Jesus com Nicodemos, um pastor da igreja holandesa nos escreve nestes termos:

“É claro que a reencarnação é o verdadeiro nascimento em uma vida melhor. É um ato voluntário do Espírito, e não o exclusivo resultado do contacto carnal dos pais; decorre da dupla resolução da alma de tomar um corpo material e tornar-se um homem melhor.”

“Repare-se como S. João (I, 13) nega abertamente a intervenção dos pais no nascimento da alma, quando diz: Que não são nascidos do sangue, nem da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”

“Todos esses pontos obscuros se iluminam de uma viva claridade, quando os consideramos no ponto de vista espírita.”

Na conversação de Jesus e Nicodemos, este, ouvindo o Cristo falar de renascimento, não compreende como possa ele ter lugar. Diante dessa estreiteza de espírito, Jesus fica perplexo.

Não lhe é possível dar ao seu pensamento a extensão e o arrojo próprios. Para ele a reencarnação representa o primeiro elo de uma série de mais transcendentes verdades. Era já conhecida dos homens desse tempo. E eis que um doutor em Israel nada percebe a tal respeito! Daí a apóstrofe de Jesus: Como! Se não compreendeis as coisas terrestres, poderei eu explicar-vos as coisas celestes, as que se referem particularmente à minha missão?

De todos os padres da Igreja, foi Orígenes quem afirmou, do modo mais positivo, em numerosas passagens dos seus Princípios (livro 1-), a reencarnação ou renascimento das almas. É esta a sua tese: “A justiça do Criador deve patentear-se em todas as coisas.”

Eis em que termos o abade Bérault-Bercastel resume a sua opinião:

“Segundo este doutor da Igreja, a desigualdade das criaturas humanas não representa senão o efeito do seu próprio merecimento, porque todas as almas foram criadas simples, livres, ingênuas e inocentes por sua própria ignorância, e todas, também por isso, absolutamente iguais. O maior número incorreu em pecado e, na conformidade de suas faltas, foram elas encerradas em corpos mais ou menos grosseiros, expressamente criados para lhes servir de prisão. Daí os procedimentos diversos da família humana.

Por mais grave, porém, que seja a queda, jamais acarreta para o Espírito culpado a retrocessão à condição de bruto; apenas o obriga a recomeçar novas existências, quer neste, quer em outros mundos, até que, exausto de sofrer, se submeta à lei do progresso e se modifique para melhor. Todos os Espíritos estão sujeitos a passar do bem ao mal e do mal ao bem. Os sofrimentos impostos pelo bom Deus são apenas medicinais e os próprios demônios cessarão um dia de ser os inimigos do bem e o objeto dos rigores do Eterno.” (História da Igreja, pelo abade Bérault-Bercastel.)

Lemos na Apologética de Tertuliano:

“Declare um cristão acreditar possível que um homem renasça noutro homem, e o povo reclamará em grandes brados que seja lapidado. Entretanto, se foi possível crer-se na metempsicose grosseira, a qual afirmava que as almas humanas voltam em diversos corpos de animais, não será mais digno admitir-se que um homem possa ter sido anteriormente um homem, conservando sua alma as qualidades e faculdades precedentes?”

S. Jerônimo, por sua vez, afirma que a transmigração das almas fazia parte dos ensinos revelados a um certo número de iniciados.

Em suas Confissões, diz Santo Agostinho:

“Não teria minha infância atual sucedido a uma outra idade antes dela extinta?... Antes mesmo desse tempo, teria eu estado em algum lugar? Seria alguém?”

Firmando este princípio moral: “Conforme a justiça divina, aqui neste mundo não pode existir um desgraçado que não haja merecido o seu infortúnio”, esse padre da Igreja faz pressentir a razão dos sofrimentos das crianças, a causa geral das provações que padece a Humanidade, assim como a das deformidades nativas.

A preexistência das almas à dos corpos em uma ou várias existências anteriores à vida terrestre explica essas aparentes anomalias, de tal sorte, repitamos, que os sofrimentos, segundo Orígenes – que adotara a tal respeito à opinião de Platão – seriam curativos da alma, correspondendo à necessidade simultânea da justiça e do amor, não nos sendo imposto o sofrimento senão para nos melhorarmos.

Nota 9:

Sobre o perispírito ou corpo sutil; opinião dos padres da Igreja

Às citações contidas em nosso estudo sobre a ressurreição dos mortos (cap. VI) acrescentaremos as opiniões de alguns padres da Igreja.

Tertuliano declara que a corporeidade da alma é afirmada pelos Evangelhos: “Corporalitas animae in ipso Evangelico relucescit”, porque – acrescenta ele – se a alma não tivesse um corpo, “a imagem da alma não teria a imagem dos corpos”. (Tratado De anima, caps. VII, VIII e IX, edição de 1657, pág. 8.)

S. Basílio fala do corpo espiritual, como Tertuliano o havia feito. Em seu tratado do Espírito Santo assegura ele que os anjos se tornam visíveis pelas espécies de seu próprio corpo, aparecendo aos que são dignos disso. (S. Basílio, Liber de Spiritu Sancto, capítulo XVI, edição benedict. de 1730, t. III, pág. 32.)

Essa doutrina era também a de S. Gregório, de S. Cirilo de Alexandria e de Santo Ambrósio. Assim se exprime este último:

“Não se suponha que ser algum seja isento de matéria em sua composição, excetuada unicamente a substância da adorável Trindade.” (Abraham, liv. II, § 58, ed. benedic. de 1686, t. 1, col. 338.)

S. Cirilo de Jerusalém escreve:

“O nome espírito é um nome genérico e comum: tudo o que não possui um corpo pesado e denso é de um modo geral denominado espírito.” (Catechesis, XVI, ed. benedic. de 1720, págs, 251, 252.)

“Em outras passagens atribui S. Cirilo, quer aos anjos, quer aos demônios, quer às almas dos mortos, corpos mais sutis que o corpo terrestre: Cat. XII, § 14; Cat. XVIII, § 19.” (Obra citada, pág. 252. Nota do beneditino Dom A. Toutée.)

Evódio, bispo de Uzala, escreve em 414 a Santo Agostinho, inquirindo-o acerca da natureza e causa de aparições de que lhe dá muitos exemplos, e para lhe perguntar se depois da morte:

“Quando a alma abandonou este corpo grosseiro e terrestre, não permanece a substância incorpórea unida a algum outro corpo, não composto dos quatro elementos como este, porém, mais sutil, e que participa da natureza do ar ou do éter?”

E assim termina a sua carta:

“Acredito, portanto, que a alma não poderia existir sem corpo algum” (Obra de Santo Agostinho, edição benedict. de 1679, t. 11, carta 158, col. 560 e seguintes.)
Ver também a carta de Santo Agostinho a Nebrido, escrita em 390, em que o bispo de Hipona assim se exprime:

“Necessário é te recordares de que agitamos muitas vezes, em discussões que nos punham excitados e sem fôlego, essa questão de saber se a alma não tem por morada alguma espécie de corpo, ou alguma coisa análoga a um corpo, que certas pessoas, como sabes, denominam o seu ‘veículo’.” (Santo Agostinho, op. cit., t. II, carta 14, cols. 16 e 17.)

Diz S. Bernardo:

“Atribuiremos, pois. com toda a segurança unicamente a Deus a verdadeira incorporeidade, assim como a verdadeira imortalidade; porque, único entre os espíritos, ultrapassa toda a natureza corporal, o suficiente para não ter necessidade do concurso de corpo algum para qualquer trabalho, pois que só a sua vontade espiritual, quando a exerce, tudo lhe permite fazer.” (Sermão VI in Cantica, ed. Mabillon, t. I, col. 1277.)

Finalmente, S. João de Tessalônica resume nestes termos a questão, em sua declaração ao segundo concílio de Nicéia (787), o qual adotou as suas opiniões:

“Sobre os anjos, os arcanjos e as potências, – acrescentarei também – sobre as almas, a Igreja decide que esses seres são na verdade espirituais, mas não completamente privados de corpo, ao contrário, dotados de um corpo tênue, aéreo ou ígneo. Sabemos que assim têm entendido muitos santos padres, entre os quais Basílio, cognominado o grande, o bem-aventurado Atanásio e Metódio e os que ao lado deles são colocados.

Não há senão Deus, unicamente, que seja incorpóreo e sem forma. Quanto às criaturas espirituais, não são de modo algum incorpóreas.” (História Universal da Igreja Católica, pelo abade Rohrbacher, doutor em Teologia, tomo XI, págs. 209, 210.)

Um concílio, realizado no Delfinado, na cidade de Viena, em 3 de abril de 1312, sob Clemente V, declarou heréticos os que não admitissem a materialidade da alma. (O Espiritualismo na História, de Rossi de Giustiniani.)

Acreditamos dever lembrar essas opiniões, porque constituem outras tantas afirmações em favor da existência do perispírito. Este não é realmente outra coisa senão esse corpo sutil, invólucro inseparável da alma, indestrutível, quanto ela, entrevisto pelas autoridades eclesiásticas de todos os tempos.

Essas afirmações são completadas pelos testemunhos da ciência atual. As sucessivas pesquisas da Sociedade de Investigações Psíquicas, de Londres, evidenciaram mil e seiscentos casos de aparições de “fantasmas” de vivos e de mortos.

A existência do perispírito é, além disso, demonstrada por inúmeras moldagens de mãos e de rostos fluídicos materializados, pelos fenômenos de exteriorizações e desdobramentos de vivos, pela visão dos médiuns e sonâmbulos, por fotografias de falecidos, numa palavra, por um imponente conjunto de fatos devidamente comprovados. (Ver nota número 12.)

Certos escritores católicos confundem voluntariamente a ação do perispírito e suas manifestações depois da separação do corpo humano com a idéia da “ressurreição da carne”. Já fizemos notar que essa expressão raramente se encontra nas escrituras. Aí, de preferência, se encontra a de “ressurreição dos mortos”. (Ver, por exemplo, I Coríntios, XV, 15 e seguintes.)

A ressurreição da carne se torna impossível pelo fato de que as moléculas componentes do nosso corpo atual pertenceram no passado a milhares de corpos humanos, como pertencerão a milhares de outros corpos no futuro. No dia do juízo, qual deste poderia reivindicar a posse dessas moléculas errantes?

A ressurreição é um fato espírita, que só o Espiritismo torna compreensível. Para o explicar, são os católicos obrigados a recorrer ao milagre, isto é, à violação, por Deus, das leis naturais por ele próprio estatuídas.

Como, sem a existência do perispírito, sem a dupla corporeidade do homem, poder-se-iam explicar os numerosos casos de bilocação relatados nos anais do Catolicismo?

Afonso de Liguóri foi canonizado por se haver mostrado simultaneamente em dois lugares diferentes.

Santo Antônio defende seu pai de uma acusação de assassínio perante o Tribunal de Pádua, e denuncia o verdadeiro culpado, no momento mesmo em que pregava na Espanha, em presença de grande número de fiéis.

S. Francisco Xavier se mostra várias vezes à mesma hora em lugares muito distantes entre si.

É possível deixar de ver nesses fatos casos de desdobramento do ser humano e a ação, à distância, do seu invólucro fluídico? O mesmo sucede com os numerosos casos de aparições de mortos, mencionados nas Escrituras. Eles não são explicáveis senão pela existência de uma forma semelhante a outra que na Terra o Espírito possuía, mais sutil, porém, e mais tênue, e que sobrevive à destruição do corpo carnal. Sem perispírito, sem forma, como poderiam os Espíritos fazer-se reconhecer pelos homens? Como se poderiam eles, no espaço, entre si reconhecer?

Léon Denis

Ver no site a obra de Herculano Pires "Revisão do Cristianismo"

Ver no site a obra de Herculano Pires "Visão Espírita da Bíblia"

Fontes: A Luz na Mente - Revista On line de Artigos Espíritas (Coerência da Lei Divina ante a reencarnação)

Fontes: A Luz na Mente - Revista On line de Artigos Espíritas (Se há tantas evidências a favor da reencarnação por que negá-la?)

"A doutrina da reencarnação, que consiste em admitir para o homem muitas existências sucessivas, é a única que corresponde a idéia da justiça de Deus, com respeito aos homens de condição moral interior; a única que pode explicar o nosso futuro e fundamentar as nossas esperanças, pois oferece-nos o meio de resgatarmos os nossos erros através de novas provas. A razão assim nos diz, e é o que os Espíritos nos ensinam."

Allan Kardec "O Livro dos Espíritos"

E, descendo eles do monte, Jesus lhes ordenou, dizendo: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do homem seja ressuscitado dentre os mortos.

E os seus discípulos o interrogaram, dizendo: Por que dizem então os escribas que é mister que Elias venha primeiro?

E Jesus, respondendo, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e restaurará todas as coisas;

Mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim farão eles também padecer o Filho do homem.

Então entenderam os discípulos que lhes falara de João o Batista.

(Mateus 17: 9-13)

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Textos Introdutórios da Obra "Cristianismo e Espiritismo" de Léon Denis (Por Henri Regnault o Biografo de Léon Denis)

 

Léon Denis - Cristianismo e Espiritismo PDF

 

Léon Denis - Cristianismo e Espiritismo DOC

 

Léon Denis - Christianisme et Spiritisme (1898) (Fr)