HUMBERTO MARIOTTI

O Homem e a Sociedade
numa Nova Civilização

Do Materialismo Histórico
a uma Dialética do Espírito

Tradução
J. L. OVANDO

Supervisão e Revisão
JOSÉ HERCULANO PIRES

 

Título do original castelhano:
PARAPSICOLOGIA Y MATERIALISMO HISTÓRICO
Editorial Victor Hugo - Buenos Aires - 1963

 

Prefácio da obra:

UMA FILOSOFIA DA AÇÃO

A práxis marxista encontra neste livro uma crítica serena. E porque é serena, simpática. Humberto Mariotti não se inscreve na fileira dos críticos gratuitos ou políticos do marxismo. Sua intenção é descobrir a verdade social, como foi a intenção de Marx.

Por isso mesmo, a critica a Marx e sua doutrina não é o objeto deste livro, mas apenas o acessório. Aparece circunstancialmente, nos momentos, em que a visão da problemática social, submetida ao critério avaliativo da dialética espírita, ressalta ao mesmo tempo os acertos e os desacertos da sistemática materialista.

Se Marx acreditou que a dialética de Hegel estava de ponta-cabeça, Mariotti não pensou isso da práxis marxista, mas procurou socorrê-la nas suas deficiências.

Seu capítulo sobre Marx e Kardec, antecedido de um sobre marxismo e Espírito, deixa isso bem claro. Longe do sectarismo e, portanto, da paixão, fugindo aos simples jogos de palavras, enfrentando as proposições revolucionárias com lucidez filosófica, Mariotti é a antítese dos críticos interesseiros. Sua crítica se define no campo do paralelismo, na busca de elementos esclarecedores, no confronto positivo, como se vê nesta corajosa afirmação: “Karl Marx e Allan Kardec encarnam nos novos tempos as duas grandes inquietudes do pensamento contemporâneo: o fenômeno social e o fenômeno espiritual”.

Para Mariotti, a concepção marxista do homem se ressente do aspecto fundamental, que é o espiritual. A concepção kardeciana supre essa falha, não mais em termos abstratos, como no velho idealismo, mas em termos concretos e, portanto, existenciais.

É o homem-espírito de Kardec que dá sentido histórico e moral ao homem-econômico de Marx. E temos assim um novo homem, constituindo-se em pessoa humana, cuja responsabilidade não se restringe a uma classe, a uma determinada categoria social, mas se abre na perspectiva de um humanismo universal e ativo. Ao encarar essa nova dimensão do homem, ao superar com essa síntese os conflitos do passado e do presente, Mariotti enfrenta o último aliado do marxismo, que é o existencialismo de Sartre.

Reconhece a validade do método existencial de abordagem da problemática do Ser, mas demonstra que o Ser não pode estar compreendido nos limites efêmeros da existência. O homem do mundo não é para ele o alfa e o ômega da reflexão sobre o Ser, mas apenas a porta de entrada para a solução do grande problema.

À maneira de Heidegger, é por essa porta que ele entra, certo de que a problemática humana, em seu aspecto imediatista, não nos oferece a existência em si, mas tão somente uma forma de existência. O existir, na verdade, é uma função do Ser, nele implicada e jamais a implicá-lo. Ser e existir se mostram na sua realidade concreta, não apenas verbal, mas como entes que se fixam no fluir da duração, recortando-se no tempo.

De ambos resulta, na dialética espírita de Mariotti, o ente social, que na forma da rés ou coisa do fato social de Durkheim, constitui a sociedade. Na perspectiva existencial em que nos encontramos é mais fácil a redução (evidentemente fenomenológica) do Ser ao ente, para depois, através do ente, remontarmos ao Ser. A lei dialética da negação da negação deve ser aplicada em sua plenitude, completando-se na reversão final, que Sartre não quis fazer, para que a problemática do Ser se esclareça.

Da mesma maneira, o problema social, que se entranha naquela problemática, só encontra solução no momento em que o revertemos do social ao moral, através do ontológico. Daí o interesse de Mariotti pela parapsicologia, que é o instrumento adequado, no campo das ciências positivas, para arrancar o mundo contemporâneo do organocentrismo em que se fechou. As pesquisas parapsicológicas quebram a casca dessa concepção materialista que reduz o homem ao seu organismo, permitindo ao investigador tocar com o dedo a anima, essa ideia platônica que se projeta na existência como para-si, não para frustrar-se na morte, como quer Sartre, mas para nela completar-se, como percebeu Heidegger.

O destino do homem não é a frustração da morte, mas a vitória da vida, conquistada na existência. Por isso, a existência não é uma inconsequência, mas uma responsabilidade que só se pode medir em função do Infinito.

Do Ser concreto que anima o homem, que lhe dá o movimento e a consciência entre as coisas, e que por isso mesmo o destaca das coisas, Mariotti parte para o universo moral, que é uma consequência natural, e portanto lógica e necessária, do processo de projeção do Ser na existência. Existir é realmente transcender, como ensina Karl Jaspers, e a transcendência se faz em dois sentidos: o horizontal, que é o fenômeno social, e o vertical, que é o fenômeno espiritual. No primeiro, temos a sociedade e todas as suas implicações; no segundo, a moralidade e sua atualização palingenésica.

O social se resolve em moral quando a existência não se fecha no círculo vicioso dos valores materiais. Porque a finalidade mesma da existência é promover “a desmaterialização dos valores econômicos e materiais”. Mas isto só é possível através da moralização crescente do homem, que se verifica, como podemos ver na história, em razão inversa da acumulação egoísta dos valores materiais.

Assim, a história se reverte em palingenesia, essa antiga e nova forma do futuro, era que o passado e o presente se fundem numa supra-realidade, precisamente aquela em que surge a possibilidade da síntese em-si-para-si, que Sartre nega. Mas o em-sipara-si não é apenas aspiração, não é um sonho ou um possível arquétipo, e sim uma realidade crescente, que se atualiza em nós mesmos à proporção em que o captamos em nossa percepção consciente da vida.

Os exemplos históricos nos mostram essa realidade inegável, mas até agora obscurecida pelo dogmatismo fideísta das religiões e pelo dogmatismo cético das ciências. Curioso notar como a dialética de Mariotti segue a linha hegeliana e ao mesmo tempo se confirma na tese marxista. O que mostra que Marx, em vez de pôr a dialética de Hegel em pé, apenas acolheu-se à sua sombra. Porque a sombra da dialética espiritual de Hegel é a realidade histórica em que ela se projeta. Mariotti se recusa a contemplar as sombras da caverna de Platão, preferindo romper os grilhões do materialismo histórico para ver as coisas reais do mundo à plena luz do sol.

É assim que ele nos oferece a dialética do Espírito, em que o movimento da vida não se reduz à agitação inconsequente do sensível, mas se expande na serenidade responsável do inteligível. Nessa nova dialética, que é a síntese das anteriores, que faz do movimento o meio de transição e o ponto de encontro do espírito e da matéria, as divergências ideológicas do mundo contemporâneo, — simples equívocos do pensamento, em seu processo dialético de atualização, — são absorvidas numa nova forma conceptual.

A tônica dessa nova concepção é a realidade espiritual do povo, é o povo tomado como a comunhão de consciências de que nos fala René Hubert, o povo construindo a República dos Espíritos (a que alude o mesmo Hubert), o povo na sua plenitude democrática determinada pela igualdade espiritual do Ser, que anima todos os entes e em consequência o ente social. Partindo, assim, do Ser, essa abstração verbal, essa figura gramatical do espiritualismo alienado ao dogmatismo fideísta, Mariotti atinge a realidade concreta do Ser no individual e no social.

É a este Ser, que no ente do homem representa o próprio homem, que compete agir para libertar-se do egocentrismo escravizador, para superar o egoísmo que o coisifica entre as coisas do mundo. A história, como suceder temporal das coisas (os fatos sociais tomados também como coisas) transforma-se na metamorfose espiritual do homem e da sociedade. Ao materialismo histó- rico, que coloca a sua ênfase nos valores econômicos, sucede a dialética do Espírito, que desmaterializa os valores contingentes para transformá-los em valores eternos do espírito.

A atualização que Marx pretendeu realizar na transformação material do mundo, evitando a fuga espiritual das religiões, Mariotti realiza na transformação espiritual do homem. Porque o homem é o mundo, e uma filosofia da ação, que transforma a potência em ato, não pode contar apenas com a vontade de potência, mas também e sobretudo com a consciência moral. Mariotti anuncia, assim, o homem e a sociedade numa nova civilização, que não surgirá por acaso, mas através da vontade consciente do homem atual, que é o único possível construtor do futuro.

Os valores existenciais projetam-se além da existência, porque esta é apenas um ente, um fenômeno, um momento na duração, que pode converter-se no instante kierkegaardiano, ligando o finito ao infinito. As injustiças sociais, geradas pela brutalidade egocêntrica, não podem ser sanadas por uma brutalidade sociocêntrica. Só um homem-humano poderá construir uma sociedade humana. A filosofia da ação que o espiritismo nos oferece é o caminho dessa realização, mas esse caminho só pode ser seguido pelos espíritas conscientes da responsabilidade doutrinária.

É por esse motivo que Mariotti insiste na distinção entre o espiritualismo misoneísta que, como o ocultismo alemão, serviu ao nazismo, e o espiritualismo participante que penetra a alma do povo e a ela se liga, resultando no fenômeno da mediunidade social, condutora dos povos. Os espíritas que temem os problemas sociais e políticos pertencem ao primeiro tipo, são misoneístas extraviados no seio de um movimento espiritual renovador do mundo. Mas a participação espírita não é partidária, nem é política no sentido comum do termo. A revolução espírita não é um ato de violência, nem pode aceitar a violência, que é a negação do princípio de fraternidade, um crime contra o amor.

Só a consciência da responsabilidade doutrinária, que resulta do conhecimento e da vivência da doutrina espírita, arma o homem para enfrentar a nova perspectiva política e revolucionária do espiritismo. Mariotti acentua que a revolução espírita supera todas as anteriores, que transformaram sucessivamente o mundo. “Com o espiritismo, — adverte, — haverá um encadeamento dialético do Céu com a Terra.

Os homens e as almas se unirão e as portas do Infinito se abrirão aos heróis e aos lutadores, como um novo cenário para a divina palingenesia de todos os seres. A humanidade, individual e coletivamente, recuperará a memória do Eterno, tornando-se consciente do seu papel no grande plano da evolução universal”. As formas de ação do espiritismo não se conformam com as do homem-mortal. São as formas de ação do homem-imortal que levam em consideração não apenas o imediato, mas também o futuro.

A filosofia da ação que este livro nos apresenta é de natureza cósmica, mas, como dizia Léon Denis, considerando um Cosmos em que a matéria se conjuga com o espírito e o tempo com a eternidade. A participação do espírita não quer dizer engajamento político ou ideológico, mas compreensão e vivência dos princípios de fraternidade, em favor ao mesmo tempo de vítimas e algozes, pois tanto é escravo da miséria o pobre explorado quanto o rico explorador.

Esta nova mensagem, — que é tão velha quanto o mundo, mas só agora começa a tornar-se acessível à compreensão humana, — precisa ser meditada pelos espíritas conscientes de sua responsabilidade doutrinária. E ninguém melhor do que Mariotti para ajudá-los nessa meditação.

 J. Herculano Pires

Fontes: Canal Espírita Jorge Hessen (Herculano Pires - Programa - No Limiar do Amanhã) - No Limiar do Amanhã ia ao ar aos sábados à noite e obteve sucesso imediato em São Paulo. A Rádio Mulher passou a reprisá-lo aos domingos, pela manhã. A Rádio Morada do Sol, de Araraquara e a Rádio Difusora Platinense, de Santo Antônio da Platina, no Paraná, retransmitiram-no, também, com expressiva audiência. O vigoroso programa prestou inestimável serviço à doutrina espírita durante três anos e meio. (1971 - 1973)

 

"Esta religião da verdade e ciência se chama Espiritismo"

Giuseppe Garibaldi "Revolucionário Italiano"

"Através desse livro de Mariotti a sociedade pôde conhecer o genuíno pensamento social espírita contido na obra de Allan Kardec e as ideias do grande sociólogo espírita portenho Manuel S. Porteiro, do qual foi amigo, companheiro e fiel seguidor. A feição social do espiritismo é muito bem exposta, baseada nos estudos sociais de Allan Kardec, Léon Denis, Cosme Mariño e tantos outros pensadores sociais da América Latina e do Velho Mundo, ainda desconhecidos da grande maioria dos espíritas."

Eugenio Lara "PENSE - Pensamento Social Espírita"

 

 

 

 

Humberto Mariotti

O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização