J. Larkin

UM CÉLEBRE MÁRTIR DAS PESQUISAS DA MEDIUNIDADE

OS PRECURSORES DA DOUTRINA ESPÍRITA

(Ernesto Bozzano - Remontando as origens)

Biografia de J. Larkin:

Em 1848, a pequena Aldeia de Hydesville, nos Estados Unidos, foi abalada por fenômenos espíritas que se originaram no seio da família Fox e vinham, por certa forma, estabelecer uma nova orientação na vida dos homens, entregues à materialidade.

Já anteriormente, entre 1837 e 1847, o Dr. J. Larkin, médico na Cidade de Wrenthan, Massachusetts, interessado nos fenômenos do magnetismo, obtivera uma série de fenômenos transcendentes, tão maravilhosos, ou talvez ainda mais, que os verificados em Hydesville.

Fala-se dele e das suas experiências nas revistas espíritas que apareceram nos Estados Unidos no começo do movimento. A revista "The Spiritual Telegraph" (1852-1857) reivindica para ele o direito de ser registrado entre os precursores mais notáveis do Espiritualismo Moderno. Entre os historiadores do movimento, a Sra. Emma Hardinge-Britten é a única a citá-lo em sua obra Modern American Spiritualism.

Eis, em resumo, a história do caso em questão.

Pelo ano de 1837, o Dr. J. Larkin, um na cidade de Wrentham (Massachusetts), começou a interessar-se pelos fenômenos do “Magnetismo Animal”, visando nele o que podia ser utilizado para tratamento das enfermidades. E não tardou a perceber que ele próprio era dotado do poder necessário a tornar-se operador.

No decurso de suas experiências metódicas, teve ocasião de observar que os seus sonâmbulos não somente eram capazes de diagnose, de prognóstico e de prescrições muito eficazes para o tratamento de seus doentes, mas que, de tempos em tempos, eles se aventuravam em excursões espantosas no passado e no futuro de seus pacientes.

Em 1844, uma jovem doméstica, chamada Mary Jane, que ele tomara ao seu serviço, passou a ter graves síncopes que procurou tratar pelo magnetismo animal. Registrou primeiramente uma melhora sensível nas suas condições de saúde, mas, após algum tempo, começou a mostrar-se clarividente, de forma a descrever minuciosamente a gênese e as fases atuais e futuras de sua própria doença e das moléstias dos clientes do doutor.

Quando o Dr. Larkin deparava casos de enfermidades difíceis de diagnosticar, mergulhava Mary Jane em estado de sonambulismo por meio de passes magnéticos e logo a moça fornecia-lhe, minuciosamente, o diagnóstico da enfermidade, acrescentando a prescrição médica cujo efeito era infalível.

O Dr. Larkin, que era um pesquisador meticuloso e sistemático, transcrevia esses dados em um registro especial, no qual, no decurso de alguns anos, acumulou informações biográficas relativas a acontecimentos da existência terrestre de 270 espíritos de mortos, informes que se encarregava de investigar alternadamente, concluindo sempre pela veracidade dos dados obtidos, até mesmo nas circunstâncias mais insignificantes, o que triunfou sobre o seu cepticismo, levando-o à convicção de que espíritos de pessoas mortas se comunicavam por intermédio de sua sonâmbula, Mary Jane, conclusão que tinha a grande vantagem de resolver, definitivamente, outras questões de difícil interpretação até então impenetráveis à razão do Dr. Larkin. Esta, por exemplo: embora a sonâmbula fosse iletrada e desprovida de imaginação, quando falava sob a influência de certas personalidades, sua conversa tornava-se impecável pela forma e maravilhosa pela elevação do pensamento. Em outras ocasiões, ela mostrava possuir vocabulário tecnológico científico e filosófico.

Ainda que as personalidades dos mortos, que se manifestavam assim, pertencessem a todas as classes da sociedade, elas se mostravam acordes em exortar o médico a fazer conhecer publicamente as manifestações espíritas que se verificavam em sua casa e insistiam para que convidasse pessoas a assisti-las, porque, diziam elas, havia soado a hora em que os homens deviam se convencer, pelos fatos da existência e da sobrevivência da alma.

A esse propósito, elas prediziam o início iminente de uma época em que a humanidade inteira reconheceria a possibilidade de se comunicar com os espíritos dos mortos e em que essas comunicações seriam livremente praticadas em todas as regiões da Terra, época de transformação e de renovação para o progresso dos povos.

Em dezembro de 1847, nove senhores, dirigidos por um pastor protestante, se apresentaram no domicílio do Dr. Larkin, declarando-se representantes de uma Comissão de Inquérito constituída com o fim de investigar os boatos escandalosos que circulavam na cidade, envolvendo práticas ocultas que tinham lugar na casa.

O Dr. Larkin indignou-se com essas exigências e recusou responder, porém ofereceu-se a hospedar em seu lar, durante uma semana, duas ou três pessoas indicadas pela Comissão.

Resultou daí que, durante vários meses, a infeliz moça foi torturada dia e noite por toda sorte de imposições insolentes e audaciosas, por ordens peremptórias para que evocasse tal ou qual espírito indicado pelos inquisidores ou deslocasse os seus próprios membros ou ainda que reproduzisse, de imediato, os fenômenos de batidas, ruídos, deslocamentos de móveis, transportes de objetos.

Não podendo suportar por mais tempo tais vexames, o médico reuniu finalmente um pouco de energia e declarou aos inquisidores improvisados que exigia se fizessem investigações sistemáticas, de maneira científica. Se não visse atendida a sua proposta, não permitiria mais que se introduzisse, na casa dele, quem quer que fosse. A firmeza do Dr. Larkin teve um feliz resultado, pois os inquisidores aceitaram a sua proposta. Indicaram para uma empreitada de uma semana, o Rev. Thatcher e a sua esposa.

Alguns dias depois, o Rev. Thatcher enviou uma circular a todos os pastores protestantes da região, descrevendo-lhes os fenômenos aos quais havia assistido, confessando-lhes, circunspectamente sua convicção de que tinham origem sobrenatural. Esclareceu que o Dr. Larkin e a sua família não eram culpados de nenhuma fraude, de nenhuma mistificação, de nenhuma conivência, e que os fenômenos produzidos em sua casa eram dignos de “uma investigação científica séria e cuidadosa”, acrescentando que todo pesquisador tinha o dever de entregar-se a esses estudos com espírito sereno, despojando-se de toda prevenção, de toda idéia preconcebida, e pedia a formação de uma comissão de inquérito composta de ministros do culto.

“Nenhum dos interessados levou em consideração a circular do Rev. Thatcher e, alguns dias depois, o Rev. Horace James – cujo nome é digno de ser transmitido à posteridade por sua infâmia – avocou a si os poderes legais e civis necessários para liquidar a questão. Foi o verdadeiro difamador da família Larkin, cujo chefe quis aniquilar a qualquer preço.

A infeliz Mary Jane foi declarada culpada de necromancia e, embora fosse uma doente, viu-se condenada a dois meses de prisão, em cela reservada, na cadeia de Dedhan. Não se achando no Código Penal nenhum artigo que pudesse condenar o Dr. Larkin, foi-lhe infligida uma penalidade moral que, em face da época e da região em que tudo isso se passou, importava em sua ruína: foi expulso da Igreja à qual pertencia, até que se decidisse a fazer uma retratação completa das práticas sacrílegas nas quais havia tomado parte. Tudo isso significava o Anathema Maranatha para o Dr. Larkin, isto é, a sua ruína profissional, comercial, social...

O pobre do médico aguentou, com força d’alma, a sua desgraça por mais de um ano, mas o absoluto isolamento social em que vivia, sua ruína profissional, uma doença que atingiu a sua esposa, acabaram por abater a sua coragem, de modo que terminou por pedir aos seus perseguidores que lhe apresentassem o documento de retratação. Ele assinaria!

Alguns dias depois, o Rev. Horace James chegava com o documento fatal. Antes de o assiná-lo, o médico achou-se no dever de lê-lo. Exigia-se que declarasse ser falso que os espíritos dos mortos pudessem comunicar-se com os vivos por meio de sinais, sons, vozes ou do sono sonambúlico e que todas as provas que ele, Dr. Larkin, havia apresentado, nesse sentido, eram falsas; e que agora, arrependido, decidia, solenemente, confessar a verdade.

Lendo tal infâmia, o infeliz médico dirigiu-se ao Rev. James declarando que acreditava firmemente na comunicação dos mortos com os vivos, fato verificado centenas de vezes, que renovava ainda uma vez mais a declaração de sua convicção firme e inabalável. Sendo esse em consciência, o seu estado de espírito, era impossível que o Rev. James quisesse exigir dele a assinatura de uma peça que o transformaria em um vil mentiroso em face do próprio Rev. James e que, além disso, torná-lo-ia indigno de levar o nome de cristão.

Alguns meses depois, a Sra. Larkin falecia e o médico, tendo necessidade de reconforto, retomava as suas experiências com a sonâmbula Mary Jane, obtendo admirável série de manifestações da morta. Apesar do Rev. James e da infâmia por ele cometida, essas sessões serviram para convencer numerosas pessoas da realidade incontestável das comunicações entre os vivos e os mortos. Entre eles contavam-se não somente vários membros da congregação do Rev. James, mas, igualmente, algumas outras pessoas que haviam representado importante papel nas perseguições contra o Dr. Larkin e na sua condenação.

O espírito da morta prometera ao marido que o guiaria e protegeria afetuosamente durante os anos que lhe restariam de peregrinação na Terra e manteve a sua palavra. Entre outros episódios, seus avisos serviram por duas vezes para salvar a vida do médico e de vários dos seus amigos, fazendo-os evitar que se achassem em dois desastres de estrada de ferro que se verificaram, quase simultaneamente, no território.

***

Não nos esqueçamos de que um ano depois, verificaram-se, numa região vizinha, os famosos raps de Hydesville com as irmãs Fox, os quais marcaram a aurora definitiva do neo-espiritualismo, o que bem demonstra que as mais ferozes perseguições obscurantistas, calculadas com o fim de empanar a verdade, não atingem o seu propósito e que não servem senão para criar mártires, o que constitui uma lei impenetrável dirigindo a evolução espiritual humana.

Fontes: Ernesto Bozzano - Remontando as origens

Ver no site as Irmãs Fox (As Pioneiras da Doutrina Espírita)

Ver no site Jonathan Koons (Círculo da Família Koons)

Ver no site Emma Hardinge Britten

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Fidedignidade Kardequiana)

Fontes: Artigos Espíritas Paulo Neto

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

 Biografia de J. Larkin

 

Ernesto Bozzano - Remontando as origens (Ver o autor J. Larkin)

 

Emma Hardinge Britten - Modern American Spiritualism (Ver a História do Espiritismo em seus primeiros anos nos EUA)