O leitor, certamente, há de querer saber o que pensava o apóstolo de Kardec sobre a imprensa espírita brasileira – ele que era mestre maior em jornalismo. Antes de satisfazermos essa curiosidade, informemos que o professor Herculano Pires nutria por duas razões profunda admiração pelo jornalista baiano Luiz Olímpio Teles de Menezes: primeiro, por ser este o pai da imprensa espírita em língua portuguesa; depois, por haver ele fundado em Salvador (Bahia) o "Grupo Familiar do Espiritismo", instituição que é – como bem acentuou Herculano Pires – a legítima casa máter do Espiritismo no Brasil, pois sua fundação deu-se em 1865, ou seja, vinte anos antes da Federação Espírita Brasileira.
Teles de Menezes visto por Herculano Pires
Por ocasião das comemorações do Primeiro Centenário da Imprensa Espírita Brasileira (o célebre jornal pioneiro "O Eco do Além Túmulo" veio à luz em 1869), Herculano Pires, sob o pseudônimo de Irmão Saulo, publicou no "Diário de São Paulo" um belo artigo enaltecendo Luiz Olímpio Teles de Menezes. Ressuscitemos essa página:
"Teles de Menezes, o bravo jornalista, escritor e professor baiano que desfraldou a bandeira do Espiritismo em nossa imprensa, era abolicionista, lutava pela libertação dos escravos com o mais puro idealismo. Teve a feliz lembrança de ligar o seu jornal "O Eco de Além Túmulo", primeiro número, à Campanha Abolicionista, destinando um mil réis de cada assinatura para a alforria de crianças negras de sexo feminino entre 4 e 7 anos.
Assim, a imprensa espírita no Brasil nasceu perfeitamente integrada em sua dupla função libertária. Lutando pela libertação espiritual do homem, empenhava-se também na sua libertação material. É fácil compreendermos as dificuldades enfrentadas por esse jornal, lançado em julho de 1869, em pleno Império, que tinha o Catolicismo como religião oficial. A coragem de Teles de Menezes foi louvada pela Revista Espírita, de Allan Kardec. Além do problema religioso, "O Eco de Além Túmulo" enfrentava também o problema político, alistando-se ao lado dos que trabalhavam pela abolição da escravidão.
Esse ilustre e grande espírita baiano que foi Teles de Menezes deixou-nos um exemplo de firmeza doutrinária. Levantou contra ele o mundo católico da época, dominado por um fanatismo violento, e não se atemorizou de levantar também os senhores de escravos, feridos em seus interesses econômicos e financeiros pela luta abolicionista. Foi um nobre e belo gesto que devemos ter sempre em mente, quando o demônio das conveniências e do comodismo quiser afastar-nos do cumprimento de nossos deveres mais duros. Teles de Menezes compreendeu que não podia sustentar os princípios espíritas de fraternidade e caridade se não desse seu testemunho contra o desumano sistema de escravidão negra no Brasil.
O Espiritismo, como os Espíritos do Senhor, ensinaram e Kardec repetiu incessantemente, é uma doutrina que se destina a elevar a Terra na escala dos mundos. Não é apenas uma consolação pessoal, um lenitivo para as nossas dores e angústias individuais. É um verdadeiro impulso de transformação coletiva da Humanidade. Teles de Menezes deixou isso bem marcado no lançamento do primeiro jornal espírita no Brasil. Há cem anos ele soube fazer do Espiritismo uma bandeira de luta pela transformação do homem e da sociedade, através do ensino e da prática do bem.
Elevemos a ele – conclui Herculano – o nosso pensamento de gratidão neste centésimo ano do seu gesto pioneiro. Luiz Olímpio Teles de Menezes não foi apenas o primeiro jornalista espírita do Brasil, mas também o exemplo e o modelo do verdadeiro jornalista espírita para todo o mundo."
Uma visão realista da imprensa espírita
Herculano Pires desde sua conversão preocupou-se com os rumos da imprensa espírita. Em uma entrevista estampada em 1975 no "Anuário Allan Kardec", da editora Lake, o mestre fez uma análise do jornalismo doutrinário, profunda e perspicaz. Pincemos alguns trechos básicos.
"Encaro a imprensa espírita como uma necessidade natural da divulgação doutrinária, da interligação dos grupos, centros e demais instituições, da movimentação de opiniões e discussão de temas para a boa orientação do movimento doutrinário. É a isso que ela se propõe, desde o lançamento da Revista Espírita, de Allan Kardec, primeiro órgão da imprensa espírita no mundo, e em nosso país desde o aparecimento de "O Eco de Além Túmulo", o admirável jornal de Luiz Olímpio Teles de Menezes, que circulou em Salvador, na Bahia, a partir de julho de 1869.
A imprensa espírita se dirige, portanto, a dois públicos: o espírita e o não espírita. No tocante a este último, sua função é não somente de divulgação e esclarecimento da doutrina, mas também de participação dos problemas que se relacionam com os ideais espíritas. A Revista Espírita, por exemplo, noticiava e comentava acontecimentos extradoutrinários que de alguma forma interessavam à doutrina. "O Eco de Além Túmulo" fazia o mesmo, interessando-se por questões que se relacionavam com os princípios doutrinários, como no caso da Abolição da Escravatura. O "Eco" chegou a destinar uma parcela de suas rendas a uma caixa destinada a libertar escravos. Participou ativa e corajosamente da campanha abolicionista.
Sendo o Espiritismo uma doutrina de vivência social, destinada a influir na transformação do mundo, não se pode conceber uma imprensa espírita alheia ao mundo, engolfada em si mesma. Jornais e revistas espíritas não podem ser apenas boletins doutrinários afastados da realidade social, mas também não devem ultrapassar os limites dos interesses doutrinários e imiscuir-se em debates políticos ou disputas de grupos. Sua função principal é esclarecer e orientar os rumos da doutrina.
Não há dúvida que temos uma imprensa espírita atuante, com numerosos órgãos, alguns de longa tradição. Apesar disso, falta-lhe maturidade. Muitos desses órgãos são puramente locais, restritos a um bairro ou a uma cidade, e outros se colocam a serviço executivo da instituição mantenedora, como se fossem boletins particulares. Outros se desgastam chovendo no molhado, só publicando mensagens mediúnicas e pequenos artigos sobre questões pacíficas. Temem a discussão, o debate, a agitação de ideias. Com o movimento de unificação estabeleceu-se um clima de autocensura que vai reduzindo nossa imprensa espírita a uma apatia medrosa, como se estivesse submetida a uma orientação eclesiástica. As mensagens de Emmanuel contra a crítica maledicente foram interpretadas como condenação da crítica em geral. A palavra crítica virou sinônimo de pecado. São poucos os órgãos abertos, arejados, como o jornal "Mundo Espírita", do Paraná, que se pode ler sem a sensação desagradável de asfixia, de sujeição servil a grupos autoritários. (Ao tempo em que Herculano deu esta entrevista quem dirigia "Mundo Espírita" era Lauro Scheleder.)
Por outro lado, há casos curiosos de órgãos sem nenhum critério doutrinário, divulgadores de matérias que contrariam princípios fundamentais do Espiritismo, revelando ignorância ou displicência de seus diretores e redatores. Os congressos de jornalistas espíritas têm por finalidade modificar esse panorama tristonho, dar maior consciência jornalística aos que militam em nossa imprensa espírita, mas seus resultados têm sido limitados pela falta de apresentação de teses que coloquem esses problemas em debate.
Não é fácil conseguir-se correções imediatas dessa situação. Ela resulta, em primeiro lugar, da falta generalizada de cultura em que vivemos e especialmente da falta de cultura espírita. Somente nos últimos trinta anos o nosso país começou a sair de um longo sono de ignorância generalizada, em que vegetava a maioria da população. À tona dessa indolência mental flutuava, como estranha floração, uma elite cultural bacharelesca, dominada por influências europeias e norte-americanas. Essa elite recebeu o Espiritismo como uma novidade que chegava da França, mas logo o desprezou, em face das campanhas desencadeadas por padres e médicos, que confundiam o Espiritismo com macumba e feitiçaria. O povo então o acolheu, pois a intuição popular reagiu contra o pedantismo das elites. Mas o nível baixo da cultura popular não permitiu o desenvolvimento da doutrina entre nós.
Os resíduos desse populismo espírita continuam dominando a nossa gente. E na proporção em que o número de adeptos crescia, surgiam os chamados líderes espíritas, que podemos classificar, a grosso modo, em dois tipos dominantes: os místicos ignorantes, gente de boa fé, mas incapazes de compreender a doutrina, e os pastores, de nível cultural mediano, que apascentavam os rebanhos com suas cantilenas românticas. Desses dois tipos nasceram os criadores da imprensa espírita, cujos rebentos são hoje os amadores e as vedetes. Os primeiros, os amadores, são criaturas boas e bem intencionadas, que sustentam jornais e revistas com dedicação, mas sem espírito jornalístico. Os segundos, as vedetes, são criaturas ativas e inquietas que pretendem brilhar nas folhas espíritas, tratando a doutrina com superficialidade e exibindo uma cultura de empréstimo. De um lado e de outro desfiguram o Espiritismo acreditando que o servem.
Os mais perigosos são as vedetes, que não perdem a menor oportunidade de exibir-se nas folhas modestas ou nas pretensas tribunas dos centros, com arroubos oratórios que arrancam chuvas de palmas da assistência.
Isso, naturalmente, num sentido geral, porque felizmente há criaturas sinceras que lêem e estudam, escrevendo com bom senso e procurando ensinar ao povo a verdadeira doutrina. São os jornalistas e oradores que nos salvam o sal (embora apenas uma pitada) que dá sabor à imprensa espírita. Não fossem esses elementos responsáveis e não teríamos imprensa. São eles os descendentes espirituais de Luiz Olímpio, de Bezerra, de Batuíra, de Cairbar Schutel, de Petitinga e outros nomes apostolares do passado."