
Entrevista com Antônio César Perri de Carvalho, ex-presidente da FEB (*)
(*) Questões propostas por: Jorge Hessen, José Passini, Leonardo Marmo, Astolfo Olegário, Eurípedes Kuhl, Wilson Garcia, José Sola, Paulo Neto, Roberto Cury, Irmãos W. (Autores Espíritas Clássicos).
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1)
Considerando as pressões e complexidades inerentes ao cargo de presidente da
Federação Espírita Brasileira (FEB), que tipo de concessão o senhor foi
constrangido a aceitar em prol de um apaziguamento ou visando à obtenção de
projetos que, no respectivo momento, considerava mais prioritários para o
Movimento Espírita e para a melhor divulgação doutrinária? Que avaliação
retrospectiva o senhor faria, hoje, desse (s) procedimento (s) e de suas
repercussões?
Antônio César
Perri de Carvalho - Assumimos a presidência interina da FEB, na condição de um
dos vice-presidentes, por indicação do ex-presidente Nestor João Masotti, que se
licenciava para tratamento de saúde; em seguida, por renúncia deste amigo, fomos
eleito presidente. No conjunto atuamos na presidência no período de maio de 2012
a março de 2015. Foram momentos de muitas complexidades internas na FEB e na sua
relação com o Conselho Espírita Internacional, que também apresentava
dificuldades administrativas. Não fizemos concessões, mas percebemos
resistências e o ritmo lento de muitas providências. Sentimos claramente que
existiam pontos de vistas diferentes dos nossos acerca do papel a ser exercido
pela FEB no movimento espírita. Em nossa ótica, entendemos a FEB como uma
instituição nacional, que deve interagir com o movimento espírita do país, e,
nesta condição o chamado “campo experimental” não deveria gerar a ideia de
“modelo”, pois entendemos que o mais importante para o trabalho federativo são
as experiências provenientes do movimento espírita como um todo, sem qualquer
ação que poderia vir a ser confundida com centralização.
Por outro lado, desde o primeiro momento da gestão e ainda na interinidade, realizamos reuniões quinzenais conjuntas do Conselho Diretor (integrado pelo presidente e vice-presidentes) e da Diretoria Executiva da FEB (integrado por diretores). Dessa maneira todos os assuntos e encaminhamentos foram decididos nessas reuniões e se implantou a gestão com base em orçamento. No período de nossa gestão, sempre com divulgação ampla, convocamos duas Assembleias Gerais Extraordinárias, reuniões extraordinárias do Conselho Superior e do Conselho Federativo Nacional – CFN, e, efetivamos reuniões conjuntas do Conselho Federativo Nacional e do Conselho Superior. Muitos pontos de vistas divergentes foram equacionados nesse conjunto de reuniões. Enfim, seguíamos um projeto de favorecer maior participação do movimento espírita brasileiro, iniciado desde a gestão do ex-presidente Nestor Masotti. Por indicação e com apoio deste ex-presidente, previamente, exercemos durante oito anos o encargo de secretário geral do CFN da FEB, com essa linha de atuação. Mas sentimos que isso gerou resistências internas na instituição. Evidentemente que gostaríamos de ter completado o Projeto de Planejamento Estratégico da FEB, que iniciamos, e, de termos concluído propostas de adequação e de dinamização de atividades na área federativa e na área editorial da FEB.
2) Por que a FEB
mantém o atual modelo do Conselho Superior – que certamente teve sua finalidade
nos primórdios da implantação do Movimento Espírita no Brasil – até o presente,
numa centralização de poder que se assemelha ao Colégio Cardinalício do
Vaticano, tirando o poder do Conselho Federativo Nacional?
Antônio César
Perri de Carvalho - Sem comentar a comparação colocada na indagação, geralmente
se lembra do Conselho Superior relacionando-se com a sua função de “colégio
eleitoral”. Há um registro histórico público do ex-presidente da FEB Leopoldo
Cirne (gestão 1900/1913) – em um livro de 1935, – aliás com um título não usual
Antichristo, Senhor do Mundo -, onde analisou a criação e o funcionamento de
órgãos da FEB e a criação do que chamou de “verdadeiro círculo vicioso”. Em
nossa ótica, a composição e as atribuições do Conselho Superior deveriam ser
revistas para se adequar melhor a uma instituição de caráter nacional, e,
também, efetivamente atuar como um conselho semelhante aos conselhos de
administração das empresas da atualidade. Entendemos que as atribuições e
efetivas ações do Conselho Superior da FEB deveriam ser até ampliadas, para uma
participação mais ativa dos seus membros no acompanhamento das decisões e ações
do Conselho Diretor e da Diretoria Executiva. Na tentativa de promover uma ação
mais próxima do Conselho Superior com a direção da FEB e com o movimento
federativo, convocamos reuniões extraordinárias e também conjuntas do Conselho
Superior com o Conselho Federativo Nacional da FEB.
3) Considerando o
grande número de títulos que são publicados pela Federação Espírita Brasileira
(FEB) e a condição de “indisponível” de várias obras altamente relevantes
doutrinariamente, seria interessante saber como é discutida, pela direção da
FEB, os livros que devem receber prioridade para serem publicados, divulgados e
distribuídos. Assim sendo, que fatores são levados em consideração e como as
discussões são empreendidas, uma vez que a FEB publica Chico Xavier, Divaldo P.
Franco e Yvonne A. Pereira, além de Denis, Delanne e Bozzano, entre outros,
além, obviamente, de Allan Kardec?
Antônio César
Perri de Carvalho - Assumimos a gestão da FEB em época muito complicada, com
necessidade de decisões urgentes relacionadas com a desativação da gráfica,
iniciada na gestão do ex-presidente Nestor Masotti, e, depois de todo o prédio
ligado à editora no Rio de Janeiro, implantando-se a terceirização das
impressões com cotações em várias grandes gráficas e a distribuição dos livros
utilizando-se experiente empresa de logística. Também houve necessidade de
revisão de todos os textos dos livros, atualização das capas e da diagramação
dos livros. Simultaneamente já sentíamos os reflexos iniciais da crise econômica
do país. Há um Conselho Editorial – integrado por dirigentes da FEB -, e que tem
a atribuição de analisar novas obras e reedições; e, durante nossa gestão, se
iniciou um processo de maior interação entre este e o Conselho Diretor e a
Diretoria Executiva da FEB, para a definição de prioridades do ponto de vista
doutrinário e da realidade do mercado livreiro. Na nossa visão esse processo
estava apenas se iniciando e deveria ser aprofundado e aperfeiçoado.
4) Por que a FEB
continua publicando a obra de J.B. Roustaing, que diverge frontalmente de
princípios doutrinários apresentados por Kardec? Considerando o desígnio da
unificação do M.E.B. e permanecendo a FEB obsessivamente apadrinhando e
divulgando “Os Quatro Evangelhos” de J.B. Roustaing, não seria essa incomoda
obstinação lesiva à união dos espíritas? Será que espera uma campanha de
esclarecimento a ser deflagrada no meio espírita?
Antônio César
Perri de Carvalho - Quando assumimos a presidência da FEB estavam esgotados
muitos títulos. A obra citada e muitas outras não foram reeditadas durante nossa
gestão. Com relação à divulgação da obra referida, mantivemos o acordo feito
durante a gestão do ex-presidente Francisco Thiesen – e sempre lembrada pelo
ex-presidente Nestor João Masotti -, que nas ações federativas e documentos do
Conselho Federativo Nacional e na revista Reformador as obras de Allan Kardec
seriam a base. Nunca aprovamos propostas de divulgação sobre a não recomendação
de obras e muito menos de elaboração de listas de livros que eventualmente não
seriam indicados. Desde os tempos de nossa atuação na União das Sociedades
Espíritas do Estado de São Paulo – USE valorizamos a Campanha “Comece pelo
Começo”, de divulgação das Obras Básicas de Allan Kardec, iniciada nos anos
1970. Aliás, durante nossa gestão como presidente da FEB, o Conselho Federativo
Nacional aprovou em 2014 a Campanha “Comece pelo Começo”, proposta e elaborada
pela Área Nacional de Comunicação Social Espírita do CFN.
5) Você que
certamente deve ter sido vítima diversas vezes de ataques e perfídias dos
inimigos da luz (encarnados e desencarnados), em face as suas experiências e
potencialidades federativas, já refletiu sobre a possibilidade de conduzir um
movimento, em que líderes e dirigentes federativos ou não, participem ?
Antônio César
Perri de Carvalho - A diversidade de pensamentos e de sentimentos é uma
característica do nosso mundo, da humanidade encarnada e da desencarnada.
Vivemos essa experiência de aprendizagem, mas preponderando as vibrações
fraternas, nas atividades profissionais, e, no movimento espírita, desde o
início de nossa trajetória na mocidade, no centro espírita, nos órgãos de
unificação municipal e regional, na direção em nível estadual da União das
Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo – durante três mandatos como
presidente -, e, na convivência com o movimento espírita de nosso país,
incluindo o Conselho Federativo Nacional da FEB. Inspiro-me sempre no apóstolo
Paulo: “Examinai tudo, retende o bem” e no seu depoimento: “Combati o bom
combate, terminei a corrida, guardei a fé”. Acredito que nossa “corrida” não se
encerrou, mas ocorrem adequações de caminhos, e, sem a preocupação com cargos,
estamos atuando como um servidor, procurando manter a “fé com obras” e bem
próximo da realidade das bases do movimento espírita.
6) Algum desencanto
em face da não reeleição à presidência da FEB?
Antônio César
Perri de Carvalho - Poucos dias antes da eleição, recebemos a informação de
alguns dirigentes da FEB da posição deles que queriam a escolha de um outro
presidente e, logo depois, divulgaram um manifesto ao Conselho Superior da FEB.
Preparamo-nos para a nova circunstância, ciente de que poderiam ocorrer
paralisações e alterações de projetos que defendíamos. Após deixarmos a
presidência da FEB, optamos por atuar em instituição simples e funcionando em
bairro mais periférico de Brasília; com a nossa participação foi criado o Grupo
de Estudos Espíritas Chico Xavier (GEECX); prosseguimos atendendo a continuados
convites de todas as partes do país, para visitas, palestras e o desenvolvimento
de seminários, visitando inclusive o interior de vários Estados; retomamos as
contribuições mensais com a Revista Internacional de Espiritismo, vínculo que já
existia desde o ano de 1971, e a elaboração de livros, como os recentemente
lançados pelas Editoras “O Clarim” e pela USE-SP. Em todos os rincões que nos
convidam temos recebido o reconhecimento amigo e o carinho da família espírita
em manifestações de solidariedade fraterna.
7) Parece haver uma
concepção generalizada de que o Espiritismo é uma religião no sentido
tradicional do termo e há até mesmo quem diga que atualmente “O Evangelho
segundo o Espiritismo” está sendo empregado como “O Espiritismo segundo o
Evangelho”. Como você percebe e conceitua essa situação?
Antônio César
Perri de Carvalho - Em palestras, artigos e em livros temos trabalhado a
concepção de Allan Kardec sobre religião, que consta em O livro dos espíritos
(Conclusão, item V): “O Espiritismo é forte porque assenta sobre as próprias
bases da religião […] ele se apóia na confiança em Deus […] convida os homens à
felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade […]”.
Reconhecemos que Kardec faz importantes definições em O evangelho segundo o espiritismo (Apresentação): “Muitos pontos dos Evangelhos, da Bíblia e dos autores sacros em geral por si sós são ininteligíveis, parecendo alguns até irracionais, por falta da chave que faculte se lhes apreenda o verdadeiro sentido. Essa chave está completa no Espiritismo…”. No capítulo I deste mesmo livro Kardec inclui mensagem de Um Espírito israelita”: “Moisés abriu o caminho; Jesus continuou a obra; o Espiritismo a concluirá.”
Destacamos que o filósofo e jornalista Herculano Pires deixou-nos significativas obras que analisam essas questões, entre outras o livro: O espírito e o tempo. Introdução histórica ao espiritismo, cuja 1ª. edição veio a lume em 1964.
Entre as Obras Básicas de Allan Kardec, percebemos que o livro O Evangelho segundo o Espiritismo é utilizado, geralmente, como “leitura preparatória” de reuniões ou como temas de palestras e que está faltando e o seu estudo. Durante nossa presidência na FEB, intensificamos a divulgação desse livro por ocasião do Sesquicentenário de sua publicação, inclusive com a sua edição em parceria com Federativas, numa tiragem de 200 mil exemplares, e, no temário do 4º. Congresso Espírita Brasileiro, em 2014. Esse congresso foi um marco de evento bem sucedido, descentralizado e efetivado simultaneamente em quatro regiões, com consultas prévias às Federativas sobre temas e expositores, e autossustentável. Também criamos as reuniões de estudo de O evangelho segundo o espiritismo, na sede da FEB em Brasília, e integramos sua equipe de facilitadores e acompanhamos o vívido interesse dos participantes de diversas faixas etárias e com diferentes graus de conhecimento doutrinário, no desenvolvimento dos temas; foram marcantes as avaliações que os frequentadores fizeram sobre essas reuniões de estudo. No período adotou-se uma adaptação da metodologia de estudo interpretativo do Evangelho, que foi desenvolvida por Honório Onofre Abreu (ex-presidente da UEM, MG). Também foi criado o Núcleo de Estudo e Pesquisa do Evangelho (NEPE da FEB) que gerou uma série de vídeo aulas – “Evangelho à luz do Espiritismo” pela TVCEI e depois FEBtv, tendo como desdobramento o aparecimento de vários grupos de estudos de O evangelho segundo o espiritismo em vários locais do país. Ainda como consequência, a Editora FEB lançou em 2014 o livro elaborado por uma equipe, com o título O evangelho segundo o espiritismo. Orientações para o estudo.
Após deixarmos a presidência da FEB, prosseguimos nessa linha de trabalho e inclusive elaboramos o livro Epístolas de Paulo à luz do Espiritismo (Ed. O Clarim), valorizando a essência das recomendações morais de Paulo e sobre dons espirituais, com abordagens simples, objetivas e fundamentadas nas obras de Kardec e do Espírito Emmanuel, psicografadas por Francisco Cândido Xavier.
8) A figura de
Chico Xavier está sendo venerada com equilíbrio ou com exagero? Você concorda
que ele surge atualmente como uma voz mais forte e mais requisitada do que a de
Kardec?
Antônio César
Perri de Carvalho - Na realidade, encontramos as duas situações. Surpreso, temos
verificado que muitos espíritas e até dirigentes nunca leram obras psicográficas
de Chico Xavier, afeitos a modismos da literatura espírita e ao estudo por
apostilas. Chico Xavier era muito simples e não aceitava incensamentos dos
amigos e simpatizantes. Conheci-o pessoalmente e o visitamos com assiduidade
durante mais de 20 anos nas ações da Comunhão Espírita Cristã e do Grupo
Espírita da Prece, e no seu lar, em Uberaba. Temos muitos registros com ele.
Quando completou 70 anos de mediunidade, o homenageamos escrevendo o livro Chico
Xavier. O homem e a obra (editado pela USE-SP). Nesse livro e principalmente
agora, entendemos que o mais importante será a valorização do estudo de sua
obra. Por escolha do CFN da FEB coordenamos nacionalmente o “Projeto Centenário
de Chico Xavier” e depois divulgamos efemérides ligadas a livros, como os 70
anos da publicação de Paulo e Estêvão. Durante nossa presidência na FEB
estimulamos a ampla divulgação dos livros psicográficos de Chico Xavier,
apoiamos a elaboração e o início da publicação da série Coleção O Evangelho por
Emmanuel, e providenciamos um contrato de parceria da Editora CEU (de São Paulo)
com FEB, para a edição dos títulos de Chico Xavier dessa tradicional casa
editorial. Entendemos que o estudo dos livros deste médium devem ser realizados
junto com os de Allan Kardec, aliás foi a proposta de Emmanuel nos livros em que
homenageou o Centenário das obras de Kardec, a saber: Religião dos espíritos,
Seara dos médiuns, Livro da esperança, Justiça divina.
9) Por que o
Movimento Espírita Brasileiro, de modo geral, não dá à defesa da vida, em
especial, à prevenção do aborto a mesma prioridade das demais áreas de sua
atuação?
Antônio César
Perri de Carvalho - Desde a publicação dos opúsculos Em Defesa da Vida, pela
FEB, durante a gestão do ex-presidente Nestor João Masotti, e de suas atuações –
que acompanhamos – na origem do Movimento Nacional da Cidadania Em Defesa da
Vida – Brasil sem Aborto (2006), verificamos que com o apoio do CFN da FEB,
surgiram muitas ações em vários Estados. Em vários destes, as coordenações foram
realizadas por lideranças espíritas locais. Desde o início dessa campanha
tivemos participação ativa, com equipe de apoio, nos eventos que estimulam a
defesa da vida. Chegamos a conseguir um artigo especial para a revista
Reformador, de autoria de Eros Grau, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal,
contrário ao aborto e publicado em 2011. Nas reuniões do CFN da FEB e nas suas
ações regionais foram divulgadas e estimulamos tais Campanhas. Houve boa
repercussão e bons resultados, porém, reconhecemos que são ações mais recentes
ao compararmos com atividades mais antigas dos centros espíritas e do movimento
espírita.
10) Percebe-se,
atualmente, um certo arrefecimento do vigor do movimento espírita no Brasil.
Você concorda com essa percepção?
Antônio César
Perri de Carvalho - Talvez pudéssemos dizer que o movimento espírita – se
considerarmos o movimento mais ligado ao trabalho federativo – não acompanha a
expansão da base, ou seja, dos centros espíritas. Nas nossas viagens continuadas
pelo interior constatamos este fato. Outro aspecto é a dimensão territorial de
nosso país e seus Estados, quase um Continente, e as dificuldades financeiras
para a mobilidade entre as cidades e entre os Estados. Por outro lado,
acreditamos que há muito a ser realizado para a compreensão da união – como laço
moral, solidário e espiritual –, o respeito à diversidade das situações e
condições dos centros espíritas, e o conhecimento dessas realidades para o
melhor atendimento e apoio às reais demandas das diversificadas instituições.
Nas visitas a centros pequenos e com várias características, fortalecemos o
ponto de vista de que o trabalho de união deve ser constantemente adequado às
bases do movimento: os centros espíritas. Vale a pena a releitura e a reflexão
de Allan Kardec, em assuntos correlatos, principalmente a 2ª. Parte de Obras
póstumas.
11) Visando à
melhoria das atividades do Movimento Espírita, sobretudo do ponto de vista da
qualidade doutrinária, com a experiência de ter sido diretor, vice-presidente e
presidente da FEB em um intervalo substancial de tempo, que estratégia o senhor
considera que poderia ser mais eficiente por parte tanto dos confrades com maior
influência em órgãos federativos e grandes centros espíritas como também dos
confrades com atuação de menor repercussão em nível nacional? Nesse contexto,
até que ponto a FEB observaria e seria sensível a tais esforços para ajustar
suas próprias diretrizes?
Antônio César
Perri de Carvalho - Nossa sugestão é a ampla difusão das Obras Básicas de
Kardec, a implementação da Campanha “Comece pelo Começo”, estimulando o estudo e
a leitura direta nos livros, e procurando disponibilizar livros em formato e
valor monetário compatível com a maior parcela da população brasileira, e que
tem dificuldades financeiras. Cremos que é chegado o momento de se rever o
processo de “escolarização” que se desenvolveu com a criação de cursos, ciclos,
apostilas e exigências de pré-requisitos como faixas etárias padronizadas e de
sequenciamento de frequência a cursos para a posterior integração nas atividades
dos centros espíritas e do movimento espírita. Os dados do Censo realizados pelo
IBGE nos anos 2000 e 2010 apontam para realidades que são preocupantes dos
espíritas declarados, de faixa social e de faixa etária. É urgente a revisão dos
processos para a integração da infância e dos jovens, e da família, nos centros
espíritas. A nosso ver, as propostas de trabalho precisam ser adequadas às
distintas realidades dos centros espíritas, lembrando que a maioria é simples e
de pequeno porte. Esses assuntos já vinham sendo abordados por algumas
Federativas Estaduais e estimulamos tais estudos no Conselho Federativo Nacional
da FEB, mas enfrentando algumas resistências localizadas. Repetimos sempre que
há necessidade de menos formalidades e mais espontaneidade e simplicidade nas
atividades espíritas.
Estreitamos os laços com as Entidades Espíritas Especializadas de Âmbito Nacional e foi criado o Conselho Nacional delas, junto à FEB. Entendemos que o Conselho Federativo Nacional da FEB, integrado pelos presidentes das Entidades Federativas dos 26 Estados e do Distrito Federal e pelo presidente da FEB, têm uma responsabilidade muito grande no sentido de estimular o efetivo apoio, a adequação e a dinamização do movimento espírita de nosso país.
12) Na década de
1940 (antes do Pacto Áureo) líderes espíritas de Minas Gerais , São Paulo , Rio
Grande do Sul entre outros sonhavam com a criação de uma Confederação espírita,
qual a sua opinião sobre isso?
Antônio César
Perri de Carvalho - Nos anos 1940 e principalmente após a fundação da União das
Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (1947) surgiram propostas de união e
que deveriam ser discutidas com a FEB. A primeira psicografia de Chico Xavier
sobre união e unificação foi assinada por Emmanuel – “Em nome do Evangelho” -, e
dirigida aos participantes do 1o Congresso Nacional Espírita em São Paulo,
promovido pela USE-São Paulo, em 1948. Essa mensagem, com o título acima, foi
psicografada no dia 14 de setembro de 1948, em Pedro Leopoldo, MG (In:
Orientação aos órgãos de unificação. FEB). Um grupo de lideranças espíritas do
Sul e do Sudeste manteve contatos com o ex-presidente da FEB Wantuil de Freitas
e, finalmente, foi assinado o “Pacto Áureo” (1949), criando-se o atual Conselho
Federativo Nacional da FEB. Simultaneamente também surgiam ideias sobre uma
Confederação. No ano de 1997, como presidente da USE-SP articulamos a elaboração
de uma moção de união e solidariedade ao CFN da FEB, que contribuiu para se
evitar o alastramento da proposta de Confederação, que crescia na oportunidade
em função de polêmicas doutrinárias. A moção aprovada redundou no fortalecimento
do CFN com a elaboração de novas propostas de atuação (Reformador, dezembro de
1997, p.360-1), as quais foram seguidas pelos ex-presidentes Juvanir, Masotti e
por nós. Vários países adotam a organização de Confederação e o Conselho
Espírita Internacional (CEI), no seu Estatuto vigente desde 2002, na prática se
configura como uma confederação. No tocante ao trabalho de união e de
unificação, entendemos que cabe às Entidades Federativas Estaduais, integrantes
do CFN, definirem a organização e a ação federativa.
13) Suas
considerações finais:
Antônio César
Perri de Carvalho - Com relação à tônica predominante das questões formuladas
por vários companheiros entrevistadores, concluímos e sintetizamos, sugerindo
aos leitores a reflexão sobre o último discurso de Allan Kardec, de novembro de
1868 (Revista Espírita, dezembro de 1868) – já citado anteriormente -, onde há
colocações muito oportunas sobre a união dos espíritas: “Qual é, pois, o laço
que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum
contrato material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se
deve confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo
espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos ou, em outras
palavras: o amor do próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos
que os mortos sempre fazem parte da Humanidade. […] O laço estabelecido por uma
religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga
os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato
de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas
que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de
estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de
sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência
mútuas.”
Fontes:
A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas
(Entrevista com Antônio Cesar Perri de Carvalho, ex-presidente da FEB)