Cairbar Schutel - Conferências Radiofônicas

 

 

Décima Quarta Conferência

 

25 DE MARÇO DE 1937

 

 

A MORTE E A VIDA EM FACE DO CRISTIANISMO E DO ESPIRITISMO

 

 O dia de hoje é de gratas recordações para a Cristianidade pelas edificantes lições que encerra. Ele nos faz lembrar duas cenas verdadeiramente edificantes; uma é Jesus com seus discípulos em torno de uma mesa no cenáculo de Jerusalém, repartindo o pão e o vinho, nas vésperas do seu passamento para a Outra Vida, e lhes recomendando fazerem o mesmo sempre que dele se lembrarem. Outra se traduz no emocionante quadro narrado nos Evangelhos: o Divino Mestre, cingido de uma toalha, curvado ante uma bacia cheia dágua lavando os pés àqueles que teriam de empreender a excelsa Missão de Apostolar a sua Doutrina.

Esta cena verdadeiramente patética, que deveria ser o padrão de todos os que se dizem cristãos, porque é a mais frisante lição de humildade que se pode conceber, não poderia passar desapercebida no dia de hoje, em que toda a humanidade, obediente ao calendário, se inclina respeitosa ante a memória do Filho de Deus.

Diante deste ensino caem os castelos, desmoronam-se os suntuosos palácios em que medram, corroendo coração e maculando almas, o orgulho e o egoísmo humano. Ante esta lição viva, que jamais se apagará da mente humana, a que ficarão reduzidos, em época próxima futura, os ouropéis, as efêmeras grandezas, os luxuosos cultos que fascinam o sentimento, mas não falam à razão e ao entendimento, e não convertem os espíritos obstinazes, nem os conduzem à prática dos Sacrossantos Mandamentos de Jesus Cristo!

Mas, meus ouvintes, o dia de hoje não relembra unicamente estes dois fatos edificantíssimos que se salientam nas páginas da história, mas também a substanciosa conferência que Jesus teve com seus discípulos, após lavar-lhes os pés, conferência esta intitulada "Sermão do Cenáculo", que é tão edificante, tão importante como o chamado "Sermão do Monte", e que eu, forçado pela carência de tempo, me limito a convidar-vos a ler no Evangelho de S. João, entranhado no Novo Testamento, Cap. XIV, XV, XVI, e XVII. Em face desse memorável discurso de Jesus, expondo concisa e maravilhosamente a sua bela, insofismável e excelsa Doutrina, o lava-pés e a ceia, não são mais do que reproduções vivas, exemplos frisantes de como deveriam eles se guiar para que não se desviassem das suas recomendações e não maculassem a sua Palavra com atos menos dignos da Religião que há de um dia regenerar o mundo.

Com a partilha dos pães e do vinho, o nosso Mestre instituiu o espírito de Fraternidade, que estabeleceria o triunfo da sua Causa; e com o lava-pés, o principio de humildade, que defendê-los-ia dos sorrateiros botes do orgulho, o mais inveterado inimigo do Cristianismo. Por isso, o humilde Nazareno ao lhes dar o pão e vinho recomendou-lhes que, sempre que dele se recordassem, fizessem a mesma coisa que Ele fizera, assim como depois de ter lavado os pés dos seus discípulos, perguntou-lhes: "Compreendeis o que eu vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Se eu, pois, sendo Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros; porque, vos dei o exemplo, a fim de que, como eu fiz, assim façais vós também. Em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu Senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou".

 

A DOUTRINA DE JESUS EM FACE DA MORTE

 

A Doutrina de Jesus é Humildade e Fraternidade; e esses deveres de Humildade e de Fraternidade, têm a sua razão de ser porque somos imortais, porque sobrevivemos à morte dó corpo, porque temos um futuro a cuidar, e só o poderemos fazer bom, lapidando o nosso espírito com o buril da Humildade, e o escopro da Fraternidade. A nossa Religião está adstrita ao cumprimento das ordenações de Jesus Cristo. A imortalidade é a sua base principal, é a rocha viva sobre a qual se assenta a sua cátedra.

Para Jesus e para nós espíritas, a morte não é mais do que uma passagem da Vida material à Vida espiritual.

Se assim não fosse, Jesus não teria recomendado aos seus discípulos - Humildade e Fraternidade; se assim não fosse, em vez daquelas emocionantes consolações do Sermão do Monte: "bem-aventurados os limpos de coração, os misericordiosos, os que têm fome e sede de justiça; diria: "Bem-aventurados os duros de cerviz e de coração, os avaros e sem caridade, us fartos de justiça e os piratas da fortuna". O homem, em sua constituição moral e mental não morre; deixa o seu corpo material, que não é mais do que escafandro por ele utilizado para as suas realizações terrestres, e passa ao plano psíquico da Vida com todos os seus atributos e prerrogativas.

Por isso quando morre algum nos utilizamos ria expressão "desencarnou" - libertou-se do corpo de carne.

O processo da morte pode ser comparado à histólise dos insetos, o fenômeno da lagarta que após a transformação, a metamorfose, rompe o casulo, e como a mariposa, goza de uma vida mais livre, esvoaçando nos prados e nos jardins, onde suga a seiva da vida do perfume das flores.

 

O FENÔMENO DA MORTE

 

O fenômeno da morte não tem sido revelado unicamente por aqueles que sofreram essa transformação, mas também constatado pelos videntes, homens de irrepreensível moral que têm assistido agonizantes e, de vísu, o verificado. São muitos os que têm observado tais fenômenos. Vamos citar uma narrativa muito conhecida entre os cultores do Moderno Espiritismo, e preferimos esta porque o narrador é um homem de valor, publicista que deixou diversas obras, e de grande cotação na América do Norte, como em todo o mundo. Refiro-me a Andrew Jackson Davïs. É assim que ele narra um episódio de morte que muito deve interessar os nossos ouvintes. Diz ele:

"As minhas faculdades de vidente, permitiram-me estudar o fenômeno psíquico e fisiológico da morte à cabeceira de uma agonizante.

"Era uma senhora de cerca de sessenta anos, a quem freqüentemente eu prestara cuidados médicos.

"Quando soou a hora da morte, achava-me nu, felizmente, em perfeito estado de saúde, o que permitia o pleno exercício de minhas faculdades de vidente.

"Coloquei-me de modo a não ser visto ou interrompido nas minhas observações psíquicas, e pus-me a estudar os misteriosos processos da morte.

"Vi que a organização física não podia mais bastar às necessidades do princípio intelectual, e percebi que tais manifestações físicas indicavam - não a dor ou sofrimento, mas apenas a separação da alma do organismo.

"Pouco depois, a cabeça ficou cercada de uma atmosfera brilhante; em seguida, de repente, vi o cérebro e o cerebelo estenderem suas partes interiores e suspenderem o exercício de suas funções galvânicas, tornando-se saturados de princípios vitais de eletricidade e magnetismo que penetravam nas partes secundárias do corpo.

"Em torno dessa atmosfera fluídica que cercava a cabeça, vi formar-se outra cabeça, (peço a vossa atenção porque é esta a parte mais importante da descrição), cabeça que se desenhou cada vez mais nitidamente. Tão brilhante era que eu mal podia fitá-la.

"Vi formarem-se sucessivamente o pescoço, os ombros, o tronco, enfim, o conjunto do corpo fluídico. Tornou-se evidente para mim que as partes intelectuais do ser humano são dotadas de uma afinidade eletiva, que lhes permite reunirem-se no momento da morte.

"O Espírito (ou inteligência desencarnada) elevou-se verticalmente acima da cabeça do corpo abandonado; porém, antes da separação final do laço, que por tanto tempo reuniu as partes intelectuais e materiais, vi uma corrente de eletricidade vital formar-se sobre a cabeça da moribunda e sob o novo corpo fluídico.

"Deu-me isto a convicção de que a morte é apenas um desprendimento da alma ou do espírito, que se eleva de um grau inferior para um superior.

"Quando se desprendeu dos laços tenazes do corpo, o espírito da pessoa que eu observava, constatei que o seu novo corpo fluídico era semelhante à sua aparência terrestre.

"Pelas minhas observações posso garantir-vos o ponto de vista falso do materialismo de que tudo finaliza com a morte do corpo".

Meus ouvintes:

Este episódio, que se acaba de narrar, não pode ser classificado como uma alucinação visual, visto que a chapa fotográfica tem registrado diversos casos semelhantes.

A Sociedade de Fotografia Psíquica de Paris, tem em seu museu diversas provas fotográficas de recém-mortos que se retrataram, e como sabeis a placa sensível não pode alucinar-se, só registra o que "vê".

 

A MORTE REFORMADA

 

Felizmente, graças às experiências espíritas, a morte está perdendo o seu caráter aniquilador.

Ainda há pouco, uma revista inglesa, fazendo alusão a esse fato, publicou um artigo com o título "A Morte Reformada" no qual o escritor diz quão diferente se encara hoje a morte. Nos carros fúnebres, na Inglaterra, foram abolidos o crepe negro, os cavalos pretos com penacho, os guardas que de luto empunhavam palmas negras. E agora, entre nós, como que imitando os europeus, nos convites de enterro, lê-se: "Pede-se não mandar coroas, nem flores". Nos cemitérios também estão sendo substituídos os dizeres, por outros mais consoladores e mais promissores, como por exemplo: "O corpo morre, mas o Espírito permanece na Vida Eterna"; - "A Morte é a noite da Vida terrestre e a manhã radiosa da Vida Espiritual".

De fato, é irracional fazer dormir em tão horrível lugar, um parente ou um amigo; ou então, pensar que pode existir paz, onde há pasto de vermes.

A Morte está, de fato, reformada, não é o fim do homem, mas um renascimento para o Mundo Maior, onde, pelo seu incessante dinamismo, o Espírito trabalha, estuda, progride, se felicita e se aproxima de Deus.

De modo, meus ouvintes, o que todas as religiões juntas e todas as ciências não puderam fazer, o Espiritismo o fez: "desarvorou a morte; tragou a morte; realizou o vaticínio de S. Paulo, que disse, que o último inimigo que seria abatido é a morte. O Espiritismo, semelhante ao Anjo Libertador, da gravura de Gustave Doré, esmagando o Dragão, entoa o hino da vitória, que nós espíritas repetimos num estribilho: "Ó morte! onde está o teu aguilhão? Ó túmulo, onde está a tua vitória!"

 

*

 

Para Jesus Cristo e sua Doutrina não há morte. "Deus não é Deus dos mortos, mas sim dos vivos"; Deus não é Deus dos corpos, mas sim dos Espíritos. Nos Evangelhos encontramos numerosas passagens que demonstraram ser a principal preocupação de Jesus, a demonstração da Outra Vida, da Vida Eterna. Ele diz positivamente: se crerdes em mim e nas minhas palavras, tereis a Vida Eterna.

Como já vos disse, o caso da Transfiguração no Tabor, onde Jesus evocou a presença dos Espíritos de Moisés e de Elias, é um fato inconcusso de Imortalidade e de sobrevivência individual, que o Mestre quis mostrar aos seus Discípulos.

A Imortalidade, a Vida Eterna era um assunto de tanto interesse para Jesus Cristo, que só no cap. 6.ª do Evangelho de S. João, o Mestre repetiu cinco vezes a sua existência e necessidade de conquistá-la.

Quando diversos discípulos deixaram Jesus, resolvendo não mais segui-lo, o Mestre perguntou aos doze: "Quereis também vos retirar-vos? Simão Pedro respondeu: "Para onde havemos nós de ir? Tu tens palavras de VIDA ETERNA, e nós temos crido e conhecido que tu És o Santo de Deus".

Vê-se claramente, pelo texto do Evangelho, que a permanência dos doze com Jesus era motivada exclusivamente pela Doutrina de Vida Eterna, de Imortalidade, que Jesus incessantemente lhes anunciava.

A Religião do Cristo não está fundada sobre homens, nem sobre convenções humanas, mas sim sobre a Rocha inabalável da Imortalidade, com o seu complemento de Vida Eterna. E por isso que ela não se limita ao nosso mundo e tem caráter universalista. Sua Palavra tanto serve para a nossa humanidade como para os habitantes de Júpiter, Saturno, Urano, ou qualquer dos outros planetas que flutuam na imensidade.

E foi, certamente, devido à certeza e ao conhecimento que tinham da Vida Futura, que os Apóstolos enfrentaram as maiores perseguições e sofreram os mais duros martírios. Essa fé que os animava, essa energia que os exaltava, provinha das sucessivas aparições que eles testemunharam, das suas conversações com o Cristo ressuscitado, com o Homem que tinha morrido, mas que voltou para demonstrar não ser a morte o fim da vida, mas a simples separação do corpo carnal.

E verdade que muitos atribuem às aparições de Cristo a um milagre, um fenômeno sobrenatural, mas elas estão submetidas à Lei Natural, que rege todas as criaturas humanas, Lei que se aplica a todos nós – e vem nos dizer que revivemos após a morte e nos será possível aparecer aos que nos choram.

Esses fenômenos se deram em todos os tempos, são tão freqüentes, hoje, que existem milhões de pessoas que afirmam ter tornado a ver os seus queridos e com eles conversado, assim como Maria Madalena, os Apóstolos e outros discípulos afirmaram ter conversado com Jesus, a quem viram depois da morte.

 

O FIM DO ESPIRITISMO

 

O Espiritismo pleiteia um lugar nos vossos corações, não para vos dominar, nem para vos cegar os olhos da razão, mas para erguer neles a flâmula sagrada da Fé, que ilumina os vossos destinos imortais. Ele, como Jesus, não precisa de vós, nem da vossa influência, nem do vosso dinheiro. Deseja somente tornar-vos felizes, cônscios da vossa situação, dos vossos deveres, do futuro promissor que vos espera.

Ciência sem professores, Religião sem sacerdotes, grande Laboratório de fatos que se manifestam em toda a parte, o Espiritismo constituiu-se o mais forte baluarte do progresso, o nosso mais poderoso ascensor para a Espiritualidade.

Abordando todos os assuntos indispensáveis ao nosso desenvolvimento intelectual e moral, o Espiritismo é um Templo aberto a todas as almas, sem distinção de cores, de nacionalidade, de posição social, de fortuna. Ele, como Jesus, se dirige ao sábio como ao ignorante, ao bom como ao mau, ao crente como ao descrente, ao justo como ao injusto.

Imitando Jesus Cristo que, na Ceia Pascoal, não deixou de dar o pedaço de pão e o cálix de vinho, bem como a Palavra de regeneração, conforto e fé, ao próprio Judas, que Ele sabia haver de traí-Lo, o Espiritismo também oferece o pão do espírito e o vinho da Vida Imortal, a todos, sem excluir judeus e gentios, fiéis e infiéis. A sua Palavra é, para todos, o bálsamo que conforta, a luz que vivifica, o amor que anima e a fé que salva.

Religião progressista que une a ciência à Fé; a Fé à Caridade; a Caridade à Humildade; a Humildade à ânsia de saber, de conhecer, de sondar o porquê das coisas, os enigmas do Universo, o Espiritismo é, incontestavelmente, o representante do Espírito Consolador, do Espírito da Verdade, do Paracleto que Jesus prometeu na última Ceia, aos seus Discípulos e a todos os que lhe quiserem seguir as pegadas para o alcance e posse das nossas mais nobres e belas aspirações espirituais.