ERNESTO BOZZANO

Os Fenômenos de Assombração

(As manifestações espontâneas verificadas em todos os tempos, e a insistência de alguns Espíritos em mostrarem a sua presença em certos lugares, são a origem da crença nos locais assombrados)

 

Lançamento original:

Ernesto Bozzano – Dei Fenomeni D’Infestazione

Casa Editrice Luce e Ombra

Via Varese 4

Roma - 1919

Ernesto Bozzano - Les Phénomènes de Hantise

Traduit de l'italien par Cesare de Vesme

Préface du docteur J. Maxwell

Librarie Félix Alcan

Paris - 1920

 

OBRA RARA TRADUZIDA

 

Tradução: Fabiana Rangel

Revisão da Tradução: Irmãos W. e Ery Lopes

Formatação: Alexandre R. Distefano

 

 Versão digitalizada
© 2021

Distribuição gratuita:

Portal Luz Espírita

Autores Espíritas Clássicos

Introdução:

Dentre os fenômenos paranormais ou metapsíquicos, os de assombração (1) são os mais frequentes e geralmente os mais conhecidos. Eles são alvo de crônicas de todos os povos desde a antiguidade até os nossos dias; os exploradores encontram seus traços por todos os lados, tanto entre os esquimós da Groenlândia quanto entre os aborígines da África, entre os Peles-vermelhas das Montanhas Rochosas como nos indígenas da Micronésia; todas as línguas, todos os dialetos possuem termos para designá-los. A fim de defini-los, diremos que os fenômenos de assombração compreendem esse conjunto de manifestações misteriosas e inexplicáveis cujo traço característico essencial é o de se ligar de modo especial a um lugar determinado.

(1) Nota da tradução: O termo utilizado na tradução francesa é "hantise", a qual é definida como: "ideia na qual se pensa incessantemente", traduzindo-se facilmente pelo termo "obsessão". Todavia, optamos por empregar o termo "assombração" ao invés de "obsessão" por entender que o uso da palavra, no contexto histórico caracterizado nesta obra, associava-se muito mais à ideia de assombração. Tanto assim se pode dizer que comentaristas da obra, em língua portuguesa, aplicam a mesma terminologia, ou seja, "assombração". É fato que, nos estudos espíritas, a ideia de assombração muitas vezes se explica no próprio conceito espírita de "obsessão". Ainda assim, acatamos o uso da palavra "assombração" acreditando que ela representaria com maior fidedignidade as discussões da época em questão. (Nota da tradutora)

Em sua forma auditiva, eles compreendem todos os tipos de sons sem causa aparente, desde golpes e estalos de diferentes intensidades até sons que imitam a queda de móveis ou o quebrar de objetos de uso doméstico como garrafas, vasilhas, vidraças. Acreditamos escutar portas e janelas fechando violentamente, objetos pesados arrastando-se no chão, como tonéis ou outros utensílios cilíndricos, cadeiras furiosamente sacudidas, ferragens pesadas desabarem com um barulho infernal.

Em outros casos, são sons e barulhos que parecem ser de origem humana, sobretudo passos regulares que percorrem um corredor ou que sobem e descem uma escada; mais raramente percebemos um estranho fru-fru de vestidos de seda indo e vindo diante dos assistentes, ou o eco de gritos de lamentação, gemidos comoventes, soluços, suspiros, murmúrias, palavras e frases articuladas; acontece mesmo, por vezes, de escutarmos passagens de cânticos litúrgicos, cantos, coros, concertos musicais em lugares que em outros tempos eram destinados à exibições semelhantes.

A observação nos mostra que, em parte, esses sons, esses barulhos, são subjetivos ou alucinações e, em parte, objetivos ou reais; entretanto, os de natureza subjetiva são os mais frequentes. De fato, muitas vezes as portas e janelas de que se escutam os estalidos estão fechadas; os móveis que se mexem, as louças que se quebram são encontradas intactas em seus lugares. Em certos casos, os barulhos julgados ensurdecedores pelas pessoas que os escutam não são sequer ouvidos por alguns assistentes.

Por outro lado, não é raro que se produzam sons e barulhos incontestavelmente objetivos, pois constatamos que portas e janelas foram realmente abertas ou que nós as surpreendemos no momento em que elas estalam; encontramos os móveis deslocados ou remexidos, a louça em pedaços, todos os assistentes percebem simultaneamente os sons, os barulhos, os gemidos que se tornam por vezes tão formidáveis que pessoas que estão de passagem poderiam ouvi-los a consideráveis distâncias.

É preciso, então, registrar a existência de sons de percepção “coletiva” e outros de “eletiva”. Os primeiros são, geralmente, reais, enquanto os últimos não podem ser senão alucinatórios, ainda que tudo tenda a provar que os sons alucinatórios obtêm sua origem em condições positivamente extrínsecas.

Na sua forma visual, os fenômenos de assombração compreendem manifestações luminosas e aparições de fantasmas. As manifestações luminosas são bastante frequentes; o mais comum são clarões difusos, iluminando os lugares de modo a tornar visível o fantasma que se mostra, ou seriam luzes emanando do próprio fantasma. Elas tomam, em certos casos, o aspecto de luzes esféricas, de contornos imprecisos que percorrem rapidamente uma trajetória curta, depois desaparecem; mais raramente elas imprimem a forma de luzes globulares de contornos precisos e persistem muito tempo planando no ar. Há, enfim, casos em que a luz provém de uma vela ou de uma pequena lâmpada de natureza alucinatória, trazida pela mão do fantasma; ou ainda brasas, não menos alucinatórias, de uma lareira acesa e perto da qual o fantasma se encontra agachado.

Os fantasmas visualizados, salvo algumas aparições de animais, têm sempre uma forma humana; longe de se apresentarem cobertos de uma mortalha espectral branca, que se põe nos velhos contos, eles parecem vestidos com roupas da época na qual viveram. Geralmente, se apresentam de uma maneira tão realista que se poderia crê-los vivos; algumas vezes eles se mostram distintamente, embora transparentes; em outros casos, eles não passam de sombras com forma humana.

Na maior parte do tempo, eles parecem entrar por uma porta, seguir seu caminho e entrar em um outro cômodo, onde desaparecem; mas, frequentemente eles aparecem subitamente e desaparecem como um vapor; ou ainda se vão atravessando uma parede ou uma porta fechada. Por vezes eles caminham, outras deslizam, suspensos no ar. Na maior parte dos casos, eles se manifestam durante uma longa série de anos, por intermitências, com longos períodos de ausência e, em certas circunstâncias, em datas fixas. Mas, geralmente a duração da assombração não dura mais que alguns anos e frequentemente apenas alguns meses ou mesmo alguns dias. Sua manifestação é quase sempre precedida pelo vago sentimento de uma “presença”, que toma o percipiente e o leva a voltar-se para o lado onde se encontra o fantasma. Se este se aproxima, o percipiente sente como que um tipo de vento gelado.

Um dos traços característicos mais frequentes que os fantasmas apresentam é sua aparente indiferença face à face com os vivos que os contemplam, ou mais ainda, sua aparente ignorância quanto ao lugar em que eles se encontram. Eles sobem uma escada, atravessam um corredor, penetram num quarto sem nenhum objetivo manifesto e sem se preocuparem com as pessoas que encontram; ou mesmo se ocupam de alguma função doméstica, fazem gestos de desespero, se agacham ao lado do fogo, em condições evidentes de “ausência psíquica”, como se as ações que eles realizassem se desenvolvessem por um “automatismo sonambúlico”. Nada disso impede que esta regra venha comportar inúmeras exceções nas quais o fantasma demonstre perceber os assistentes, aos quais ele se dirige intencionalmente, com frequência por meio de gestos e palavras – circunstância que complicam consideravelmente o problema a resolver.

No que concerne aos fenômenos visuais, é preciso que repitamos o que dissemos quanto aos fantasmas auditivos, a saber, que a percepção das luzes e dos fantasmas pode se revestir de um caráter “coletivo” ou um caráter “eletivo” no primeiro caso, tudo provando não se tratar sempre de manifestações puramente subjetivas.

Em sua forma tátil, os fenômenos de assombração são raros e pouco variados. Trata-se, então, de sensações de peso ou de pressão sobre alguma parte do corpo, correspondente à presença ignorada de um fantasma sentado na cama do percipiente, ou exercendo uma pressão sobre sua pessoa; são mãos geladas e viscosas que abraçam, apalpam, se introduzem entre os panos e o corpo. Em uma série de casos muito conhecidos e suficientemente documentados, as mãos fantasma que seguram os percipientes pelos punhos ou que tocam os objetos do ambiente teriam deixado impressões indeléveis de queimaduras, como se fossem mãos inflamadas.

Quanto aos fenômenos de forma olfativa, são ainda mais raros que os táteis e variam desde o odor cadavérico relacionado a um drama de sangue ou um cadáver não enterrado, até o perfume de violeta lembrando um gracioso episódio ocorrido no leito de morte do defunto que se manifesta.

Na sua forma física, outros fenômenos aos quais já fizemos alusão, móveis que se deslocam, janelas e portas que batem, louças que quebram, trata-se muito frequentemente de sinetas que não param de se mexer de modo barulhento e sem causa aparente, mesmo depois de serem isoladas pela supressão de cordões e de fios.

Tão frequentes também são os casos de “chuvas de pedra”, apresentando traços característicos muito marcantes, como quando pedras percorrem trajetórias contrárias às leis físicas ou param no ar, ou caem lentamente ou atingem com uma destreza incomum um objetivo determinado, ou atingem sem fazer mal ou sem rebater em seguida, como se elas estivessem empunhadas por uma mão invisível; ou como quando essas pedras se encontram quentes ou até queimando.

Em outras circunstâncias, os panos são violentamente arrancados dos leitos das pessoas deitadas, estas sendo levantadas e colocadas suavemente no chão; se, todavia, os leitos não forem eles mesmos virados. Mais raramente há quedas abundantes de água, de lama, de cinzas, desaparecimentos repentinos de objetos, que são restituídos mais tarde de modo também misterioso; menos frequentemente ainda se passam os fenômenos perseguidores, nos quais as vestes da vítima designada se incendeiam; o fogo acontece algumas vezes até no leito no qual ela está deitada, na casa em que ela mora – nesses casos acontece de se assistir à liberação, por baixo, de centelhas azuladas cintilantes que se lançam sobre a vítima, sobre o leito, sobre a casa.

Essas são as principais formas de fenômenos de assombração, de onde se tem que elas compreendem duas categorias radicalmente diferentes de manifestações: de um lado, as subjetivas ou alucinatórias, de outro, as objetivas ou físicas.

E se analisarmos os traços característicos de cada uma dessas duas categorias, observaremos entre elas outras diferenças importantes, consistindo nisto: que os fenômenos de assombração de forma subjetiva persistem longamente, coincidem comumente com algum evento de morte que acontece nos lugares obsediados e são marcados por aparições de fantasmas; enquanto que os fenômenos de forma objetiva são de curtíssima duração, não coincidem senão raramente com casos de morte e não são quase nunca acompanhados de aparições de fantasmas. Além disso, eles oferecem o caráter distinto de estar em relação direta com a presença de um “sensitivo”. Em outros termos: os primeiros parecem fenômenos de natureza mais telepática; os segundos, de natureza mais mediúnica.

Essas diferenças radicais na forma dos fenômenos em questão são, há muito tempo, bem conhecidas por pessoas que se ocupam de pesquisas metafísicas, que os dividem em duas categorias diferentes e os designam uns sob o termo de “fenômenos de assombração propriamente dita”, outros sob o termo de “fenômenos de poltergeist” (palavra alemã composta que significa literalmente: “espíritos zombeteiros”). Ao longo desta obra eu me conformarei, então, a essas subdivisões e a esses termos consagrados pelo uso, ainda que os fenômenos da segunda categoria possam ser mais justamente chamados de “fenômenos de assombração mediúnica”.

Agora, apresso-me em formular uma restrição relativa a essa subdivisão de fenômenos de assombração em categorias, subdivisão que, ainda que legítima e oportuna do ponto de vista da clareza, deve ser, entretanto, considerada como provisória e convencional. De fato, se, ao invés de observar os fenômenos tal qual eles aparecem aos limites extremos de uma classificação de casos, nós nos dedicássemos a analisar separadamente todos os casos, constataríamos que, para a maior parte, eles contêm fenômenos subjetivos e objetivos interligados uns aos outros de modo tal que não tardaríamos a reconhecer que a única diferença entre as duas categorias consiste nisto: que em um encontramos reunidas as manifestações majoritariamente subjetivas, na outra as majoritariamente objetivas.

Quanto à existência de casos extremos exclusivamente subjetivos ou objetivos, dificilmente isso vai modificar essas conclusões, como a existência de exceções não basta para destruir uma regra. É, pois, legítimo presumir que a fenomenologia de obsessões por si só não oferece, na verdade, mais que um caráter único. Nesse caso, mesmo do ponto de vista teórico, deveríamos liberar dela um elemento de causalidade único, podendo consistir na gênese transcendental da grande maioria dos fenômenos, com a diferença de que, de um lado, eles se realizariam em sequência a uma ação mais particularmente telepática; de outro lado, por uma ação mais particularmente mediúnica.

Qualquer que seja, não é menos verdadeiro que sua subdivisão em categorias não corresponde aos modos de produção dos fenômenos e que ela deve ser considerada como sendo puramente convencional, o que não impede que ela possa ser julgada útil para facilitar a discussão.

No entanto, é preciso reconhecer que essa promiscuidade na forma das manifestações pode criar um embaraço sério aos que se propõem a classificar os fatos; de tal modo que, nessa obra, eu tive de me decidir a registrar os casos mais geralmente auditivos (consequentemente, sobretudo subjetivos) na categoria de fenômenos de “assombração propriamente dita”, reservando para a categoria dos fenômenos de “poltergeist” os casos extremos de manifestações positivamente objetivas.

Observarei quanto a isso que, quando adotarmos uma subdivisão diferente, registrando entre os fenômenos de “poltergeist” as manifestações mais especialmente “auditivas”, além das objetivas (telecinéticas), guardando para a outra categoria as manifestações em sua maioria visuais com aparições de fantasmas. Igualmente nesse caso, encontrar-nos-emos diante das mesmas dificuldades porque há muito poucos casos de aparição de fantasmas não acompanhadas de manifestações auditivas.

Fontes: Fondazione Biblioteca Bozzano

Fontes: l'Encyclopédie Spirite

132. As manifestações espontâneas verificadas em todos os tempos, e a insistência de alguns Espíritos em mostrarem a sua presença em certos lugares, são a origem da crença nos locais assombrados. As respostas seguintes foram dadas a perguntas feitas a respeito.

1. Os Espíritos se apegam somente a pessoas ou também a coisas?

— Isso depende da sua elevação. Certos Espíritos podem apegar-se às coisas terrenas. Os avarentos, por exemplo, que viveram escondendo as suas riquezas e não estão suficientemente desmaterializados, podem ainda espreitá-los e guardá-los.

2. Os Espíritos errantes têm predileção por alguns lugares?

— Trata-se ainda do mesmo princípio. Os Espíritos já desapegados das coisas terrenas preferem os lugares onde são amados. São mais atraídos pelas pessoas do que pelos objetos materiais. Não obstante, há os que podem momentaneamente ter preferência por certos lugares, mas são sempre Espíritos inferiores.

3. Desde que o apego dos Espíritos por um local é sinal de inferioridade, será também de que são maus espíritos?

— Claro que não. Um Espírito pode ser pouco adiantado sem que por isso seja mau. Não acontece o mesmo entre os homens?

4. A crença de que os Espíritos freqüentam, de preferência, as ruínas têm algum fundamento?

— Não. Os Espíritos vão a esses lugares como a toda parte. Mas a imaginação é tocada pelo aspecto lúgubre de alguns lugares e atribui aos Espíritos efeitos na maioria das vezes muito naturais. Quantas vezes o medo não fez tornar a sombra de uma árvore por um fantasma, o grunhido de um animal ou o sopro do vento por um gemido? Os Espíritos gostam da presença humana e por isso preferem os lugares habitados aos abandonados.

Allan Kardec "O Livro dos Médiuns"

Tudo que foi dito até agora se refere aos fenômenos de "assombração propriamente dita". Eu formulo, para completar a síntese, algumas considerações breves sobre os fenômenos de "poltergeist", dos quais já anotamos as relações que as unem aos primeiros. Dessas relações, surgiu a unidade fundamental dos fenômenos de assombração e a existência de um elemento causal comum, provavelmente sobrenatural ou espírita (exceto algumas exceções que não invalidam a regra), de modo que a diferença entre as duas categorias de fenômenos se reduz a isto: de um lado, eles se realizam após uma ação majoritariamente telepática; de outro, majoritariamente mediúnica.

A origem sobrenatural ou espírita dos fenômenos de poltergeist emerge evidentemente desses modos de extrinsecação.

É isso que prova sobretudo os episódios de projéteis que desviam no ar para não se deixarem apanhar, que diminuem a velocidade de seu curso, que descrevem no ar trajetórias caprichosas, que atingem com admirável precisão o alvo escolhido, que passam através de fendas de portas e de janelas e, sobretudo, que penetram nos lugares hermeticamente fechados, circunstância na qual podemos senti-los quentes, o que corresponde ao que deveria acontecer se se realizasse a passagem da matéria através da matéria, com desagregação e reintegração instantânea da massa molecular do projétil e reação térmica consecutiva.

Cada um verá como esse conjunto de circunstâncias extraordinárias, implicando a intervenção de uma inteligência oculta dotada de faculdades e de poderes transcendentes, torna insustentável o ponto de vista daqueles que pretendem explicá-lo diminuindo essa inteligência ao nível de personalidades subconscientes criadas pela desintegração do Eu consciente normal.

Ernesto Bozzano "Os Fenômenos de Assombração"
 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Allan Kardec - O Livro dos Médiuns (Obra de Allan Kardec - "O Livro dos Médiuns" -  Segunda Parte - Dos lugares assombrados - Cap. IX)

 

Ernesto Bozzano - Os Fenômenos de Assombração (Obra rara traduzida)

 

Ernesto Bozzano - Les Phénomènes de Hantise (1920) (Fr)

 

Ernesto Bozzano - Dei fenomeni di infestazione (1936) (Ital.)

 

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