Cairbar Schutel - Conferências Radiofônicas

 

 

Décima Conferência

 

10 DE JANEIRO DE 1937

 

- OS ETERNOS REACIONÁRIOS

- O PROGRESSO RELIGIOSO

- O ESPIRITISMO E SUA CONCORDÂNCIA COM AS CIÊNCIAS

 

 O mundo vai caminhando a passos lentos, mas firmes, para a Perfeição.

O Progresso é uma lei fatal do Universo. Seres e coisas; ciência, filosofia, arte, religião, tudo evolui. Peletan, admirando na sua época o progresso do mundo, disse: - "le monde marche"; e o nosso poeta Castro Alves, no seu "O Livro e a América" - proclamou esta eterna verdade: "Tudo marcha, ó grande Deus! - As cataratas para a terra, as estrelas para os céus..."

Com efeito, basta lançar olhar perscrutador no livro aberto, que é o mundo, para observar a ação constante dessa Lei da Evolução, a que estão submetidas todas as coisas. E se essa evolução se torna, às vezes, imperceptível à nossa inteligência, é porque ela não se faz aos saltos, opera-se sem lacunas, sem hiatos, pois, como disse o filósofo: "Natura non facit saltus" - a natureza não dá saltos; a sua ação é morosa mas persistente, sem solução de continuidade. E é ainda tara notar que essa Lei, emanada, sem dúvida, da Providência Divina, resiste a todas as reações e enfrenta todos as repúdios em suas sucessivas e crescentes manifestações.

Muito teríamos de dizer a este respeito, se o tempo não fosse tão escasso. Mas todos conhecem a aversão com que as novas idéias e as novas descobertas são recebidas, e como elas se tornam, ao correr do tampo, utilizadas e apregoadas por aqueles mesmos que as haviam rechaçado e perseguido.

Na esfera científica, como na esfera religiosa, inúmeros tem sido os mártires da reação do sectarismo religioso e científico.

Não foi só Galileu, cuja descoberta constitui um princípio de ciência, aceito atualmente por todas as escolas, que foi achincalhado e repudiado. A cicuta dos reacionários não foi tragada unicamente aos Sócrates; a hostilidade inconsciente ou má, tem sido sempre a espada de Democles sobre a cabeça dos inovadores.

Quando as aortas do progresso se abrem para deixar passar mais uma luz, que vem esclarecer a humanidade, as aposições se erguem do seu quietismo e uma tempestade se levanta para dar cabo da idéia, que só consegue vencer, abatendo, pouco a pouco, as  barreiras da ignorância.

Quando Jesus Cristo veio ao mundo, não faltaram Césares e sacerdotes, doutores e escribas, que O caluniaram, O perseguiram, O injuriaram e O crucificaram. A sua Doutrina de Amor ao próximo e adoração ao Deus vivo não agradou aos magnatas da sua época, que julgavam que a salvação não podia se dar senão dentro dos seus Templos. Mas os antigos templos caíram, não ficaram, deles, pedra sobre pedra, e a idéia Cristã, embora não tivesse ainda o seu completo triunfo, prossegue na consecução da sua grande Missão de confraternizar os homens sob a Paternidade de Deus.

O Cristo previra mesmo que a humanidade, em peso, não receberia a sua Doutrina senão sob a ação lenta mas persistente do tempo, porém, sabia também que grande número de Espíritos a quem ele denominou ovelhas desgarradas de Israel, acolheriam com boa vontade a sua Palavra, e para que não faltasse a essas "ovelhas" o pábulo da vida, esgotou até às fezes o Cálix da Amargura que lhe foi oferecido pelos reacionários do seu tempo, fazendo ver a estes que a sua palavra não passaria, pois ela representa o som da corneta que em dias propícios reunirá todas as "ovelhas sob a direção suprema de um único Pastor". Fez mais ainda o Cristo Jesus: "Anunciou a todos o prosseguimento da sua tarefa até à realização do seu desideratum, quando disse: - "estarei convosco até a consumação dos séculos". E as suas reaparições sucessivas, depois da morte, não só durante os quarenta dias, mas através dos séculos, que medeiam a nossa época e aquela em que Ele esteve na Terra, como consta dos Livros Sagrados, confirmam magnificamente a estadia entre nós, de tão desejada e distinta Individualidade, que foi constituída por Deus, como Supremo Diretor do nosso planeta.

À primeira vista, em face das lutas religiosas e civis que têm se desenrolado no mundo, e da crise temerosa e avassaladora que atravessamos, parece que foi em vão a vinda de Jesus à Terra, mas se encararmos a necessidade que muitas almas tinham de receber a sua Palavra, e a ação lenta dos grandes ideais para a formação dos espíritos ainda inferiores, ficaremos compreendendo que se a Revelação Messiânica até agora não conseguiu um formal e categórico triunfo, prestou inestimáveis serviços a milhões de almas que escalaram os degraus superiores da escada do Progresso, e criou uma nova mentalidade para os retardatários que sucessivamente vão recebendo as luzes da Grande Doutrina, destinada a estabelecer a Fraternidade humana sob a Paternidade de Deus.

 

EVOLUÇÃO RELIGIOSA

 

A estagnação da Idéia Religiosa tem contribuído fortemente para retardar a marcha ascensional da humanidade.

A Religião não é, nem pode ser, em suas linhas particulares, uma cadeia entrelaçada de convenção, de preconceitos. Para que ela tenha caráter permanente, a razão está nos dizendo, precisa ser progressista, revestir as roupagens da evolução, a que estão submetidas todas as coisas e que constitui o Brasão do Universo. Basta percorrer atenciosamente ás páginas da História, para constatar esta verdade inflexível:

"Todo o conhecimento que conquistamos, seja na esfera científica ou na religiosa, não é mais do que uma confirmação da última revelada e um complemento dessa verdade, que vem, a seu turno, servir de base, de contribuição, para as futuras revelações que havemos de receber".

Este axioma se traduz no campo científico, como também no campo religioso. A eletricidade é um complemento da descoberta do vapor, assim como tem por base o automobilismo, a aeronáutica, a telegrafia sem fio, a radiofonia, etc.

Pelo mesmo motivo a Lei de Deus não poderia ser proclamada sem que primeiramente houvesse a Revelarão da Existência do Deus Vivo.

E, isso se constata magnificamente na Bíblia ou seja, na História Sagrada.

Na infância da humanidade, visto os homens não se acharem preparados para melhores ensinos, foi-lhes dado a conhecer unicamente a Existência de Deus.

O Patriarca Abraão recebeu e revelou ao seu povo a Mensagem que lhe fora dada, cujo laconismo se infere por estas palavras: "Existe um único Deus".

Só depois de 2.000 anos da recepção desta Revelação, foi que Moisés subiu ao Monte Sinai e recebeu os dez mandamentos da Lei, que confirmam a Revelação Abraâmica e servem de alicerce, de fundamento para a Revelação Messiânica.

Esta, por sua vez, só baixa à Terra, 2.000 anos depois da Mosaica, e constitui o que nós chamamos Cristianismo, Doutrina de Jesus Cristo.

Mas esta mesma Revelação, embora seja de uma perfeição ideal, não constitui a última palavra em matéria de Religião, segundo afirmou o próprio Cristo, quando disse: "Tenho ainda muito que vos dizer, mas não podeis suportar agora; quando vier, porém, aquele Espírito da Verdade, ele vos guiará a toda a Verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá o que tiver ouvido; e vos anunciará as coisas que estão para vir. Ele me glorificará, porque há de receber da que é meu, e vo-lo há de anunciar."

Este trecho, meus ouvintes, que confirma categoricamente o caráter evolutivo da Religião; bem como a direção de Jesus sobre o movimento religioso. Eu o extraí e transmito ipsis verbis, palavra por palavra, do cap. XVI, v.v. 12-14 do Evangelho de São João, entranhado na Bíblia Sacra, Vulgata.

Chamamos a vossa atenção para estas passagens do cap. XVI, v.v. 12 -14, que são muita significativas e constituem, juntamente com outros trechos do mesmo Evangelho, como por exemplo - cap. XIV, 25 e 26; cap. XV, 26, o ponto de partida, a base fundamental da Nova Revelação, que nós, embora leigos, apresentamos ao mundo, não só como a confirmação da Doutrina de Jesus Cristo, da Revelação Messiânica, mas como o complemento prometido por Jesus, da sua Doutrina.

Demos a essa Revelação a nome de Espiritismo, porque tratando-se de urna manifestação altamente espiritual e significando a Espiritismo - a Ciência da natureza espiritual do homem e suas relações com o Mundo Invisível, o vocábulo sintetiza e resume muito bem o fim do Espiritismo, ou seja, da Nova Revelação.

O escopo do Espiritismo é o mesmo do Cristianismo, ele sanciona as Revelações passadas, mas abrange num elo indestrutível as Revelações futuras

Ele traz erre si a mesma palavra de Ordem e de Fé do Cristianismo; mas destina-se a operar uma completa transformação no mundo, moral e científica; tudo tem que sofrer a sua ação regeneradora. E isto porque o homem é um ser perfectível, e não perfeito, pois, a Verdade absoluta, integral, só Deus a tem. Nós, criaturas imperfeitas e limitadas, só podemos receber a Verdade parceladamente, de acordo com o nosso progresso e nossa evolução espiritual, moral e científica.

 

CONCORDÂNCIA DO ESPIRITISMO COM A CIÊNCIA

 

Para me tornar mais explícito, demonstrar-vos que não faço doutrina pessoal, e que o Espiritismo é essencialmente religioso e estritamente científico, pois, não se pode compreender a Religião separada da Ciência nem a Ciência da Religião, eu vos transmito também as conseqüências cientificas do Espiritismo coligidas por um sábio médico francês, diretor do Instituto Internacional de Metapsíquica, com sede em Paris, e que se chamou Dr. Gustave Geley; diz ele:

“-O Espiritismo encontra apoio em todas as ciências e na explicação simples que ele dá sobre fatos obscuros no domínio delas.

“- Com as ciências naturais o acordo é absoluto.

“- Ao transformismo, ele dá a teoria da evolução anímica, conexa á da evolução orgânica. Ainda mais, impõe a aceitação da evolução da alma.

“- Ensinando que a evolução não se faz unicamente sobre a Terra, mas em uma série de mundos, abertos à nossa atividade, o Espiritismo está de acordo com a ASTRONOMIA, que prova a insignificância do nosso planeta no seio do Universo, e a hipótese verossímil da pluralidade dos mundos habitados.

“- Quanto à Física e à Química, a doutrina espírita faz-nos entrever a unidade da matéria e da forca. Permite o descobrimento da matéria radiante, e, por outro lado, a fácil compreensão do Corpo Astral - Espiritual.

“- Na Fisiologia, ele intervém mostrando como se dá a conservarão da individualidade física e intelectual, apesar da renovação perpétua das células.

“- Assim também ele explica o magnetismo, o hipnotismo, o sonambulismo e seus fenômenos.

- Até a Patologia pode utilizar-se das noções do Espiritismo. Na patologia nervosa, por exemplo, certos fatos de possessão, de alucinação, os fenômenos de incubato e sucubato, diversas neuroses, até certos casos de loucura tem interpretação aceitável pelo Espiritismo. A histeria pode ser explicada pelo estudo científico do perispírito. As perturbações extravagantes de sensibilidade e motricidade seriam funcionamento defeituoso para união da alma e do corpo.

“- Os nevropatas inferiores, os histéricos, seriam individualidades unidas a corpos por demais aperfeiçoados para elas; e os nevropatas superiores, ao contrário, possuiriam organismo para eles muito grosseiros.

“-Finalmente, até a Medicina, encontra uma valiosa colaboração no Espiritismo.

- O Monismo, tal qual o concebeu Haekel (e proclamou Lombroso) concorda admiravelmente com o Espiritismo, no qual encontra o seu complemento natural.

A noção da Evolução anímica, unida à noção da Evolução orgânica e ao conhecimento do Espírito, explica tudo, abrange tudo, sintetiza tudo."

 

*

 

Finalmente o Espiritismo está de amplo acordo com as doutrinas de Sócrates e de Platão. Estritamente religioso, essencialmente científico, o Espiritismo é, entretanto, eclético, dá liberdade a todos, e recomenda com S. Paulo, o livre-exame, assim como não foge da crítica sã e severa, porque acha que o direito de crítica é perfeitamente legítimo, mas exige que a crítica seja ponderada, profícua e que se mantenha na elevação e seriedade do assunto, para não degenerar em agressões injustas e incientes que a tanta gente têm prejudicado.

 

OS REACIONÁRIOS E AS NOVAS DESCOBERTAS

 

Nenhuma idéia nova, nenhum descobrimento, nenhuma Mensagem divina, que vieram enriquecer os tesouros dos nossos conhecimentos, deixou de sofrer o repúdio e a perseguição do espírito reacionário, preso às idéias preconcebidas. O Espiritismo não podia se livrar dessa lei, que demonstra o absolutismo do Espírito de Sistema revoltando-se contra a inovação, por mais generosa e fecunda que ela seja. Em todos os tempos a hostilidade da ignorância e da má-fé, é companheira indefectível da novidade. Ora é Galvani sofrendo o desprezo alheio; ora é Franklin, que encontrou cerradas as portas das academias com a sua descoberta do pára-raios; ora é Arago, contra o qual se levantou a mesma tempestade; ora é Sócrates condenado a tomar cicuta; ora é o Cristo levado ao madeiro infamante.

Mas a muralha da ignorância não é eterna e surgem os grandes pioneiros que após persistentes esforços e lutas incessantes tornam a idéia vitoriosa, e afinal se consegue ver admitida e consagrada a Verdade nova, primeiramente repudiada.

É assim que tem acontecido com o Espiritismo. Repudiado no seu início, mas examinado inteligentemente, estudado, observado, sem espírito preconcebido, ele se constitui o grande farol que nos conduz ao Porto do Salvamento.

Só o Espiritismo pode nos dizer - quem somos, quem fomos e para onde vamos, - só ele é capaz de manter em nós a integridade do Amor, porque nem o túmulo, nem a morte destroem as nossas afeições, - só ele é capaz de nos guiar e conduzir diante de Jesus Cristo, cuja Doutrina Pura e Palavra de Vida Eterna, tivemos a felicidade de gravar na nossa alma.

Essencialmente científico, extremamente religioso, o Espiritismo nos revelou uma Cosmogonia admirável, digna do Ser Supremo. Envolto de uma filosofia lógica, clara, racional, concisa e criteriosa, ele tem expressões para todas as inteligências, razões para todas as almas. Sua doutrina é tão humilde e tão clara, que até uma criança aprende-a e a pratica.

 

OUVINTES:

 

As minhas palestra radiofônicas são dedicados aos materialistas, aos ateus, aos descrentes, aos cépticos e indiferentes, a todos aqueles cujo céu se mostra borrascoso e onde não brilha a estrela da Esperança que nós acena com suas promessas imorredouras. Aos que tem crença firme, impregnada do Amor de Deus e esclarecida pela Imortalidade do Espírito e a Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, são os felizes deste mundo, que aguardam a hora da partida para aquisição das bem-aventuranças eternas.

A crença sincera e inteligente, é a doce emanação da Verdade que vivifica as almas e fortifica os corações, é a luz que ilumina os nossos destinos, e a água da vida que sacia a nossa sede de salvamento.

O Espiritismo deu-me esta crença; eu duvido muito que fora dele possais encontrar a verdadeira Fé, porque eu bati a todas as portas e encontrei todas fechadas para o Mundo Maior. Só o Espiritismo as tinha abertas para os meus parentes, os meus amigos, e os Mensageiros de Jesus, que vieram me dizer: "Ama e estuda - a morte é uma porta aberta para a imortalidade, onde vivemos e onde virás viver conosco; ama e estuda, porque a Lei de Deus é progresso, é sabedoria, é amor".