SIR WILLIAM CROOKES

DISCURSOS RECENTES SOBRE AS PESQUISAS PSÍQUICAS

 

SIR William Crookes

Discours récents sur les recherches psychiques

 

 TRADUITS PAR M. SAGE

 

PARIS

P.- G. LEYMARIE, ÉDITEUR

42, RUE SAINT JACQUES, 42

1903

 

OBRA RARA TRADUZIDA

 

Tradutora do Francês para o Português

Fabiana Rangel

 Prefácio da obra:

William Crookes foi um notável físico e químico britânico que, tendo sido membro da Sociedade Real de Ciências (Royal Society) dela foi presidente. Diante dos extraordinários fenômenos que deram origem ao Espiritualismo Moderno, se viu na necessidade de averiguar a veracidade das supostas manifestações espirituais e dar um posicionamento acadêmico.

Crookes investigou pessoalmente os mais célebres médiuns de seu tempo, sob as condições de pesquisa por ele estabelecidas — conforme os mais rigorosos métodos da ciência — e, por conclusão, ele constatou a “existência de uma nova força, conectada com o organismo humano de alguma maneira desconhecida”.

O relatório final de sua pesquisa acerca da mediunidade foi rechaçado na Sociedade Real e acabou arquivado. Cogitou-se inclusive a desfiliação de Crookes daquela entidade. Contudo, seu testemunho permaneceu inabalado até o fim de sua encarnação, pelo que seu nome é lembrado como um emérito contribuinte da causa espiritual e, ainda que indiretamente, do Espiritismo.

Começou suas experiências famosas com Daniel Dunglas Home; depois a ele foi proporcionado observar de muito perto fenômenos ainda mais surpreendentes, por intermédio da srta. Florence Cook, que, mais tarde, tornou-se sra. Corner.

“Não falar de minhas experiências psíquicas seria uma covardia, e eu não me disponho a isso; dizia Crookes a Bristol diante do Congresso da Associação Britânica pelo avanço das Ciências,”.

No dia 29 de janeiro de 1897, Crookes fez o seguinte pronunciamento diante da Sociedade para Pesquisas Psíquicas do qual presidia.

“Tenho consciência de que uma grande responsabilidade pesa sobre mim ao pronunciar um discurso, com a autoridade que confere o título de presidente, sobre uma ciência que, ainda que apenas iniciante, parece-me ser tão importante quanto qualquer outra ciência. As pesquisas psíquicas, tais como procuramos compreender aqui, são o embrião de algo que com o tempo pode chegar a dominar o mundo inteiro do pensamento.”

“Dirigirei de início aos que, como eu, creem que a individualidade humana sobrevive à morte. Eu não posso deixar de acreditar que a Matéria, a Forma, o Espaço não são mais do que condições temporárias da vida presente. É difícil conceber seres espirituais tendo um corpo como o nosso, condicionado pela atração terrestre, com órgãos que supõem a necessidade de alimento e de evacuar a matéria.”

“Nós fornecemos provas experimentais contundentes, mas poucos intelectuais ousaram repetir nossas experiências. Nós reunimos montanhas de observações de casos espontâneos, tal como aparições no momento da morte; mas, todas essas provas não produziram no mundo científico mais do que a impressão de provas bem menos cautelosas reunidas e bem menos coerentes que as produzidas em outros casos. Não somente não refutou nossas provas, sequer as examinaram.”

“Ficarei contente se conseguir tirar algumas pedras de tropeço científicos, se eu puder assim me expressar, que tendem a impedir colaboradores eventuais de se aventurarem sobre essa nova e ilimitada rota. Eu não vejo razão para que um homem de ciência feche os olhos para os nossos trabalhos e os descarte deliberadamente.”

“Eu ouso afirmar que tanto pelo registro cauteloso de fatos novos e importantes quanto pelo interesse que esses fatos oferecem, os trabalhos e as publicações de nossa Sociedade formarão o prefácio inestimável de uma ciência mais profunda que nenhuma daquelas a que esse planeta já viu eclodir, tanto pelo conhecimento do homem quanto pelo da natureza e de outros mundos dos quais ainda não temos nenhuma ideia.”

Um ano após, em 1898, Crookes fez o célebre discurso em Bristol, no Congresso da Associação Britânica pelo avanço das ciências do qual presidia:

“Trinta anos se passaram desde que eu publiquei os relatos de experiências, procurando demonstrar que existe uma força utilizada por Inteligências outras que não as ordinárias Inteligências humanas. Esse episódio de minha vida é naturalmente bem conhecido dos que me deram a honra de ser convidado a me tornar seu presidente.”

“Não tenho o direito de insistir aqui sobre uma matéria ainda sujeita a controvérsias, sobre uma matéria que, como Wallace, Logde, Barret já mostraram, não chama a atenção da maioria dos intelectuais, meus colegas, ainda que ela seja nem um pouco indigna de discussões de congressos como este.”

“Não tenho nada a retratar. Eu afirmo minhas declarações já publicadas. Eu poderia mesmo acrescentar um bocado a elas. Em suas primeiras exposições, eu não me arrependo senão de uma certa imaturidade que, sem dúvida por direito, foi uma das causas pelas quais o mundo científico negou aceitá-las.”

“Hoje eu creio que eu vejo um pouco mais longe. Eu entrevejo uma certa coerência nesses fenômenos estranhos e frustrantes. Se eu apresentasse hoje pela primeira vez essas pesquisas ao mundo científico, eu escolheria um ponto de partida diferente do que escolhi outrora. Seria bom começar pela telepatia, colocando, isso que creio ser uma lei fundamental, que os pensamentos e as imagens podem ser transportadas de um espírito a outro sem o recurso de órgãos do sentido, que os conhecimentos podem penetrar no espírito humano sem passar por nenhum dos caminhos até hoje conhecidos.”

“Se a telepatia existe, nós estamos na presença de dois fatos físicos: uma mudança física produzida no cérebro de A, o sujeito sugestionador, e uma mudança física análoga produzida no cérebro de B, o sujeito receptor da sugestão. Sabe-se que a ação do pensamento é acompanhada por alguns movimentos moleculares no cérebro e aqui nós temos as vibrações físicas capazes, por sua extrema pequenez, de agir diretamente sobre cada molécula, uma vez que sua rapidez se aproxima daquela dos movimentos internos e externos dos próprios átomos. Os fenômenos telepáticos são confirmados por muitas experiências convergentes e por inúmeros fatos espontâneos que não se pode explicar de outro modo.”

“Ao mesmo tempo, nosso conhecimento dos fatos dessa obscura região aumenta bastante devido aos trabalhadores de outros lugares. Para citar apenas alguns nomes entre um grande número, os trabalhos de Richet, de Pierre Janet na França, de Breuer e Freud na Áustria, de William James na América, mostraram de maneira chocante a que ponto uma paciente experimentação podia aprofundar operações subconscientes e nos fazer compreender as segundas personalidades e os estados anormais.”

“Nos velhos tempos egípcios, uma inscrição bem conhecida foi gravada acima do portal do templo de Isis: “Eu sou tudo o que foi, é ou será; e nenhum homem ainda elevou meu véu”. Firmemente, sem flexionar, esforçamo-nos para penetrar o coração dessa natureza, de saber o que ela foi e prever o que ela será. Elevamos já muitos véus e a cada novo véu que cai, sua face nos parece mais bela, mais augusta, mais maravilhosa.”

Brasília (DF) 15 de dezembro de 2017

Jorge Hessen

Introdução da obra:

Eu não tenho a audácia de apresentar Sir William Crookes aos leitores. Ele é um dos contemporâneos mais conhecidos e mais digno de sê-lo no mundo inadequadamente qualificado de civilizado, como se nosso planeta já tivesse tido uma civilização em algum lugar. Em todo caso, William Crookes é um desses homens, desses enviados talvez, que facilitam um pouco o terreno onde mais tarde crescerão civilizações.

Entretanto, eu quero dizer duas palavras sobre seu papel nas pesquisas psíquicas para os leitores que não tenham bem claro na memória esse papel. Por volta de 1870 o “espiritualismo moderno”, eclodido na América, tinha depois de um certo tempo cruzado o Atlântico e os fenômenos que experimentaram, intrigavam bastante a Inglaterra, mexendo muitas cabeças, ameaçando situações dadas e suscitando grande cólera.

Os homens de religião excomungaram, sem grande segurança sobre o resto, e todo o mundo, como ainda hoje, voltou-se para a Ciência, não para investigar a verdade qualquer que seja ela, mas para execrar essa “nova e perigosa superstição”: em geral, as velhas superstições não gostam das novas. A Sociedade Dialética partiu para a guerra e abriu uma pesquisa que foi ruim para os adversários do psiquismo nascente.

O público que tinha demandado esta enquete não quis aceitar as conclusões dela. Acima de outros sábios ingleses elevava-se já a figura de Crookes, ainda jovem. Tinha-se nele toda confiança: a opinião lhe pedia que dissipasse o pesadelo.

Colocavam-se na dependência de seu julgamento. Crookes, para descansar, teve o mal de acreditar nisso e, com uma independência de espírito muito rara, começou suas experiências famosas com Daniel Dunglas Home; depois a ele foi proporcionado observar de muito perto fenômenos ainda mais surpreendentes, por intermédio da srta. Cook, que, mais tarde, tornou-se sra. Corner, que infelizmente adquiriu péssima reputação por suas fraudes evidentes e grosseiras. Aqueles que não conhecem esses trabalhos poderão encontrar em Pierre-Gaëtan Leymarie os relatórios traduzidos do inglês e reunidos em um volume sob o título Força psíquica.

Todos estamos sujeitos a nos enganarmos. Aqueles que duvidam não são aqueles que, sobre a estrada infinita da evolução, alcançaram maior avanço do que outros. Apesar das precauções minuciosas de que se rodeou, William Crookes jamais pretendeu ser absolutamente infalível nessa circunstância. Mas nada conseguiu mostrar para ele de modo certeiro onde e como ele havia se enganado, a despeito da ira com a qual se tenta, de todos os lados, inspecionar suas experiências. Então, ele se voltou para sua primeira opinião, como ele mesmo nos dirá, em um dos discursos que seguem. Mas, muito razoavelmente, ele desdenhou dos ataques.

“Se eu tivesse querido responder aos críticos, escreveu ele recentemente ao Sr. Falcomer, um espírito italiano, meu tempo inteiro de trinta anos teria passado. Eu tenho coisa melhor a fazer”.

Em todo caso, há nesse homem algo de mais belo, mais admirável, que sua luminosa inteligência: é sua espetacular audácia.

“Não falar de minhas experiência psíquicas; dizia ele a Bristol diante do Congresso da Associação Britânica pelo avanço das Ciências, seria uma covardia, e eu não me disponho a isso.”

Toda sua vida ele pensou e agiu assim. Essa conduta contrasta singularmente com a covardia comum; muitas pessoas não ousam formular uma opinião porque têm medo de que seus namorados não queiram compartilhar ou porque têm medo de perder um bom posto de trabalho que ambicionam.

O que vocês querem, apesar de todas as nossas pretensões, nós não passamos de larvas de homens. Como se espantar tendo em vista que ignoramos nosso destino final? Investigar seriamente não nos provoca mais do que chateação. Varram esse problema para baixo do tapete, noventa e nove por cento de nossos contemporâneos varreriam.

O último escândalo ou a última fofoca, ver a última moda ou a última orgia, eis o que movimenta interesses! Imbecis que somos! Os espíritas abusaram do grande nome de Crookes, assim como abusaram do nome de todos os verdadeiros sábios que não desdenharam de constatar por si mesmos a realidade dos fenômenos psíquicos. Mas, o que ele poderia fazer? Em todo caso, ele jamais os encorajou na criação de suas quimeras absurdas. Muitos espíritas são crianças grandes que querem compreender tudo no Universo e tudo o mais, e que, assim como as crianças, aceitam a primeira explicação.

Os católicos têm uma prece um pouco mais maçante que outros de sua crença, a ladainha: Santa Gudule, orai por nós; santo Ursulin, orai por nós etc., etc., durante horas. Os espíritas poderiam ter o mesmo, talvez ficasse assim: Sábio Crookes, provai para nós; sábio Zollner, provai para nós etc., etc. Os argumentos exclusivamente fundados na autoridade de homens são bons para a teologia, não para a ciência. As experiências psíquicas de Crookes, Zollner e outros devem ser para nós uma suposição de verdade, nada mais. Busquemos, de nossa parte.

Jamais esqueçamos que, desde o começo, o psiquismo se dividirá em duas grandes correntes. De início, há a corrente religiosa, a dos espíritos jovens, tomando seus desejos por realidades, não admitindo um instante que algo no Universo seja inexplicável, a corrente onde se vota em um congresso a existência de Deus a pluralidade de vozes.

A segunda corrente foi a de sábios, espíritos maduros, a da Sociedade Dialética, Crookes, Gurney, Myers, da Sociedade para Pesquisas Psíquicas etc., etc. Esta última corrente vai se tornar o largo e majestoso rio da ciência de amanhã, a primeira retornará para o lugar de onde obteve em grande parte sua origem, às velhas mitologias.

Os pontífices da ciência de hoje, na maior parte, não terão feito nada pelo psiquismo, que eles sequer podem compreender. Mas o mundo não se renova neles. O mundo se renova como as plantas nos campos, por colheitas sucessivas. As colheitas seguem sem jamais se parecerem. Tenhamos, então, boa esperança. A caravana passa apesar dos latidos dos cães, dizem os árabes.

M. Sage

IMAGEM 01 - A foto mostra o espírito de Katie King junto do cientista Sir William Crookes. Esta foto ele jamais permitiu fosse divulgada. Nela vê-se o verso que o sábio escreveu sensibilizado pela beleza do espírito Katie King materializado.

"Numa sessão realizada ontem à noite Hackney (Londres, 29 de março de 1874). Katie nunca apareceu com tão grande perfeição. Durante perto de duas horas passeou na sala, conversando familiarmente com os que estavam presentes. Várias vezes tomou-me o braço, andando, e a impressão sentida por mim era a de uma mulher viva que se achava a meu lado, e não de um visitante do outro mundo; essa impressão foi tão forte, que a tentação de repetir uma nova e curiosa, experiência tornou-se-me quase irresistível."

IMAGEM 02 - Esta fotografia foi tomada pelo presidente da Royal Society, Sir William Crookes, e mostra o cirurgião Dr. James M. Gully na gravação do pulso de Katie King

"Uma noite, contei as pulsações de Katie; o pulso batia  regularmente 75, enquanto o da Srta Cook, poucos instantes depois atingia a 90, seu número habitual. Auscultando o peito de  Katie, eu ouvia um coração bater no interior e as suas pulsações  eram ainda mais regulares que as do coração da Srta. Cook,  quando, depois da sessão, ela me permitia igual verificação.

Examinados da mesma forma, os pulmões de Katie  mostraram-se mais sãos que os da médium, pois, no momento em que fiz a experiência, a Srta. Cook seguia tratamento médico  por motivo de grave bronquite".

Fontes: Canal Espírita Jorge Hessen (Documentário BBC - A Ciência e as Sessões Espíritas) (Science and the Seance)

Fontes: Vita Oltre la Morte (Documentario sulla vita di William Crookes)

Foi no ano de 1898, que Sir William Crookes em seu discurso de posse na presidência da British Association for the Advacement of Science (Associação Britânica pelo Avanço da Ciência), afirmou:

"Já se passaram trinta anos desde que publiquei um relatório dos experimentos tendentes a mostrar que fora de nosso conhecimento científico existe uma Força utilizada por inteligências que diferem da comum inteligência dos mortais... Nada tenho a me retratar. Confirmo minhas declarações já publicadas. Na verdade, muito teria que acrescentar a isto."

Sir William Crookes "O Grande Cientista do Invisível"

E numa entrevista na The International Psychic Gazette, em 1917, Sir William Crookes pronunciou:

"Nunca tive jamais qualquer ocasião para modificar minhas ideias a respeito. Estou perfeitamente satisfeito com o que eu disse nos primeiros dias. É absolutamente verdadeiro que uma conexão foi estabelecida entre este mundo e o outro."

(Fodor, N. - Encyclopaedia of Psychic Science, U.S.A.: University Books, 1974, p.70)

Sir William Crookes "O Grande Cientista do Invisível"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

William Crookes - Discursos Recentes sobre as Pesquisas Psíquicas PDF

 

William Crookes - Discours récents sur les recherches psychiques (1903) (Fr)